Copa com 48 times: inclusão ou politicagem?

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Faltando poucos dias para o começo do Mundial, o torneio de futebol mais famoso do planeta viverá sua penúltima edição com 32 equipes antes do polêmico aumento de participantes

Por Matias Diego

Uma das promessas de Gianni Infantino durante sua campanha para o cargo de presidente da FIFA foi, além de limpar o nome da instituição depois dos diversos casos de corrupção e compra de votos que abalaram a imagem da entidade, fazer com que o futebol fosse ainda mais global do que já é. Eleito em fevereiro de 2016 e menos de um ano depois, em janeiro de 2017, o suíço de ascendência italiana anunciava que a partir da Copa do Mundo de 2026 o torneio passaria a ter 48 times, 16 a mais do que possui atualmente.

Durante a coletiva de imprensa logo após o anúncio de tal incremento, Infantino usou como argumento base que o Mundial era muito mais que Europa e América do Sul, e que dessa forma “mais países poderão viver o sonho” de disputar uma Copa. As reações à tal mudança foram diversas, tanto positivas como negativas.

Gianni Infantino – Foto: Doha Stadium Plus

Do lado dos detratores estão nomes importantes como o de Aleksander Ceferin, atual presidente da UEFA, que na época declarou que com 48 times seria muito difícil encontrar algum país que tivesse a estrutura adequada e suficiente para receber tamanha quantidade de visitantes (equipes, imprensa e torcedores). “Nenhum país da África poderia, a China, talvez, os Estados Unidos também talvez, e é isso. 48 é um número grande. Será interessante de ver.”  A crítica de Ceferin é válida, ainda mais quando se sabe que para organizar uma Copa o país sede deve aportar uma grande quantidade de dinheiro para cumprir as exigências do “padrão FIFA”, o que limitaria ainda mais a chance de uma nação menos desenvolvida de receber o evento.

Dentro desse cenário a alternativa mais plausível seria a de candidaturas conjuntas, com múltiplas sedes em mais de um país. Isso já aconteceu, de forma exitosa, durante a Copa de 2002 na Coréia do Sul e no Japão, e na Eurocopa de 2012 sediada na Polônia e na Ucrânia. Dessa forma, os impactos econômicos são distribuídos e a proximidade geográfica entre os países ajuda no deslocamento durante o torneio. No caso da Copa de 2026, a candidatura conjunta México-Canadá-Estados Unidos já foi oficializada, mas terá que aguardar até 2020 até que seja confirmada a próxima sede do evento.

Outra das vozes dissonantes em relação ao aumento de times é a de Karl-Heinz Rummenigge, ex-jogador da seleção da Alemanha, presidente da Associação de Clubes Europeus (ECA, em ingês) e diretor executivo do Bayern de Munique. Nesse caso, antes mesmo da oficialização do incremento de equipes, uma carta enviada pela ECA para Infantino dizia que seria inaceitável que houvesse um número maior de jogos durante a Copa, pois isso atrapalharia o planejamento dos grandes clubes europeus. A crítica não se limitou a isso, e o até então novo presidente da FIFA foi acusado de deixar o esporte de lado para favorecer outros interesses: “Temos de nos focar de novo no esporte […] Política e negócios não devem ser a prioridade exclusiva do futebol”. Com “política e negócios” a carta se referia à supostas promessas que Infantino teria feito durante sua campanha para conseguir os votos necessários para ser o novo presidente da FIFA, além de insinuar que essa manobra da entidade máxima do futebol busca principalmente um aumento das receitas de direitos de transmissão.

É evidente que Rummenigge representa uma associação com grandes clubes europeus que têm seus próprios interesses e que nunca esconderam sua reprovação em relação aos jogos de seleções nacionais, pois para tais equipes os jogos internacionais são sinônimo de cansaço e lesão para seus atletas. Porém tal pressão não surtiu efeito e dias depois Infantino anunciava seu ambicioso plano: uma Copa com 48 times. Buscando uma saída diplomática, o suíço apresentou a nova estrutura do torneio conservando o mesmo número de dias da versão atual (32) e com os mesmos 7 jogos necessários para que um time seja campeão. As principais mudanças são que a partir de 2026 serão 16 grupos com 3 equipes cada, com o número total de jogos pulando de 64 para 80, além de uma nova fase: os 16 avos de final.

Em relação ao calendário, o presidente da FIFA afirmou: “Estamos falando de uma competição a cada quatro anos. São 16 partidas a mais, quatro jogos por ano. Isso não vai ter impacto no calendário. Temos que discutir o calendário, achar soluções para as ligas, os clubes, os jogadores. Mas o impacto de uma competição que se joga a quatro anos não é relevante.”

Mesmo tendo encontrado soluções factíveis para os problemas citados anteriormente, talvez a principal crítica dessa nova fórmula para a Copa do Mundo seja a banalização e a queda de qualidade da competição. Com mais vagas haverá mais times da África, Oceania Ásia e América Central, o que em teoria deixaria o campeonato mais fraco. É o que pensa outro ex-jogador alemão, Uwe Seeler: “Será algo entediante e não vai ser bom para o futebol como já pôde ser visto na Eurocopa (se refere ao aumento de 16 para 24 seleções durante a última edição do torneio, em 2016). Mas era claro que algo assim iria acontecer para arrecadar mais dinheiro.”

Torcedores da África do Sul durante a Copa de 2010 – Foto: Marcello Casal Jr/ABr

Mas nem todos criticaram esse novo formato. Um dos principais técnicos do mundo, o português José Mourinho defendeu, em entrevista ao site da FIFA dias antes do anúncio oficial da expansão, a adição de equipes com o argumento de que isso faria com que a Copa fosse ainda mais do que um “incrível evento social”, com a possibilidade de que países sem expressão no futebol ganhem mais experiência e motivação, e com isso possam melhorar seu investimento nas categorias de base.

Outros importantes personagens do mundo do futebol também se declararam a favor da medida, como Carles Puyol, campeão mundial com a Espanha em 2010: “Um Mundial é a festa do futebol e quanto mais seleções possam participar, melhor; quanto mais torcedores possam aproveitar, melhor;” e Samuel Eto’o, estrela de Camarões, que declarou ao jornal espanhol “As” que essa medida é boa “para que os países mais pobres, principalmente os africanos, também possam sentir a emoção de participar de um Mundial”.

Críticas e elogios à parte, todas as dúvidas em relação ao novo formato da Copa do Mundo só poderão ser realmente sanadas quando a bola começar a rolar, dentro de 8 anos, e até lá a única certeza que os amantes do futebol podem ter é que esse esporte continuará a cativar e a emocionar a todos que o seguem, independentemente do que aconteça fora das 4 linhas.

Principais mudanças para a Copa de 2026:

– 48 times

– 16 grupos de 3 times cada

– 80 jogos no total

– Uma nova fase: 16 avos de final

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