Tudo nela é de se amar

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Madalena é uma jovem negra de 20 anos e faz parte da “geração tombamento”, que é integrada por jovens negros que carregam esteticamente a cura para o seu próprio tormento. Essa dor não nasceu com ela, começou a sofrer com isso ainda criança, quando descobriu no colégio que o amor próprio é privilégio.

As crianças debochavam da cor de sua pele, cabelo, formato do nariz, boca e todos seus gostos musicais e culturais que traziam estampados a ancestralidade negra. Por isso o seu amor próprio foi desenvolvido e lá pelos dezoito anos concluídos: seu padrão de beleza não era comum.

Quando esse processo de autoconhecimento foi executado a vontade da jovem era sair por aí abraçando e doando todo amor do mundo para meninas, jovens e senhoras negras, pois sabia exatamente qual era o sentimento delas e o quanto de carinho foram negados a ela durante a vida.

O racismo é tão devastador que influencia diretamente na personalidade das pessoas. Foi o que aconteceu com Madalena. Qualquer um que teve/tem contato com ela, a descreve como uma pessoa extremamente tímida, fato que não é verdadeiro. O processo de solidão somado as opressões sofridas durante uma vida inteira, a faz ter medo de falar, expressar a sua opinião, se relacionar afetivamente e até de criar laços de amizades. Isso faz com que ela se apresente de forma introspectiva para o mundo

Apesar disso, hoje todos aplaudem a sua independência e a capacidade de resolver problemas e curtir a vida na maioria das vezes sozinha, sem depender da companhia de outro alguém. Mal sabem esses que enchem a boca para fazer elogios que tudo isso é o mecanismo por ela encontrado para superar uma vida inteira de solidão

Até os treze anos Madalena negava todo e qualquer tipo de intervenção para o seu embelezamento. Não pintava as unhas ou passava um batom. Seu cabelo (crespo) ainda era cuidado, penteado todos os dias pela manhã e preso por sua mãe.

Em 2011 começou a rolar a tendência de esmaltes fluorescentes. Todas as meninas estavam vidradas nos vidrinhos rosa, amarelo, verde, laranja e roxo. Foi aí que Madalena começou a olhar para aquilo e com outros olhos e resolveu testar também. Pediu para sua mãe passar na perfumaria e comprar um esmalte rosa e o outro amarelo. A vontade de testar as cores que resolveu abrir os vidrinhos e esmaltar suas unhas sozinha. O resultado não ficou nada bom, mas ficou encantada de ver o efeito colorido em suas mãos.

A partir d então sua paixão foi aumentando cada vez mais. Resolveu pedir para sua mãe comprar o resto da coleção. Depois pegou uns esmaltes velhos de sua vó, outros da sua prima. Ia todo domingo a tarde na casa da sua tia, pois sabia que ela estaria fazendo as unhas. As suas buscas na internet estavam sempre atreladas a esse universo, e aos poucos foi conhecendo blogs (a quais se tornou fiel) que contava todas as novidades. O amor foi crescendo de tal maneira que quando viu já tinha em sua coleção cem vidrinhos de diferentes cores.

Os algoritmos de seu computador começaram a direcionar as buscas para o universo da maquiagem. No começo ela se mostrava bem resistente em relação ao assunto, até assistir um vídeo (por acaso) e resolver reproduzir o que ela viu com alguns produtos de sua mãe. E não é que deu certo? A partir daí a busca por tutoriais foi aumentando e a vontade de maquiar também.

Seu irmão mais velho tinha uma viagem agendada para os EUA, foi aí que ela resolveu comprar produtos para montar o seu kit. Quando ele chegou com suas novas aquisições foi uma felicidade gigantesca. Era uma técnica diferente para cada dia da semana. Todas ficavam impressionados com a sua facilidade de reproduzir o que era assistido na internet. Esse processo de construção de vaidade foi fundamental para o seu autoconhecimento.

Graças aos cuidados da mãe, seu cabelo nunca passou pelo o processo de alisamento. Desde pequena frequentou um salão especializado em cabelo afro e quando completou onze anos começou a fazer permanente afro, que é uma química feita para criar definição nos cachos. Falar disso hoje, em 2018, época que cada vez mais as mulheres assumem seu cabelo natural, pode parecer um pouco clichê. Mas alguns anos atrás era um ato extremamente corajoso, pois o cabelo liso imperava de maneira quase absoluta. Cachos e crespos não tinham vez na ditadura da chapinha e quem ousava a assumir os cabelos naturais sofria repressão.

Aos quinze anos o YouTube era o melhor amigo da jovem, pois era de lá que saiam suas referências de beleza. Certo dia, em mais uma de suas navegações, ela se deparou com o vídeo da YouTuber Rayza Nicácio. Uma jovem branca, de lábios carnudos e cabelos cacheados. Assistiu um vídeo, dois, três e dentro da sua cabeça começou uma revolução e um processo de entendimento e amor pelo seu cabelo.

Foram dias de imersão dentro daquele conteúdo e o início de um processo de entendimento que seus cabelos não deveriam ser submetidos a processos químicos. Ela resolveu conhecer, aceitar e amar seus fios com a sua forma natural. E foi aí que a coragem veio e aquele cabelo que ia até o meio das costas, todo cacheado, se transformou em um cabelo CRESPO, black power acima dos ombros.

Quando essa decisão foi tomada ela estava prestes a completar dezessete anos, época que toda menina quer ter um namorado, beijar na boca e perder sua virgindade. Madalena resolveu abrir mão do que lhe restava de padrão de beleza e assumir a forma natural do seu cabelo. Comentários do tipo: “seu cabelo era mais bonito antes”, “por que fez isso”, “faz química de novo”, “ eu conheço um produto ótimo para o seu cabelo” se tornaram presentes na sua vida.

Os olhares maldosos a chateavam muito, porém foi nesse momento que veio o seu entendimento enquanto mulher negra. Passou a compreender porque o tratamento que ela recebia era diferente das meninas brancas, porque não tinha amigos e nem pretendentes a namorado, porque não era convidada para dançar nas festas, porque todo mundo zombava dela.

Foi nesse momento que ela entendeu que precisava se fortalecer, pois a tendência de tudo era piorar, pois seu corpo é hipersexualido e que por isso os rapazes começariam a se aproximar apenas para saciar a sua vontade sexual. Iam transar com ela sempre escondido dos amigos e jamais a apresentaria como namorada para a família. Entendeu também que o mercado de trabalho seria extremamente exigente com ela.

Em um primeiro momento a imagem que ela via refletida no espelho com aquele cabelo curto não a agradava em nada, por conta das pressões sociais. Mas o entendimento que ele trouxe foi fundamental para entender o que seu corpo representava naquela sociedade racista.

Esse processo foi fundamental para a construção da sua autoestima e hoje ela reconhecesse o tamanho da força e coragem que aquela menina de dezessete anos teve. Os anos se passaram e hoje quando seus olhos encontram o espelho e diferente dos outros enxergam beleza ela chega à conclusão de que tudo nela é de se amar. Os músculos do seu corpo, a pele iluminada, o cabelo crespo, a forma como enfrenta vida. Sua pele preta já nasce tatuada com toda memória ancestral e cheia força.

A sua estética está perfeitamente moldada graças ao seu conhecimento em beleza e o entendimento do que a cor de sua pele representa. Apesar de tudo o vazio acadêmico ainda é uma constante em sua vida. Essa questão não está atrelada a uma falta de vontade e sim uma falta de contemplação, pois quando abre o livro ela não se enxerga, por isso poucas coisas ali a satisfaz.

O feminismo aparece para tentar concertar isso, mas ninguém se lembra de que enquanto as brancas lutavam pelos seus direitos era uma preta que limpava a casa e cuidava dos filhos dela. Essa questão vem sendo trabalhada e construída, mesmo sendo um processo muito inconstante e cheio de inseguranças.

 

 

 

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