Os novos protagonistas da literatura em São Paulo

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Por Giulia Villa Real Seabra

Já sabia Caetano Veloso sobre as “duras poesias concretas” das esquinas de Sampa. O “labirinto místico” de Criolo carrega uma simbologia incontestável em suas ruas. Liberta alguns, aprisiona outros, violenta, caótica, injusta, bela, feia, cheia e sozinha. A cidade sucinta emoções das mais diversas em cada um de nós, mas, uma coisa é fato: ela inspira a arte. Se tudo pode virar poesia, aqui essa sensação é multiplicada por mil.

Contudo, durante muito tempo, a poesia e o meio literário permaneceram num universo um tanto quanto hermético. Não se conhecia tanto sobre todas as experiências possíveis dentro da cidade já que, mesmo que uma pessoa de fora das periferias tentasse descreve-las de alguma forma, por exemplo, não seria possível entender a sua realidade completamente.

Esse tipo de visão, só alguém que sente a experiência na pele poderia passa-la com exatidão. Mas a boa notícia é que nas últimas duas décadas esse fato tem se alterado. O espaço de visibilidade era sim restrito as elites, mas a criatividade e a inspiração nunca foram.

“O meio artístico e literário é bastante restrito e seleto, e nós estamos fora dele. Estamos fora das grandes editoras e produtoras. Assim, qual seria a chance de o artista independente dar alguma visibilidade para o seu trabalho? Nenhuma. A saída então foi criarmos a nossa própria cena. Não é a toa que os saraus literários apresentaram um crescimento vertiginoso nas duas últimas décadas. Isso reflete a efervescência criativa dos artistas que cada vez mais, demandam espaços para se expressarem. ” disse Débora Garcia, uma das fundadoras do Sarau das Pretas.

Logo do Sarau das Pretas/Fonte: Sarau das Pretas

O Sarau das Pretas é um dos presentes que o meio literário ganhou com a ascensão de movimentos vindos da periferia. Nasceu em 2016 quando Débora foi convidada pelo SESC Pompéia a fazer uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher. “Assim, em nossa primeira edição reunimos um público muito expressivo, em sua maioria mulheres negras. Foi muito simbólico para nós perceber nossas palavras ecoando, reverberando entre nossas iguais. Ao final da atividade, já nos questionaram sobre a data do próximo sarau e nos meses seguintes, recebemos mensagens e incentivos para continuar. “ disse a artista.

Assim como se deu para o Sarau das Pretas, se deu para muitos outros sarais por toda a cidade. Enfim, o mundo literário se abriu para além da academia e dos intelectuais. A Cooperifa, idealizado pelo artista Sérgio Vaz, é um dos pioneiros no cenário cultural periférico. Completando 16 anos em 2017, os eventos ocorrem no Bar do Zé do Batidão, na Zona Sul de São Paulo.

Robson Luchesi, frequentador dos sarais organizados pela Cooperifa entre outros, a sete anos, se interessou pela iniciativa porque acha que, antes de qualquer coisa, são espaços para trocas de informação e para fugir um pouco da mesmice do mundo: “Um ponto muito importante é que dos sarais partem outras atividades literárias, musicais, entre outras, nas escolas, praças, em todo canto. Assim é uma manifestação de quem está na periferia do mundo e que não tem, necessariamente, a ver com localização geográfica. “

Sarau da Cooperifa/Fonte: Facebook Cooperifa

Quando perguntei sobre o caráter de resistência dos sarais, Robson foi incisivo “Não acredito que esse movimento seja de resistência, quem resiste está sempre na defensiva: trata-se de um movimento de enfrentamento, de propor e fazer, de discutir a condição de cada um, as desigualdades sociais, econômicas.” E completa como um verdadeiro apaixonado pelos eventos “Os sarais atuais são mais do que faróis, são a própria luz nessa escuridão que o mundo convencional, e mais agora, quer impor. “.

Além dos sarais, seus primos mais jovens, os slams, ou campeonatos de spoken word têm pipocado aqui e ali na cidade. Só em São Paulo são mais de 25 que se espalham por todas as regiões. A descrição do que é performance, feita por Paul Zumthor em seu livro “Performance, Recepção, Leitura” explica bem o que são os slams poetry “Na situação performancial, a presença corporal do ouvinte e do intérprete é presença plena, carregada de poderes sensoriais, simultaneamente, em vigília”. Em suma é isso: a junção do poeta e do espectador que, juntos, levam os sentidos ao seu ápice.

O conceito de slam surgiu nos anos 80 na cidade de Chicago nos Estados Unidos e foi idealizado pelo poeta e construtor civil Mec Kelly Smith. O slam surgiu como um refúgio aos recitais de poesia que eram muito estáticos e permaneciam adormecidos e desconhecidos pelo grande público.

Inicialmente os eventos aconteciam num bar de jazz em Chicago, mas no ano de 1986 eles começaram a se espalhar por várias cidades estadunidenses. Cresceu junto e até hoje é primo do hip-hop, isso acontece por causa da natureza poética do rap que os liga e como resultado grande parte dos “slammers” são MCs também. Slams ou poetry slams são, basicamente, eventos de “spoken words” ou traduzindo, poesias faladas que procuram juntar poesia e performance em clima de competição.

Para Jéssica Balbino, jornalista e idealizadora do projeto “Margens”, que analisa o movimento da literatura marginal atual, nasceu de um mestrado e hoje já assumiu a forma de um blog, um livro e um documentário, os sarais e slams se tornaram objeto de pesquisa e de paixão.

Balbino conheceu o universo da literatura periférica desde cedo através do hip-hop. “Foi através da cultura hip-hop, com as revistas Literatura Marginal, da Caros Amigos, organizadas pelo Ferréz. Isso foi em 2001/2002. Desde então, me dedico, mesmo que empiricamente, a pesquisar o universo. E a vivenciar também. Passei a ler tudo que saia e eu conseguia ter acesso. A conversar com outros autores. A ler zines que circulavam na época.”

Hoje, com o conhecimento acumulado por anos, a jornalista consegue entender o movimento através de uma visão mais ampla “Os slams e saraus são espaços onde nossa voz é ouvida. Isso já diz muito. É um local onde o microfone – ou o agente que declama – potencializam o que muitos ali querem dizer. O Brasil tem, por característica, ter poesias bastante engajadas socialmente, uma vez que estamos atravessando uma crise, que temos inúmeros problemas sociais, que tivemos 400 anos de escravidão, ditadura e ainda não sabemos ser democracia. Deste modo, quando um poeta vai à frente de uma plateia de 100, 200 ou 400 pessoas e faz sua poesia, isso dialoga com a maioria dos ouvintes ali. “

Com eventos desse tipo, que usam uma linguagem que acolhe qualquer um que esteja disposto a apreciar, a cultura atingiu um novo público que permanecia à margem desse mundo. Mas como essa disseminação aconteceu? Aqui todos os entrevistados concordam: a internet e, mais especificamente, as redes sociais.

“Um ponto que favorece esta visibilidade são os vídeos. Muitos slams gravam vídeos dos poetas declamando e, em tempos de redes sociais, estes alastram e atingem milhões de pessoas, o que é incrível, porque num país onde a hegemonia da comunicação pertence a alguns grupos endinheirados, termos vídeos de poetas que dialogam sobre problemas sociais atingindo milhões de brasileiros, é um avanço.” diz Balbino sobre o assunto.

Mas não podemos nos das por satisfeitos. É bem verdade que os movimentos conseguiram muita visibilidade e por isso têm sofrido um boom nos últimos anos. Mas a desproporção entre os espaços dados em veículos como a TV, principal meio em que o brasileiro obtém informações, é enorme. “Mas ainda é pouco. A TV está nas nossas casas 24h por dia apoiando políticas que nem sempre beneficiam o povo. Uma poesia de 3 minutos é muito pouco neste contexto, precisamos de mais.” Completa Balbino.

Fato que é que, nenhum desses novos protagonistas da cena literária urbana está pensando em se contentar com o espaço que tem. Cada vez se busca ir mais e mais longe. A primavera dos que sempre ficaram a espreita no mundo cultural só acabou de começar.

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