Não vai dar certo, mas vai ter que dar

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Crônica por Débora Bandeira

Não vai dar. Já é meia-noite, estou cansada, mas ainda não terminei aquele trabalho. Preciso terminar. Mas não vai dar! Amanhã tem aula às 7h30, tenho que acordar antes das 5h. Não quero ir. Do que adianta? Meu corpo está exausto, minha mente pede paz, calma e um filme desses clichês de Sessão da Tarde que acaba tudo bem no final. Tenho que acreditar que tudo acaba bem. Preciso ir.

Vai ter que dar. É o meu sonho desde criança, quando vi pela primeira vez o Tiago Leifert apresentando o Central da Copa em 2010. Ali, eu me vi apaixonada pelas duas coisas que mais moveriam a minha vida: o futebol e o jornalismo. Vai ter que dar. Eu preciso prestar contas àquela menina de 12 anos que acreditava ser possível trabalhar com o que ama.

Não vai dar. Acordei, tomei café (com essa vida, só café segura), minhas pálpebras pesam, minha cabeça dói, mas já levantei mesmo. Vou ter que ir. Só espero que tenha lugar para ir sentada no ônibus, não estou aguentando. Não tem. Está lotado. Não são nem 6 horas da manhã. Ainda tenho que pegar metrô. Ainda tem outro ônibus. Ainda tem chão.

Vai ter que dar. E já nem é mais pela menina de 12 anos. É pela de 14, que conseguiu sair da escola pública e sentiu esperanças ao conseguir uma bolsa de estudos integral para o ensino médio em um colégio particular, que ainda era tão imatura, mas já entendia que aquilo era a chave para conseguir alcançar uma gradução em uma universidade de renome. É pela menina de 16, que trocou a paixão do futebol pela política, que se enxergou como ser social, que começou a se dar conta das desigualdades sociais que a cercavam.

Não vai dar. O professor passou mais um livro. Ainda nem terminei o da outra aula. Quando é que vou conseguir arrumar tempo, meu Deus? Tomara que tenha em PDF, dá pra ler no ônibus. Ainda tive que ouvir da colega do lado que baixar na internet é contra a lei, que “é só 40 reais”. Com certeza ela não sabe o quanto custa pra mim. Assim como ela não entende que mesmo eu não pagando passagem, o dinheiro não rende. Que se eu não tivesse bolsa-alimentação, não teria como almoçar antes de ir trabalhar, então, aí que não ia dar mesmo!

Não vai dar, porque ela e tantos outros não entendem que só uma bolsa de estudos não basta,que é preciso política de permanência, que é preciso diminuição de custos, porque lá na frente, um real faz tanta diferença que eles nem tem ideia… Mas eles não entendem, dizem que é vitimização. Quanto ao livro, não tem em PDF. É recente, não tem em sebo, nem na biblioteca da faculdade. Vou ter que pagar os 40 reais. É, não vou poder ir no cinema esse mês, porque não vai dar.

Vai ter que dar. Sempre foi o meu sonho. Batalhei por isso. Foram dias, fins de semana, meses, dedicado ao tão aterrorizante vestibular. Eu sabia que não teria dinheiro para me mudar. Eu sabia que não teria como pagar uma faculdade particular. Ou era USP, ou era bolsa ou nada. Vai ter que dar. Eu passei na primeira chamada do Prouni da PUC-SP. Minha documentação foi aprovada. É a melhor universidade particular do país. Vai ter que dar.

Não vai dar. O professor da segunda passou outro trabalho. Ainda estou pensando naquele que me fez dormir meia-noite e que eu não terminei. Eu só queria dormir umas horas a mais, mas não vai dar. Ele acabou de perguntar quem já foi no Museu do Louvre. Os colegas começaram a relatar que a Monalisa é muito pequena, que tem um aglomerado de pessoas em volta e ninguém a olha, tiram selfie. Queria ter uma selfie com a Monalisa. Meses atrás, eu não tinha ido nem no MASP.

Vai ter que dar. Meu Deus, me dá forças, porque vai ter que dar. Eu sou a primeira integrante da minha família materna a pôr os pés em uma universidade. Eu me esforço, eu entrego tudo no prazo, eu tento dar o melhor de mim, eu já passei por tanta coisa para chegar até aqui… Vai ter que dar.

Não vai dar. Almocei, fui pro estágio, eu até gosto do que faço, mas não é o que eu quero. Abriu uma vaga naquele jornal que eu tanto admiro. Acho que vou mandar meu currículo. A vaga pede inglês fluente, pede conhecimento avançado em pacote Adobe, pede experiência na área. É, não vai dar.

É, não vai dar mesmo. Eu precisava aprimorar meu inglês, aprender o básico de espanhol ou até mesmo mandarim, afinal, não a chamam de ‘língua do futuro’? E no futuro, eu preciso de emprego. Mas, para isso, eu devia guardar parte do salário do estágio para pagar um curso de línguas. Mas guardar o que, se o que eu ganho não dá pro mês? E, mesmo se desse, com que tempo, meu Deus? Se eu saio 5h e chego 21h de segunda à sexta? Se de fim de semana preciso dar conta dos trabalhos da faculdade que não dou na semana, tentar descansar e ver meu namorado? É, não vai dar.

Talvez dê. O dia já está acabando, peguei o metrô, esperei o ônibus por mais de meia hora, mas, pelo menos, vou sentada. Vai dar para dormir. Descansada, vou conseguir terminar aquele trabalho de ontem a noite. Vai ficar tudo bem. O ônibus quebrou. Logo hoje que eu ia chegar um pouco mais cedo e ia conseguir lavar o cabelo. Que vida é essa que nem para isso eu tenho tempo? É, mas não vai dar. De novo. O sistema é duro, é intransigente, é inflexível, e me lembra todos os dias que não vai dar. Que eu não devia ter sonhado tanto, que eu não devia ter ido tão longe, que isso nunca foi para mim, porque é insuportável aguentar essa rotina e, um dia, ele vai me vencer. Pelo cansaço, que seja, porque não está dando mais.

Mas vai ter que dar. Vai ter que dar porque a minha luta vai além disso, porque eu devo muito aos meus pais que saíram cedo do Nordeste para trabalharem como operários em São Paulo. Desistir seria dizer que a educação não liberta para aqueles que, mesmo sem nunca terem sonhado com um ensino superior, sempre me incentivaram. Vai ter que dar, se não por mim, por todas as outras pessoas que vieram de baixo, que estudaram em escola pública, que escutaram dos outros que aquele lugar não era para elas e que eu possa mostrar que é sim!

Bom, não vai dar para lavar o cabelo. Vou atrasar. Ainda tenho que tomar banho, jantar, terminar aquele trabalho e dormir. Amanhã tem aula. Preciso ir. Estou cansada. Não vai dar, meu Deus, mas vai ter que dar, porque como escreveu Carolina Maria de Jesus, “somos escravos do custo de vida” e eu sou só mais uma nessa rotina. Então, vai ter que dar. Só por mais uns dias. Só por mais alguns semestres. Só por uma vida.

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