Inseguros e capazes

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Uma crônica por Giovana Costa

Mariana acordou totalmente cansada, dormiu muito pouco na noite anterior pois ficou estudando até tarde, ela mal pode acreditar quando o despertador tocou:

― “Mas já está na hora? Como seis horas podem passar tão depressa?!”

Se levantou, vestiu as peças de roupa que já havia separado antes de dormir, tomou só uma xícara de café, se despediu dos pais e saiu em direção ao ponto de ônibus. Ela sabia que deveria se alimentar melhor mas devido a correria do dia-a-dia acabou se acostumando. Quando o ônibus chegou, Mariana entrou com cuidado pois já estava lotado. Tentou se ajeitar no cantinho livre que achou entre dois bancos e ficou lendo o resumo da prova que estava a aterrorizando já há algum tempo. Ela tinha estudado bastante sobre o assunto,  ainda não se sentia segura o suficiente. Mariana sempre tentou lidar da melhor maneira possível com todas as situações que lhe desafiavam, mas nunca deixou de ser insegura. Ela sempre escondeu muito bem mas no fundo sempre soube o que a fazia ficar nervosa.

Chegando no metrô, Mariana tentava se equilibrar no vagão cheio enquanto tentava continuar lendo seu resumo. Se virou assustada quando sentiu uma aproximação estranha. Infelizmente ela estava habituada a se esquivar de homens que se aproveitam da situação e tentavam encostar nas mulheres no vagão. Irritada, olhou feio e tentou continuar seus estudos. Ela sempre ficava incomodada porque se sentia impotente, mas ao mesmo tempo, sentia orgulho de si mesma de saber que hoje em dia conseguia revidar com olhares insatisfeitos, levando em conta que na época da escola, Mariana simplesmente obedecia os homens e achava que feminismo era pura doutrinação. Foi na universidade que ela entrou em contato com o movimento e se sentiu abraçada, segura e finalmente mais disposta a lutar no dia-a-dia.

Quando chegou na universidade, se juntou com seu grupo de colegas para realizar uma pesquisa de campo, se tratava de um trabalho final muito importante. Esgotada com o fim do semestre, ela se esqueceu completamente da pesquisa. Como ficou estudando para a prova da aula seguinte até uma hora da manhã na noite anterior, ela acabou deixando seu caderno em cima da mesa de casa. Ela sentiu raiva de si mesma, se culpou internamente e pediu desculpas aos colegas.

“Relaxa, Mari! É fim de semestre, todo mundo já não aguenta mais. Não precisa se preocupar, a gente se vira com o que temos!” – disse sua amiga mais próxima, Beatriz.

Mariana estava mais tranquila na hora do intervalo, mas não largava o resumo da prova. Devorou rapidamente um sanduíche enquanto lia o resumo o mais rápido que podia. Na hora da prova suas mãos suavam, ela sentia um embrulho estômago. Sabia que não era normal sentir tanta pressão, mas era inevitável. Como era bolsista, tinha muito medo de não se sair bem e acabar perdendo a bolsa. Ela sempre foi estudiosa e nunca decepcionou seus pais, mas apesar de tanto afeto e confiança dentro de casa, para ela era muito difícil manter a calma. Ela sempre esperava o pior quando se tratava do seu desempenho. Nunca entendeu muito bem porque tanta desconfiança em si mesma, mas era fato.

Depois da prova, arrumou seu material, se despediu dos amigos e foi almoçar. Ela costumava almoçar sozinha, mas encontrou seu amigo Tiago no caminho então foram juntos num restaurante barato perto da universidade. Conversando durante algum tempo, os jovens nem repararam que passaram o almoço inteiro falando do quão cansados se sentiam, não só fisicamente como mentalmente. Tiago também era bolsista, mas diferente de Mariana não estava estagiando, ele estava trabalhando num supermercado perto de casa para ajudar os pais. Os dois lidavam com as pressões acadêmicas, enquanto trabalhavam para ajudar com as contas de casa.

Ambos fazem parte de uma geração mais consciente e com um acesso à tecnologia bem mais amplo, mas ao mesmo tempo, muito mais insegura e vulnerável na perspectiva psicológica. O contato constante com as redes sociais os condiciona incessantemente a um ideal de felicidade. Como uma fórmula pronta, o sucesso é apresentado a estes jovens de diversas formas: seja uma viagem cara, um tênis de marca, um texto sobre ser bem sucedido aos 25 anos de idade, fotos no Instagram que mostram o “corpo ideal”, o emprego dos sonhos ou uma ideia de cotidiano glamourizada.

Foto: Yong Chuan de Unsplash

Mariana e Tiago, assim como muitos jovens convivem com essa fórmula do sucesso diariamente. Não precisa ser somente via smartphone, a ideia de que é um dever não falhar e a urgência de estar encaminhado para o sucesso é espalhada em todos os lugares: nas propagandas das revistas, na televisão, na série do momento etc. A internet possibilitou que esses ideais fossem cada vez mais disseminados. Não é a toa que Tiago desenvolveu crise do pânico e Mariana sofre diariamente com a sua ansiedade.

Tiago lida com as pressões dos prazos no supermercado em que trabalha, ao passo em que tenta fazer todos os seus trabalho da faculdade, manter as amizades em dia, dormir oito horas por dia, fazer exercícios e manter uma boa saúde. Bem, pelo menos é isso que a fórmula do sucesso lhe impõe. Mas é claro que ele não mantém essa rotina. Tão acostumado a dormir tarde quando chega do trabalho e acordar cedo para não perder todos os ônibus e metrôs que precisa, ele já nem sabe o que é dormir direito. Mas isso não importa: os trabalhos da faculdade são entregues e o seu patrão não pode reclamar dos seus horários.

No estágio, Mariana se vê presa, apesar de ser somente um primeiro contato com o mercado de trabalho. Seu chefe nunca se mostra satisfeito com os trabalhos que ela entrega e sempre faz algum comentário agressivo. Mas ela não consegue achar outro estágio, a situação não está fácil. Não pode “se dar um luxo” de escolher, por mais que isso represente cuidar da sua saúde mental. Além do dinheiro, ela precisa da oportunidade já que não são muitas que surgem. Bolsista, jovem, mulher. Ela sabe que seu perfil é visto como frágil, incapaz, insuficiente. E Mariana sabe bem como é se sentir insuficiente, afinal sua ansiedade a lembra diariamente como é sentir pequena, como é ter certeza que tudo vai dar errado antes mesmo de qualquer indício de que vai acontecer. É um aperto no peito, um suor frio, uma confusão na cabeça, como se sua própria voz fosse o inimigo pronto pra te derrubar.

Como se as pressões, ansiedades e prazos não fossem suficientes, as comparações também surgem. “Não consigo arranjar um bom estágio, mas todos os meus amigos já estão trabalhando. O problema sou eu”, “Com 23 anos, muitos já estão viajando o mundo todo, realizando trabalhos importantes, será que só eu não consigo?”, “Será que estou fazendo tudo errado?”. Não saber como começar já é um início difícil e é exatamente assim que muitos jovens se lançam nas universidades. Não há nada de errado em sentir dúvida, se sentir pequeno ou não saber o que fazer. É natural da vida. Não existe manual de como seguir, de como “chegar lá”. Mas existem formas de conhecer seus próprios limites, de lidar com a frustração e tentar mudar o modo como encarar as prioridades.

Mariana, Tiago e muitos jovens lidam com as dúvidas, as incertezas e as inseguranças, estão no início de suas jornadas, escrevendo suas histórias e a cada dia conquistando mais, enfrentando suas batalhas internas e desbravando as adversidades da vida: jovens mais do que capazes. Suficientes.

 

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