As Tecnologias que Facilitam os Caminhos de Cegos e Surdos

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Como funciona a audiodescrição para cegos e as Libras para surdos

REPORTAGEM: Ariela Pellegrine e Jéssica Lopez

De olhos fechados, deitados numa poltrona de cinema, as instruções de audiodescrição de um curta metragem de 4 minutos e 38 segundos intitulado O Preconceito Cega são informadas ao público. É dessa maneira que as pessoas com deficiência visual podem aproveitar filmes e peças de teatro. O Consultor de Tecnologia Assistiva e pesquisador pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Marcílio Miranda faz a audiodescrição. “O curta se passa num mercadinho, tem poucas falas, sendo guiado boa parte dele pela sua trilha sonora.”

A audiodescrição segue enumerando características físicas, reações, esboço de emoções e ações das personagens montando um cenário na imaginação de quem é cego. Ao terminar a sessão, o curta é exibido para a plateia, e impressiona como o poder da imaginação e da educação de uma pessoa cega faz com que o recurso em nada fique em débito com pessoas que não possuem deficiência.

Mesmo não sendo uma grande preocupação para o poder público, muito tem se debatido sobre o acesso à comunicação e à cultura para as pessoas surdas e cegas. Um dos recursos mais utilizados, além da Libras (Língua Brasileira de Sinais), é a audiodescrição – narração produzida por um profissional treinado para trazer a realidade do mundo visível ao cego, criando uma faixa narrativa adicional, para o público se comunicar com a obra.

O Consultor de Tecnologia Assistiva Marcílio Miranda em palestra na Unip de Indianópolis – Acervo Pessoal

O serviço pode ser contratado por via pública ou privada, dependendo da instituição ou da exposição.

A população com deficiência nunca foi presença constante em exposições ou nos cinemas devido à falta de produtos culturais adaptados a ela. Entretanto, nos últimos anos, produtores de teatros, donos de cinemas, entre outros, passaram a criar possibilidades de interação com surdos e cegos.

A professora Lívia Motta, doutora pelo programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da PUC-SP e criadora do espaço virtual Ver com Palavras, idealizou o projeto com o intuito de proporcionar às pessoas com deficiência visual igualdade de condições e inclusão.

“Quem experimenta, sente-se respeitado e incluído, participa dos eventos em igualdade de condições e não quer mais ficar sem essa ferramenta de acessibilidade”, afirma a professora. “Mais pessoas têm manifestado o desejo de fazer cursos, tornarem-se profissionais na audiodescrição.”

A profa. Lívia Motta, fundadora do “Ver com Palavras”, na cabine de Audiodescrição – Acervo pessoal

Motta comenta que são vários os sites que abordam o tema, apresentam exemplos de produtos audiovisuais com o recurso, além de trazer artigos e notícias.

A dificuldade pela busca do conhecimento acontece não apenas nas salas de aula onde não há de fato a inclusão, mas em atividades comuns. Não enxergar não é uma limitação, mas a falta de investimentos e atenção do poder público em dedicar serviços a essa parcela da população que sofre com a burocracia, sim.

Poucos cinemas e teatros disponibilizam serviços e tecnologias adequadas para pessoas surdas e cegas, embora uma determinação da Ancine (Agência Nacional do Cinema), de 16 de setembro de 2016, regulamenta que todo cinema do país deverá oferecer recursos de acessibilidade como audiodescrição, legendagem e Libras em sessões comerciais. De acordo com a regra, até 2018 os cinemas do Brasil inteiro deveriam estar adaptados o público com deficiência visual. Contudo, existem poucos projetos no Brasil que os fazem se sentirem parte da sociedade como um todo.

Segundo a coordenadora do Núcleo de Educação do Itaú Cultural, Samara Ferreira, não apenas os filmes, como diversas atividades tem acessibilidade para as pessoas com deficiência. “Todos os espetáculos de teatro e palestras contam com interpretação em Libras, as salas de exibição não possuem nenhuma alteração física, os intérpretes se posicionam no canto direito do palco sob um foco de luz”, explica. Segundo ela, os aparelhos de audiodescrição são distribuídos do lado de fora das salas.

A coordenadora detalha que o projeto de acessibilidade do Itaú Cultural tem por objetivo atrair o público de pessoas com deficiência garantindo a ele acessibilidade. “Começamos a oferecer intérpretes de Libras no maior número de espetáculos de teatro e exposições, assim como vídeo guias. Instalamos mapa e piso podo tátil e nas áreas de circulação, também estamos usando o recurso de audiodescrição, principalmente para espetáculos voltados para o público infantil”.

Samara ainda ressalta que o Itaú Cultural tem todos os recursos para dar acesso ao público por meio de financiamento privado.

Acessibilidade em Exposição no Itaú Cultural – Foto: Assessoria de Imprensa

Uma das prioridades que faz parte da pauta de inclusão é a circulação de informações. Ou seja, não apenas dar acesso às pessoas com deficiência, mas garantir que elas também sejam informadas a respeito das exposições, filmes e eventos. Tornar a divulgação também acessível a elas nas plataformas digitais. Por exemplo, usando o software de voz que traduz um banner ou flyer.

Outro fator fundamental é a acessibilidade dessas pessoas aos locais dos eventos, pois muitos se locomovem através de transporte público que conta com poucos ônibus acessíveis no período noturno e o metrô que fecha após à meia noite.

Como são poucos lugares que disponibilizam estes recursos, o público que frequenta se mantém fiel. Querem experienciar mais, criam fidelidade porque sabem que o espaço cultural também é dedicado a eles. “Vários espaços culturais já tem implementados recursos de acessibilidade comunicacional”, explica a professora Lívia Motta.

“Aos poucos a gente tem percebido que devido a políticas públicas isso vem aumentando. Produções que são feitas com recursos federais via leis de incentivo, embora esse número ainda não seja tão expressivo”, finalizou.

Ela comenta que não é a deficiência que limita os recursos, mas entre outros fatores a falta de preparação da sociedade. “Não é a deficiência que impede, que cerceia, que limita, mas é a falta de preparação da sociedade. Começando no processo de educação nas escolas com a falta de recursos de acessibilidade, de tecnologia assistiva que impede a circulação maior da pessoa com deficiência.”

Acessibilidade para surdos em exposição no Itaú Cultural – Foto: Assessoria de Imprensa

Mas afinal de contas: o que é necessário para que a pessoa com deficiência seja visual ou auditiva seja de fato incluída na sociedade?  Não basta deixar crianças à própria sorte em algum lugar despreparado ou apenas fazer rampas. É necessário ir além, inseri-las em uma turma com pessoas sem deficiência com a presença de um profissional. Ou ainda contar com um docente que possa acompanhá-las numa sala de aula.

Hoje é possível que a pessoa surda ou cega possa acompanhar um filme, um espetáculo, um casamento, um batizado ou até mesmo ver através das palavras de alguém um parto.

Legendagem para surdos ou ensurdecidos em Exposição no Itaú Cultural – Foto: Assessoria de Imprensa

Sobre isso, Marcílio Miranda reflete: “É preciso ter uma linguagem mais informal para alguém que nunca teve contato com o assunto e adaptar as tecnologias de voz aos cegos, por exemplo, que existem desde a década de 1970.”

Miranda continua falando sobre softwares de dicionários Libras, que facilitam na tradução de textos, além de profissionais preparados para lidar com alunos especiais e políticas públicas de continuidade nos projetos de inclusão. “É preciso que se quebrem algumas burocracias desnecessárias e se tenha boa vontade, porque bons recursos existem.”

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