Messianismo político e a volta do anticristo

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por Natália Novais

Messianismo é derivado da palavra messias, do hebraico mashiah e do grego christós, que significa “ungido”. O messias segundo algumas tradições religiosas é a figura do enviado que vem para livrar o povo oprimido do mal e das mazelas do mundo.

Não é muito difícil encontrar na sociedade contemporânea pessoas que acreditam que a salvação, agora saindo do campo religioso e indo ao político, vem de uma figura específica ou de uma instituição, isso é chamado de messianismo político.

O termo messianismo político começa a aparecer pelas primeiras vezes entre os teóricos do séc XVIII que buscavam definir alguns fenômenos e conceitos sociais, mas diante de sua definição é possível observar seus sintomas mesmo antes da época dos césares.

Guilherme Villalba Amorim, mestrando e pesquisador no Núcleo de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo, conta que a religião desde os primórdios esteve ligada a política, isso porque os primeiros líderes de sociedades de uma certa maneira eram escolhidos por representarem uma aspiração divina. “As primeiras sociedades, babilônios, egípcios, povos autóctones, de alguma maneira estão ligados à uma tradição mítica que tem o guardião e representante dela, geralmente o líder.”

O sociólogo comenta ainda a importância que essas figuras tiveram para a união do povo e a constituição destes enquanto nação. “A grandes sociedades do passado estão em volta de uma grande figura de liderança, isso faz com que esse povo seja guiado para o futuro, para o progresso, então se fez necessário a figura do eleito”.

Gravura medieval “enluminure du roi Arthur”, século XII, Galeria Nacional da França

Na Europa medieval houve tendências messiânicas com a mesma conotação mítica religiosa. O Círculo Arturiano, nas ilhas britânicas, foi importante para a consolidação do povo bretão. “A lenda do rei Arthur é algo tão importante para a formação de identidade do povo britânico que a realeza atual sobrevive em parte por conta desse imaginário” observa Amorim.

Em Portugal a morte do rei dom Sebastião que não tinha herdeiros em 1578, coloca Filipe II rei espanhol no trono, isso deixa o povo inconformado que acreditava que o rei dom Sebastião voltaria para salvá-los.

O messianismo político na América Latina nasce da cultura monárquica vinda de Portugal e Espanha que fazia com que o rei virasse uma espécie de “salvador da pátria” para evitar que danos maiores acontecessem.

Retrato de D. Sebastião. Cristóvão de Morais, óleo sobre Tela ,1570 d.C

No Brasil, os movimentos messiânicos foram fortemente marcados pelo sebastianismo português. Na época do império, a campanha da maioridade que pedia que Dom Pedro II tivesse a sua maioridade antecipada tentava conter o caos gerado pelo governo regencial. Já no século XIX na Bahia, organizado pelo líder Antônio Conselheiro, em Canudos houve luta para defender a autonomia do povo. O movimento começou a se espalhar pelo país e o governo brasileiro massacrou a comunidade, destruindo-a em 1897.

Gravura de Antonio Conselheiro em Canudos

Max Weber, foi um dos pensadores que exploraram a fundo o conceito de messianismo político, dizia que o fenômeno se tratava principalmente de uma força psico-social. O Messianismo Político para ele precisa da existência de líderes ou de movimentos que fazem as massas acreditarem em um futuro melhor. A figura do messias político ficou no imaginário da população como um homem bom, que poderia fazer tudo pelo bem comum, unindo o país em torno de um objetivo comum.

No livro “Os inimigos íntimos da democracia” o historiador búlgaro Tzvetan Todorov destaca que embora invoque o ideal de igualdade e liberdade, o messianismo político tem um objetivo final que lhe é próprio (estabelecer o equivalente do Paraíso na Terra), assim como meios específicos para alcançá-lo que pode tanto ser uma revolução quanto uma guerra.

Amorim chama a atenção para a forte relação que o messianismo político possui com o populismo. “Grandes líderes tenham sido eles bons para nação ou não, tiveram em seus mandatos a marca do populismo. No Brasil, além de Getúlio Vargas, Lula foi o líder político que mais mobilizou as massas na história do Brasil. Infelizmente a gente viu o mesmo acontecer com grandes ditadores como Stalin e Hitler.”

O ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sindicato dos Metalúrgicos do ABC Foto: Paulo Pinto

O sociólogo esclarece que o messianismo político não é um movimento que pertença à direito ou esquerda. “Não é algo exclusivo de uma ou outra corrente ideológica, é algo que pertence a política e ponto final. Não é bom para a democracia e um discurso saudável independentemente do lado em que esteja”.

Recentemente em entrevista ao Folha de S. Paulo Frei Betto, que participou da fundação da CUT e já foi assessor do Lula e de movimentos sociais como o Movimento dos Sem Terra (MST), criticou a postura messiânica em torno do Partido dos Trabalhadores e até mesmo do ex presidente Lula. “O PT precisa voltar a ter um projeto de Brasil, e não apenas de poder. Há que se buscar unidade em torno de um programa, não de um suposto salvador da pátria”.

Para o pesquisador as recentes eleições de presidentes como Donald Trump, estão diretamente ligados a essa necessidade de salvação. “Mesmo com propostas antipopulares é natural que depois de desilusões com governos mais socialistas, as pessoas resolvam depositar suas esperanças no duvidoso. Esse é um dos motivos da retomada da direita política no mundo”.

  • A volta do Anticristo

Da mesma maneira em que líderes políticos são vistos como “salvadores” eles também são tidos como os culpados pelas grandes catástrofes e caos espalhados pela nação. Declarações polêmicas, decisões precipitadas, levam a impopularidade desses líderes.

Ativista dos direitos dos homossexuais mostra foto do presidente da Rússia, Vladimir Putin, retratado como um demônio em manifestação em Bruxelas Foto: Yves Logghe

Anticristo é uma denominação comum no Novo Testamento para designar aquele que se oponha a Jesus Cristo, e que segundo a tradição cristã dominará o mundo para destruir-lo.

Desde eleito Donald Trump é comparado a uma figura diabólica. O mesmo acontece com outros políticos como Vladimir Putin, na Rússia, e Kim Jong-un na Coreia do Norte. “O interessante aqui é novamente a isenção de culpa e responsabilidade que as pessoas tomam, se um governador não é bom, a postura que se toma é associá-lo a uma força maligna. Tende-se a fugir da lógica que se aquele mal governante está lá é muito mais culpa sua que escolheu que ele ocupasse aquele cargo do que uma força mítica do mal” comenta Amorim.

Capa da Revista Time com presidente Donald Trump

Recentemente boatos de que Putin seria um viajante do tempo responsável por gerar as grandes guerras mundiais correu por todo o mundo, inclusive foi dado como notícia em jornais de grande circulação como o The Sun e Daily Mail.

No Brasil o mesmo acontece com candidatos polêmicos às próximas eleições de 2018, como Jair Bolsonaro. “O fato de uma pessoa ser um mal político ou dizer imbecilidades não a liga a um figura mítico religiosa do mal. Reduzir o discurso crítico a isso é perda de tempo”. Ano passado um site inteiramente destinado à provar que o presidente do Estados Unidos é o anticristo foi o décimo quinto mais acessado no país segundo levantamento da Universidade de Berkeley.

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