A cobertura midiática que o Brasil não vê

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Diferentemente dos veículos nacionais, diversos meios de comunicação do exterior realizam uma cobertura da crise política do país que contrasta com a que os brasileiros têm acesso diariamente 

Por Matias Diego

Imerso em uma profunda crise política que explodiu no contexto das eleições presidências do ano de 2014, o Brasil passou nos últimos anos por diversos episódios que certamente ocuparão um lugar de destaque na história do nosso país. O impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a prisão do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, o julgamento e posterior prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de diversas investigações e acusações a políticos e grandes empresários fizeram com que a imprensa nacional realizasse uma cobertura midiática que em muitos casos colocou a ética jornalística em segundo plano em prol de interesses pessoais dos grandes grupos de comunicação.

Em comparação com o panorama midiático nacional se encontra a cobertura que diversos veículos de comunicação estrangeiros fizeram. Devido ao aumento da influência do Brasil no cenário internacional nos últimos 16 anos, é natural que grandes jornais de fora tivessem interesse em cobrir um momento tão rentável, jornalisticamente falando, utilizando até mesmo seus próprios enviados especiais em alguns casos. É nesse contexto que as diferenças de critério jornalístico ganham destaque.

Em setembro de 2017 a rede de televisão catari Al Jazeera produziu um documentário no qual retrata a situação de monopólio da mídia brasileira, abandeirada pela Rede Globo, e as consequências sociais que esse domínio midiático gerou ao país nos últimos 50 anos. Na reportagem é possível ver o poder que o conglomerado tem e a influência que o mesmo teve durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. O veículo árabe também aponta que a ausência de um marco regulatório para o espectro midiático no país foi e é definitiva para a situação de domínio da emissora carioca.

Em janeiro de 2018, ainda durante outra fase do processo de Lula, o jornal norte-americano The New York Times publicou um artigo de opinião onde questiona os métodos usados pelo juiz Sérgio Moro na hora de fundamentar as denúncias contra o ex-presidente, além de recordar que Dilma também foi afastada do cargo com base em algo que não era considerado um crime.

Até mesmo o conservador argentino La Nación fez uma análise equilibrada após o anúncio da ordem de prisão contra Lula, em abril. O Jornal portenho cita a velocidade do processo, faz um resumo do mesmo e termina narrando os últimos momentos do ex-presidente em São Bernardo, além das reações da alta cúpula do Partido dos Trabalhadores em relação ao futuro político de Lula

Reações adversas à prisão de Lula: Acima, notícias dos portais Al Jazeera e Le Monde; abaixo, capas de O Globo e Estadão

Na seleção de capas acima é possível perceber a diferença de foco entre os veículos nacionais e internacionais. Por um lado, O Globo e o Estado de São Paulo destacam o fato de Lula ter sido preso por corrupção e utilizam imagens que remetem aos momentos em que o ex-presidente se dirigia às autoridades. Por outro lado, tanto o Le Monde como a Al Jazeera utilizam o momento para, sem deixar de citar a prisão de Lula, realizar uma análise mais profunda sobre o contexto do país e os desdobramentos sociais relacionados ao encarceramento do ex-presidente.

Tomando como base dois artigos publicados no mesmo dia (5 de abril) por tradicionais veículos britânicos, The Economist e The Guardian, também é nítida a diferença de concepção sobre o caso Lula. O primeiro, que abertamente defende o liberalismo econômico e foi a favor do impeachment de Dilma, aproveita a ocasião para afirmar que a prisão de Lula é boa para a democracia brasileira e demonstra que o poder judiciário tem autonomia para julgar seja quem for. No caso do segundo, de ideologia voltada para a esquerda, o foco da reportagem fica para a análise do legado do ex-presidente, tentando explicar sua popularidade atual com base em seus erros e acertos durante o período em que foi presidente.

A lista de meios de comunicação que cobriram a crise política brasileira nos últimos anos é vasta, porém na grande maioria dos casos, independentemente da ideologia, fica claro que os veículos de fora têm uma maior preocupação com o rigor jornalístico e não deixam de apresentar os fatos de todos os lados, de forma que o leitor/telespectador possa chegar a uma conclusão com base em algo mais do que discursos superficiais e manipulativos, como é o caso da grande imprensa brasileira.

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