Pequenas atitudes, grandes mudanças

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Quem são os que arregaçam as próprias mangas e não esperam do sistema político uma grande mudança

Por Carol Gomes e Nádya Duarte

Nem sempre parte de um partido político as mudanças que observamos em nossa própria comunidade. Por incrível que parece, elas podem partir de um vizinho que não aguenta mais a falta de mobilidade na calçada da sua rua ou até uma amiga que resolveu tomar uma atitude por si mesma para ajudar a população analfabeta. São eles marcos de movimentos sociais que se originam em ONGs, coletivos, projetos e ações comunitárias.

Ambos os comportamentos têm dois sentimentos fortes em comum: a vontade de fazer algo por si mesmo pela falta de assistência que o sistema político brasileiro oferece e, consequentemente, a vontade de mudar tal perspectiva.

Atualmente, são poucos que tomam um passo tão significativo como este e vão contra os reflexos das insatisfações com o governo atual  que se mostram tão desafiantes. Segundo um estudo global realizado pela Eldman Trust Barometer 2017 e divulgado com exclusividade pelo G1, a pesquisa apontou que cerca de 62% dos brasileiros não acreditam nas instituições do país como os principais órgãos responsáveis que iriam arcar com as demandas da população. Em contrapartida, apenas 24% da população acreditava que o governo iria sim cobrir suas obrigações perante a sociedade.

Crédito: G1

De acordo com a pesquisa, tais brasileiros “desacreditados” possuem como fatores para sua posição a corrupção, a globalização, o desgaste de valores sociais, a imigração e a inovação.

Em outra via, nem sempre o descontentamento dos indivíduos vem de encontro direto com estes princípios. A sensação de apenas não ser representado ou notado pelo sistema político brasileiro pode, para alguns, provocar o estopim para diversas atitudes individuais que ajudam uma parcela da população que carece da atenção governamental.

Entre esses heróis velados de ativistas sociais, estão duas estudantes universitárias e uma amante dos movimentos artísticos que não deixaram de só reclamar pela falta de suporte e partiram para a reação.

Giulia Lima, 20 anos, é aluna de pedagogia da faculdade PUC-SP e acredita fielmente no papel da educação como o veículo principal para transformar uma comunidade. “O trabalho comunitário começa com os jovens na escola, com a oportunidade de fala”, afirma.

Desde seus 15 anos, Giulia tem em sua alma uma pegada ativista e social. Nesta mesma idade, chegou até a mandar uma carta para a Prefeitura de São Paulo solicitando que o terreno abandonado ao lado do seu colégio, no bairro de Santo Amaro, fosse reutilizado para transformar o espaço em um ambiente útil para a comunidade, e teve seu desejo desestimulado por uma professora de classe.

Hoje, a estudante dedica a sua força de vontade em hortas comunitárias e no consumo consciente dos alimentos, desde o seu plantio até o final da colheita. Seu amor pela causa a levou até o Rio Grande do Sul, em uma cidade chamada Guaporé, na qual, ao lado de outros voluntários, Giulia se dedicou a construir parte da horta comunitária da Cidade Escola Ayni, focada em uma educação com princípios sustentáveis.

Crédito: Arquivo Pessoal

Esta ação da estudante veio como um reflexo da falta que ela sentiu do governo em participar da sua própria educação.”A gente foi ensinado a não esperar nada mesmo do sistema político e que a gente nunca iria conseguir fazer ‘política’, porque nunca nos incentivaram pelas coisas, projetos que a gente planejou, que os adolescentes sentem vontade de pôr as suas ideias, críticas em prática.[…] Então eu comecei a frequentar esses lugares [ que promoviam a implementação de hortas comunitárias] por uma questão pessoal mesmo e comecei a criticar, obviamente, este sistema. [O por que] de eu não ter acesso a minha comida, aos processos pela qual ela passava, por que eu não tinha conhecimento sobre a terra, sobre a minha comida. Eu falei ‘meu, não é interessante para o governo que as população saiba disso, porque tem as empresas, as indústrias alimentícias. Então, eu vou esperar o governo fazer algo? Não!’ Se eu quero, tenho vontade e preciso disso, eu vou fazer, não o governo.”

Já a estudante de administração da faculdade FEA-USP, Mariana Rizardi, 23 anos,  a estudante dedicou-se ao ensino pela sua cidade por um sentido diferente, literalmente.

Nascida no interior de São Paulo, em Caieiras, Mariana sempre foi bastante à frente do seu tempo. “Sempre tive dentro de mim a vontade de fazer o famoso ‘algo a mais’. Me envolvia com o que dava na escola, em termos de campanha de doação e esse tipo de coisa. Depois fui tendo a certeza de que me envolveria mais e mais seriamente nisso na faculdade. E dito e feito: juntou a vontade de fazer com o sentimento de ser capaz de fazer.”, comenta.

A estudante, ao lado de outros universitários da mesma faculdade e alguns voluntários, criou o Projeto Kali. Uma instituição de ensino que leciona em Caieiras com a missão, segundo o perfil da organização no Facebook, para “dar base, estrutura e apoio geral ao aluno do Ensino Médio da rede pública, despertando interesse nas aulas regulares, na educação em geral e na busca pelo conhecimento, incentivando-o na continuidade dos estudos.”

Crédito: Arquivo pessoal

A ideia de tomar ação por si própria veio em vista da oportunidade que a cidade natal de Mariana oferecia, se tratando da infraestrutura, mas que na visão da estudante estava sendo mal administrada. “Particularmente sempre achei que Caieiras tinha um super potencial: uma cidade pequena e colada com São Paulo. Se bem administrada, poderia oferecer bem os serviços básicos para todos os cidadãos. Mas realmente não dava para esperar. O que fui vendo foi o sucateamento dos serviços e um crescimento dos bairros sem nenhum planejamento. No começo do Projeto, fomos visitando as escolas, e o que víamos eram aulas vagas, salas lotadas, alunos e professores desmotivados. Realmente não dava pra esperar a mudança, era muita a vontade de já fazer algo.”, disse.

Contudo, Mariana ainda acredita no poder do sistema político para ajudar as ONGs e instituições comunitárias a se constituírem. Mesmo tendo em vista que o surgimento do “Kali teve a ideia de que o Estado não estava fazendo o seu papel na educação pública”, como afirma a estudante mesmo, a jovem vê no poder público o gerador de mudanças positivas na sociedade.

A estudante considera na união das duas forças: o movimento ativista e a atitude governamental, quando uma falta na demanda outra supre na cobrança. “O que for construído tem que ser com eles. A educação tem que fazer sentido, tem que ser inclusiva, aplicável, tem que provocar a refletir, etc. […]Então, eu acredito que o governo é sim capaz de juntar suas forças para efetivamente mudar. Por outro lado, não acredito que estejam fazendo isso nesse momento e, por isso, provocam um gap gigante em que entram ONGs e outras organizações de cunho social.”

Mariana reforça que as atitudes que o governo toma são de fatos significativas, mas carecem de produtividade e volume. “Acho que em geral as ONGs não conseguem ter tamanho o suficiente pra gerar tanto impacto quanto um governo bem administrado poderia. Mas o que podem fazem muito bem. Não sei se dá pra falar em mais eficácia considerando o gigantesco potencial do governo, mas dá pra se falar sim num impacto considerável e muito importante pensando no tamanho do alcance das ONGs. Ainda mais considerando governos que estão pecando e muito nos serviços básicos, as ONGs acabam chegando onde o governo efetivamente não chega.”

No caso da Flora Bitancourt, formada em dança pela UNICAMP, a vontade de dar aulas para crianças com câncer e jovens com deficiências, principalmente com Síndrome de Down, motivou-a para abrir a Movimentarte.

A organização social surgiu com o objetivo central de utilizar da arte e da dança para transformar as relações humanas como palco principal dos movimentos artísticos, trazendo para as crianças com habilidades reduzidas o conhecimento do seu potencial através do ritmo e das cores.

Para Flora, os caminhos para constituir uma organização social nem sempre são fáceis. “Fundar uma ONG só é possível com muita vontade. Não tem nenhuma facilidade nem incentivo, pelo contrário só empecilhos. Nós vemos um problema no mundo, vamos lá e fazemos a diferença.”

Mas não foi por causa da noção deste obstáculo, que Flora deixou de formalizar o Instituto Movimentart, na rede Red Bull Amaphiko, uma das principais redes que apoiam organizações sociais focadas em empreendedorismo.

Crédito: Instituto Movimentarte

Além disso, a mulher faz parte também do Coletivo Lua. Uma instituição que visa relacionar empresas com menos impactos sociais e mais produção na transformação e na reflexão em conjunto com a sociedade, usando, por exemplo, o dinheiro do setor de marketing para investir na integração de indivíduos. Estes projetos levam como base as práticas de dança, yoga, meditação e a forma como o homem se desenvolve pessoalmente e sua influência na comunidade na qual está inserido.

“O encontro com o diferente gera reflexões sobre respeito, diversidade, julgamento e igualdade. Fazendo com que pessoas tenham olhares de novo mundo. Esse desenvolvimento de seres humanos melhores, acredita que há a possibilidade de fazer o mundo melhor.”, afirma Flora.

Tanto a Giulia, Mariana quanto a Flora não esperaram de alguma entidade maior para tomar suas próprias atitudes. Ambas são mulheres que sabem a importância da educação na sociedade e prezam muito por um sistema de governo mais justo e que ouçam aqueles que não foram abandonados por estas ativistas.

Independente de qual seja o projeto social, seja ele abrir uma ONG ou até recolher uma bituca de cigarro no chão, é através dos pequenos passos, das pequenas ações que se começa uma grande mudança na sociedade. 

 

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