Do rônkâ ao jawari, esportes que fazem parte da tradição indígena

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por Natália Novais

Conta a tradição que o deus maior Wazare depois que criou o povo Pareci e os distribuiu por toda a Chapada dos Parecis, satisfeito com o resultado fez uma grande festa antes de retornar ao seu mundo. Durante a confraternização, Wazare mostrou a seus novos filhos a função da cabeça no comando do corpo e a sua capacidade de desenvolver a inteligência. Questionado sobre a importância física que o membro possuía já que se encontrava acima de todos os outros, Wazare inventou um jogo em que a cabeça era protagonista, o xikunahity. E assim nasceu na etnia Pareci o que chamamos de “futebol de cabeça”.

O xikunahity é uma das 16 modalidades oficiais nos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, que vem unindo mais de 60 aldeias em todo o mundo desde 2015. Sua primeira edição teve como país sede o Brasil e aconteceu na cidade de Palmas, o evento esportivo contou com a participação de 22 países e contabilizou mais de 2000 índios atletas.

Equipes índigenas competindo o Xikunahity nos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas Foto: disponível em Flicker

A iniciativa se espelhou em uma prática que já vinha acontecendo no Brasil desde 1996, os Jogos dos Povos Indígenas. Idealizado por Carlos Terena, chefe de tribo e membro do conselho interino da Funai, em parceria com o Ministério dos Esportes e o apoio da Unesco, os jogos visavam reafirmar e resgatar a tradição em práticas desportivas de povos originários. Naquele ano participaram ao todo 25 etnias e mais de 400 atletas, entres os esportes se competia nas modalidades de canoagem, zarabatana, corrida com tora, natação, arco e flecha, cabo de guerra, rônkâ (jogo semelhante ao lacrosse), arremesso de lança e o xikunahity.

Tradicional Corrida com Toras Foto: disponível em Flicker ©Wilfred Paulse. 

É comum que o ocidente credite o começo do esporte principalmente aqueles disputados nas Olimpíadas à Antiga Grécia, no entanto, alguns deles têm suas origens na tradição de povos antigos. O futebol, por exemplo, embora suas regras modernas tenham sido criadas e oficializadas pelos ingleses. Já existia algo muito semelhante há mais de 350 a.C em etnias ambientadas entre a América do Sul e Central, sob o nome de um jogo chamado tiatchi. Algumas tribos que vivem no território brasileiro herdaram a tradição do tiatchi, mas aqui o nome dado à modalidade é jawari, que passou a fazer parte dos Jogos dos Povos Indígenas em 1999 e segue as mesmas regras impostas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) à partidas de futebol comum.

A escolha pelas modalidades que fazem parte do campeonato acontece uma vez por ano e é feita a partir da discussão de um Comitê Intertribal indígena, que deve ter representação de pelo menos um membro de cada aldeia participante. O mesmo modelo de escolha é utilizado para os Jogos Mundiais.

Atleta da tribo Enauênê em Arremesso de lança. Foto: disponível em Flicker  ©Tiago Zenero

Ana Ferreira, antropóloga e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) comenta que a prática dos jogos tradicionais indígenas têm características que vão além da competição. “Geralmente são jogados cerimonialmente os atletas são reconhecidos como guerreiros. Esses jogos tem características lúdicas, diferente do que costumamos associar ao esporte”.

A professora que acompanha os jogos desde 2006 e diz que “Houve nos últimos anos, um reconhecimento mesmo das riquezas culturais desses povos. É importante procurar entender a retomada desses jogos no contexto da atualidade”.

Ferreira chama atenção também para a falta de incentivo  dos governos a fomentação dessas práticas. “É muito triste que nesse ano não teremos os jogos tanto no âmbito nacional quanto no internacional, isso é claramente uma resposta em razão da Copa do Mundo que acontece agora em Junho. A segunda edição que foi no Canadá em 2016, reuniu mais 30 países. Não podemos deixar a iniciativa morrer”.

Em 2018, a Funai não se manisfestou em relação à datas de jogos em solo nacional. Este ano também não serão realizados os jogos mundiais.

Integração Cultural

O que chama a atenção nos Jogos dos Povos Indígenas é justamente a integração cultural das modalidades, a professora explica que os jogos não são um ponto em comum entre as tribos. “Embora a maioria pratique a modalidade em suas aldeias, como forma de rituais, ou até mesmo recreação, elas podem também não ser tradição de algumas etnias. O que acontece aqui é um verdadeiro exercício de aceitação e respeito à cultura alheia”.

Os Maori, tribo originária da Nova Zelândia, não possuem tradição no xikunahity, oriundo da etnia Pareci. Já o rônkâ, é um costume dos Canghuwaya, do Canadá. “Não é possível uniformizar a competição, pois cada tribo tem a sua cultura própria, o que a Comissão Intertribal procura fazer é montar a grade dessas modalidades da forma mais plural possível”.

O mesmo tipo de cuidado  é tomado em relação à confecção dos equipamentos usados nas modalidades. Para garantir que se respeite a identidade cultural de cada etnia, é permitido que cada tribo utilize o material de costume na composição de seus dispositivos. Na disputa de canoagem, por exemplo, os Baikuiris utilizam a casca do Jatobá, a canoa dos Karajás são fabricadas em uma espessura mais fina que o comum, já os Mundukurus, do alto do Amazonas usam a madeira da árvore do Itaúba. Flechas, arcos, lanças e até mesmo a tora usada variam em sua composição de acordo com as tradições de cada clã.

 

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