O Brasil além do futebol

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O rugby e o xadrez, esportes menos conhecidos e praticados no país, desconstroem preconceitos e ensinam valores que ultrapassam a importância do exercício físico

Por Gabriela Fogaça e Matias Diego

O Brasil é conhecido como o país do futebol. A seleção brasileira de futebol, que já ganhou cinco Copas do Mundo, acolhe fãs no planeta inteiro e emociona a torcida quando entra em campo. Mas o que muita gente não sabe é que o país também é lar para diversos esportes menos populares que vêm crescendo ao longo dos anos e que merecem reconhecimento.

Um deles é o rugby. Esporte coletivo de contato físico intenso, ele foi criado na Inglaterra e chegou ao Brasil no século XIX, em Salvador, na Bahia. O rugby é organizado pela Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) e possui seis federações estaduais filiadas: gaúcha, catarinense, paranaense, paulista, mineira e fluminense. Os principais torneios no país são o Super 10 e a Copa do Brasil, ambos de abrangência nacional.

A jornalista Teresa Raquel Bastos conheceu o esporte em sua cidade natal, Teresina, Piauí, em 2007. Ela jogou rugby por três anos e está fora de campo desde 2013, quando sofreu uma lesão no joelho. Em 2009, junto com sua treinadora, Teresa fundou o site Rugby de Calcinha – que futuramente daria origem ao seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) – após perceber que não havia nenhum site de rugby feminino no Brasil. Segundo ela, o rugby feminino, “apesar de ter melhores resultados, não tinha a visibilidade que merecia”.

Capa do TCC da jornalista Teresa Raquel Bastos. Foto: Rugby de Calcinha/Website

“O TCC surgiu da vontade de falar sobre rugby feminino e misturar feminismo e reportagem. Quis ouvir das minhas amigas e colegas como elas se sentiam como mulheres nesse esporte julgado masculino. Quis dar uma resposta aos diversos absurdos que ouvi nos campeonatos que frequentei”

Para Teresa, falar de outro esporte que não seja o futebol no Brasil é complicado e há muitas diferenças entre os dois. “A cultura do futebol, que é bem diferente da do rugby, afasta, já que ele é mais respeitoso”. Além disso, para ela, o rugby pode ser assustador devido ao contato corporal que exige. Existe, também, uma falha na divulgação do rugby, pois ele é considerado um esporte de elite, dificultando sua popularização.

A estudante de jornalismo Jéssica Tavares concorda com Teresa. Integrante do time de rugby da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) há dois anos, ela se interessou pelo esporte por causa da faculdade. “O time é muito aberto e receptivo, não é necessário passar por peneiras, é só você chegar com força de vontade e querer aprender o esporte”. A equipe é formada por atletas de todos os cursos e de outras universidades também, gerando uma integração entre os estudantes.

De acordo com Jéssica, mesmo que o rugby seja o segundo esporte coletivo mais praticado no mundo, no Brasil ele ainda não é tão popular. Quando ele chegou ao país, por ser considerado um esporte de elite, foi mal visto e isso dificultou a divulgação, se tornando uma barreira a ser enfrentada para a disseminação do esporte.

O rugby ainda está muito associado à um esporte para homens, ligado à brutalidade e à força. Uma das maneiras que Teresa encontrou de lidar com esse rótulo, em um país machista com suas atletas, como o Brasil, é lembrar que a seleção feminina tem mais resultados positivos do que a masculina. As mulheres também sofrem em outros países, ao serem desvalorizadas em seus clubes e ao serem sexualizadas, entre outras questões. “Mas eu lidava com o machismo jogando e treinando muito, dando o meu melhor no campo pelo meu time”, explica Teresa.

Jéssica ressalta que o esporte tem, de fato, o contato brusco com outros atletas. Entretanto, todas as posições e formações possuem uma técnica e há treinos específicos para isso. Para ela, relacionar o rugby ao homem é “reflexo de uma construção histórica de exclusão, dificuldades e limitações, que vêm se desfazendo lentamente”.

Jéssica durante uma partida de rugby. Foto: PUC Rugby

“O rugby é um esporte totalmente democrático, sem recorte de gênero, que coloca em prática o empoderamento feminino. O número de equipes femininas de rugby tem crescido, afinal, lugar de mulher é no esporte que ela quiser”

Hoje, Jéssica é diretora de modalidade da atlética de comunicação da PUC-SP, sendo responsável pela organização da modalidade de rugby dentro da entidade. Além de participar dos treinos e campeonatos, ela acompanha a seleção brasileira e realiza trabalhos sociais dentro da prática do rugby.

Mais do que transmitir a importância do exercício físico, o rugby é um esporte que contém muitos valores. Para Teresa, o principal é o respeito, ensinado na maneira em lidar com o adversário, com os árbitros e com a torcida adversária. A equipe também é essencial, pois a noção do coletivo é necessária para que o time cresça e obtenha resultados positivos. “Não existe time de um jogador só, um time assim fracassa. O rugby ensina muito isso”.

Equipe feminina do PUC Rugby. Foto: PUC Rugby

Jéssica reforça a posição de Teresa, e conta que o rugby possui cinco pilares de valores: integridade, respeito, solidariedade, paixão e disciplina. “É um esporte que te ensina a trabalhar e pensar muito no coletivo, sempre ajudando seus companheiros de equipe. Além de incentivar a superação, no rugby você sempre pode melhorar se esforçando mais”.

Atualmente, o site Rugby de Calcinha conta com colaboradores nacionais e internacionais, e é utilizado para a divulgação de campeonatos, coberturas de eventos esportivos e artigos de opinião.

Como forma de comparação com o Brasil, a Espanha se encontra em um nível no qual o rugby já é um esporte bem mais conhecido e praticado, com transmissões semanais na televisão aberta e até títulos recentes de expressão, como a vitória da seleção feminina espanhola no Campeonato Europeu de 2018.

E foi justamente por títulos expressivos que o rugby ganhou notoriedade na Espanha. É o que conta Germán Augusto, jogador e treinador colombiano de 36 anos radicado na cidade de Alcorcón, próxima de Madrid, na Espanha. “Até pouco tempo atrás a imprensa especializada em rugby era pouca e a televisão só lembrava desse esporte quando havia algum título. Mas nas últimas temporadas o rugby feminino virou moda na Espanha graças aos títulos europeus conquistados pelas jogadoras”.

Praticante desse esporte desde 2007, quando teve seu primeiro contato com o rugby na universidade, Germán acredita que seu esporte é similar ao sempre popular futebol porque seu principal objetivo é avançar com a bola, o que inevitavelmente produz choques e disputas, “mas sempre dentro de um parâmetro de lealdade”. Segundo ele, o rugby é um esporte duro mas as técnicas e táticas buscam evitar impactos nocivos, sendo que cada ano há uma revisão das regras com o intuito de que se jogue o maior tempo possível com segurança.

Jogador do time sênior do Club de Rugby Alcorcón, além de ensinar crianças de 3 até 8 anos, Germán revela que sempre tenta incentivar crianças que nunca praticaram nenhum esporte a começar a jogar rugby, o que pode convertê-las em líderes fora dos campos.

“É importante que as crianças saibam que quando caírem nada de ruim irá acontecer, porque sempre poderão se levantar ou se não, algum companheiro irá ajudá-las”

Germán (com a camiseta vermelha) entrando em campo em um jogo em 2017. Foto: Rugby Alcorcón/Facebook

Para Germán, um grande diferencial do rugby é o fator da inclusão, pois pelo menos na Espanha, os times podem ser mistos até a categoria sub-16, além do esforço e comprometimento com o time ser realmente valorizado pelos treinadores, independentemente da qualidade do atleta. “É um esporte no qual os individualistas não os melhores, já que há especialistas em todas as posições e se alguém erra, o time todo erra, e se alguém marca um ponto, é o time que marca”.

O esporte como ciência

Em um caso parecido com o do rugby, outro esporte sem quase nenhum tipo de difusão no Brasil é o xadrez. Praticado nos moldes atuais desde o século XV, na Europa, esse esporte puramente mental precisa apenas de um tabuleiro quadriculado dividido em 64 casas que são ocupadas por 32 peças, com diferentes funções dentro do jogo.

Murilo Brandão, 27, aluno de filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), opina que embora no Brasil a maioria das pessoas saibam o que é o xadrez, o público que realmente o pratica é muito reduzido. Segundo ele, isso ocorre “basicamente por dois motivos: à ausência de uma estrutura de iniciação ao xadrez mais abrangente e à falta de exposição midiática do esporte”.

Para ele, é muito difícil um indivíduo ter contato com o xadrez em nosso país, já que não depende muito das pessoas que ele conhece ou da instituição na qual estuda. Fora isso, “não há uma cultura enxadrista que te leve ao xadrez”.

Diferentemente de outros esportes populares como o futebol, o xadrez exige que o interessado tenha um iniciação na prática antes de acompanhar partidas, pois ainda que uma pessoa conheça as regras desse esporte, ela pode não entender o que realmente está acontecendo durante o jogo.

Esse é o outro problema citado anteriormente: a falta de apoio ao xadrez por parte dos grandes veículos de comunicação. “A última notícia que lembro ter saído acerca do xadrez em mídia tradicional com algum alcance foi uma reportagem na Folha de São Paulo sobre o Krikor, um jogador brasileiro que deixou de ir às olimpíadas de xadrez por ocasião política, ou seja, a notícia não era o esporte em si”, conclui Murilo.

Essa falta de divulgação do xadrez provoca, inevitavelmente, uma distância enorme entre o grande público e esse esporte, o que significa menor popularidade e possibilidades remotas de que surjam novos talentos. “Acho que até por isso dois dos maiores enxadristas do Brasil atualmente são também grandes produtores de conteúdo informativo acerca do xadrez para o Brasil, o próprio Krikor e o Rafael Leitão, este com um site especializado sobre o assunto e o primeiro com um canal no Youtube muito bom sobre o esporte”.

Murilo (de azul) e a equipe vencedora da Copa USP 2017. Foto: Divulgação pessoal

Murilo opina que assim como em outros esportes, o xadrez precisaria de um grande resultado individual de um brasileiro em um campeonato relevante a nível internacional para que algum veículo de comunicação de massas demonstrasse interesse, o que poderia chamar a atenção do grande público.

Mesmo com todas as possibilidades que a internet oferece para o aprendizado do xadrez, enquanto a divulgação não chegar de forma mais institucionalizada às pessoas, a situação desse esporte no Brasil continuará a mesma: “A outra questão, a falta de exposição midiática do esporte, é seja um problema crônico de todas as modalidades do esporte brasileiro e de políticas públicas na gestão do esporte, e que não vá ocorrer uma melhora tão cedo”.

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