Na Copa serão bem-vindos. Mas, melhor se comportarem, se não…

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No papel a comunidade LGBT será bem tratada. Na prática pode ser outra coisa

Por Gianluca Florenzano

A comunidade de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) poderá se manifestar nessa Copa do Mundo de 2018 na Rússia. Graças a uma resolução estabelecida entre a Federação Internacional de Futebol (FIFA) e o Comitê Organizador Local (COL), os membros dessa referida comunidade poderão ostentar símbolos e bandeiras que representem o orgulho gay.

As bandeiras arco-íris (símbolo LGBT) poderão tremular dentro dos estádios e nas Fan Fests, sem sofrerem qualquer tipo de assédio moral por parte das autoridades moscovitas. Entretanto, o problema ainda persiste. É certo que as forças policiais serão impedidas de discriminarem os gays, mas ainda não se sabe como os russos tradicionais os receberão.

O preconceito enraizado

O que preocupa mais os integrantes da coletividade LGBT é o que acontecerá com eles fora dos olhares do patrulhamento dos jogos da Copa do Mundo. Não obstante de relações sexuais entre duas pessoas do mesmo sexo não ser considerada mais crime desde 1993, episódios nos quais homossexuais são discriminados ainda são frequentes no país – principalmente na região da Chechênia dominada pela comunidade muçulmana extremamente conservadora.

Vale a pena salientar que foi nessa mesma região russa mencionada acima que ocorreu uma perseguição a homossexuais. Conforme noticiado no ano passado (2017) pela rede BBC e pelo site G1 do grupo Globo, integrantes do coletivo LGBT ou possíveis homossexuais eram capturados pelo aparato policial e levados a “campos de concentração” onde eram “torturados” e em alguns casos “desapareciam”. Quem trouxe à tona essa notícia foi à repórter Elena Milashina, do jornal Novaya Gazeta – de oposição ao governo de Vladimir Putin.

As denúncias aumentaram quando um jovem homossexual conseguiu fugir da Chechênia e concedeu uma entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Segundo os relatos da vítima, que não quis se identificar, ele teria sido chamado por um conhecido para uma suposta reunião. Entretanto, ao chegar lá, foi colocado a força por policiais dentro de um furgão preto e levado para o centro de detenção.

Nesse centro, ainda de acordo com a vítima, havia cerca de 30 pessoas no local, que dormiam no piso de concreto dentro da cela. Além do mais, as autoridades revezavam-se para espancar os presos. “Nos chamavam de animais, diziam que iriamos morrer ali”, contou a vítima.

Na época, a administração da Chechênia, por meio de nota, alegou que as denúncias eram mentirosas, pois não havia nessa região “nenhum homossexual”. Além do mais, afirmaram que “se tais pessoas [gays]existissem na Chechênia, a lei não teria que se preocupar com elas, já que seus parentes teriam os enviados a um lugar de onde nunca voltariam”.

Por ser regrada pelos mandamentos do islã, na Chechênia ter um parente homossexual é considerado como uma mancha dentro da família. Tanto que, de acordo com a ativista russa LGBT, Svetalana Zakharova, em entrevista à rede BBC, os gays, muitas vezes, são devolvidos para os núcleos familiares na esperança que eles próprios deem um jeito no sujeito. “Os homicídios de honra são reais na Chechênia”, afirma a ativista.

Protesto realizado em Berlim em 2013 contra a homofobia na Rússia / Autor: Marco Fieber/flickr

Propaganda Gay

De fato, a nação comandada por Putin é um lugar hostil para a coletividade LGBT. Em 2013, entrou em vigor a lei que proíbe a “propaganda gay” em território russo. A medida consiste em censurar manifestações homossexuais em locais públicos, especialmente onde tenham menores de idade. Segundo o governo russo, o regulamento visa a “proteção das crianças” contra “informações prejudiciais a sua saúde e desenvolvimento”.

Essa regra, contudo, reflete o pensamento da maioria da população. Na época em que foi lançada, conforme o instituto de pesquisa Vtsiom, a medida continha apoio de 88% dos russos. E pelo que se vê hoje, esse apoio ainda continua.

Para o ex-capitão da seleção moscovita e hoje como inspetor anti-discriminação da Federação Russa, Alexei Smertin, “a lei é sobre propaganda para menores”, sendo inconcebível, na visão dele, “que alguém vá a uma escola” divulgar conteúdo LGBT “para às crianças”.

Os russos que descumprirem essa norma estão sujeitos à multa. No entanto, pessoas provindas de outros países possuem penalidades mais fortes. A punição para estrangeiros que violem essa medida pode ser a retenção de 15 dias, serem deportados e ainda financiarem uma multa equivalente a R$287.

Todavia, o CEO do Comitê Organizador Local, Alexei Sorokin, em entrevista a Folha de S. Paulo, assegurou que “não haverá nenhum tipo de banimento para quem usar símbolos com as cores do arco-íris na Rússia. Está claro que qualquer um poderá vir aqui e não ser multado por expressar seus sentimentos”, disse ele.

Mesmo assim, de acordo com a diretora de comunicação da ONG Russian LGBT Network, Svetlana Zakharova, em entrevista a Folha de S. Paulo, “a Rússia não é um país seguro para homossexuais se declararem abertamente. Existe ainda um nível de ódio muito grande. As pessoas podem ser atacadas nas ruas e nos estádios e por isso devem ser cuidadosas”, afirmou ela.

Quem corrobora com o pensamento da Zakharova é o pesquisador da FARE Network (organização que aconselha a FIFA sobre discriminação no futebol), Pavel Klimenko, em entrevista a Folha de S. Paulo. Conforme o pesquisador, “uma coisa são as declarações das autoridades, outra é o comportamento da população na rua”. Entretanto, ele não acredita que ocorrerão incidentes durante a Copa do Mundo, mas faz a ressalva, “é bom evitar manifestações públicas de afeto”, diz ele.

Manifestantes na cidade de Berlim em 2013 protestando contra a lei anti propaganda gay na Rússia / Autor: Marco Fieber

O manual de comportamento gay

Nas Olímpiadas de Inverno sediada na Rússia, o mandatário Vladimir Putin garantiu que os membros da comunidade LGBT seriam bem-vindos, no entanto, deveriam “deixar as crianças em paz”. Ao que tudo indica, o mesmo tipo de pronunciamento deve ser feito próximo a Copa do Mundo, para tentar apaziguar os ânimos da comunidade LGBT.

Mesmo assim, a desconfiança sobre a recepção harmônica paira, não apenas nessa coletividade, mas sim, sobre a população moscovita em geral.

A pesquisa realizada pelo Bonus Code Beats, divulgada no site observatoriog.bol.uol.com.br revela que 39% dos russos acreditam que os homossexuais estrangeiros sofrerão algum tipo de ataque ao longo da Copa do Mundo. Vale a pena salientar que, ainda segundo a pesquisa, a maior porcentagem dos entrevistados que consideraram os ataques “altamente prováveis”, pertence à faixa etária de 16 a 24 anos. Além do mais, 24% das pessoas responderam estarem “cautelosas” ou “irritadas” a respeito do conceito LGBT.

Conforme o jornalista do site observatoriog.bol.uol.com.br, Rangel Querino, outra pesquisa publicada no começo desse ano (2018) abrangendo tanto áreas rurais como urbanas, desvendava que 83% dos russos consideram a prática homossexual como “reprovável”.

Nesse clima pouco amistoso, a instituição Futebol Contra o Racismo na Europa (FARE, na sigla em inglês) lançou uma espécie de manual de comportamento para os integrantes da coletividade LGBT durante os jogos da Copa do Mundo. De acordo com o diretor executivo da FARE, Piara Power, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, “o guia aconselha as pessoas gays a serem cautelosas em qualquer lugar que não seja visto como acolhedor para a comunidade LGBT”.

Um dos conselhos dado por Power para os torcedores gays é que “dependendo da cidade em que estão e da hora do dia” melhor evitarem caminhar de mãos dadas pelas ruas, pois correm sério risco de serem atacados.

Todavia, o manual não se limita apenas a conselhos comportamentais. Ele contém explicações detalhadas da atual situação da comunidade LGBT na nação governada por Putin. O guia consta que “os homossexuais na Rússia têm lugar bastante escondido e subterrâneo”.

Entretanto, a expectativa é que com o principal torneio de nações por vir, a comunidade LGBT moscovita consiga ascender socialmente – pelo menos momentaneamente, já que o futuro é incerto, e quando os olhos do mundo se voltarem para outro lugar, os homossexuais provavelmente tenham que retornar ao subterrâneo social russo.

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