Esporte e infância: o que a cidade tem a oferecer?

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Por Eva Vila Pacheco

A importância da prática esportiva

Desde a era clássica, a vitalidade e o prestígio atribuídos ao esporte fizeram com que os gregos o considerassem elemento fundamental da civilização.

No mundo contemporâneo, a prática esportiva desempenha papel ainda mais central. De acordo com o Dr. Paulo Sérgio de Barros Ferreira, especialista em pediatria pela USP, o esporte integra a chamada medicina preventiva. “As crianças que praticam atividade física regular – de duas a três vezes por semana – têm menos chances de desenvolverem, na vida adulta, doenças cardiovasculares como o infarto do miocárdio ou o acidente vascular cerebral (AVC), a obesidade e a diabetes”, afirma.

Na vida da criança, o esporte é responsável por fortalecer os músculos, criar noções de equilíbrio e desenvolver a coordenação motora.

Para o Dr. Paulo, cada fase da infância demanda um tipo de atividade. Esportes coletivos como o futebol ou o handebol, por exemplo, devem ser introduzidos à partir dos quatro ou cinco anos de idade, quando a criança já é capaz de compreender e dominar as regras de cada jogo. Esportes de impacto (como as ginásticas e o atletismo) devem ser evitados na fase de pleno crescimento, quando os ossos da criança ainda estão em desenvolvimento.

A natação talvez seja a modalidade mais recomendada pelos pediatras – afirma o médico – porque não apresenta risco de lesões e pode ser iniciada precocemente. “A natação pode ser apresentada a um bebê de oito meses, por exemplo. Ele não vai aprender a nadar, mas vai se familiarizar com a água, que atua em grupos musculares específicos e proporciona movimentos diferentes daqueles a que estamos acostumados”, diz.

A prática esportiva compõe um ambiente que é saudável como um todo. De acordo com o Dr. Paulo, “o atleta tende a acordar e a dormir cedo, a seguir uma alimentação adequada à sua prática e a envolver-se menos com a droga e o álcool”, diz.

Além dos benefícios físicos, as práticas esportivas são de fundamental relevância para que o corpo esteja em consonância com a psique. É o que diz a psicóloga infantil e ex-atleta Debora de Castro Gonçalves. Para a antroposofia, vertente da psicologia dentro da qual trabalha, a criança recém nascida precisa “espreguiçar-se dentro do seu corpo”, pouco a pouco apropriar-se dele conforme a sua individualidade. Esse processo pode estender-se até os 20 anos, e é durante esse período que o esporte deva estar presente na vida da criança.

No primeiro setênio de vida (dos zero aos sete anos), Debora ressalta a importância do exercício não dirigido, que chama de “brincar livre”. Nessa fase, a criança deve adquirir noções corporais de forma espontânea, subindo em árvores ou andando de bicicleta, por exemplo.

O exercício dirigido deve ser introduzido durante o segundo setênio (dos sete aos 14 anos), quando a criança já é capaz de coordenar o próprio corpo e, sobretudo, de internalizar algumas características que o esporte pode trazer à tona, como a disciplina, a perseverança e a resiliência. “A repetição nos torna bons em algo. O talento existe, mas 90% do sucesso é fruto do treino, do aprender a cair e a levantar”, diz a psicóloga. “No mundo moderno, o esporte tem um peso muito grande para a formação da personalidade da criança. Se a criança não tem nos seus pais um exemplo, pode vir a ter num técnico ou num professor, desde que ele incentive a criança do jeito correto”, completa.

No âmbito social, o esporte promove o encontro, faz nascer o espírito de equipe e o amor pelo outro. Debora relembra seu tempo de atleta, quando competia em saltos ornamentais pelo Esporte Clube Pinheiros: “Quando um amigo leva um tombo, todo mundo sofre junto”.

 

Esporte o ano todo

No mês de março, uma comissão composta por funcionários da pasta de Esportes e Lazer se reuniu para começar a planejar a Virada Esportiva 2018. O evento, que acontece em setembro e está em sua 12ª edição, oferece dois dias de programação ininterrupta, espalhada pelas regiões de São Paulo. No ano passado, uma ação do Anjos do Esporte – instituto fundado pelo ex-jogador da seleção brasileira de basquete André Brazolin – permitiu que crianças das favelas de Heliópolis e Paraisópolis “batessem uma bola” junto a outros ídolos do basquete nacional, no tradicional bairro dos Campos Elíseos, zona central. Dentre maratonas, esportes radicais e modalidades adaptadas, outras centenas de atividades como essa ocuparam o espaço público, com o objetivo de inserir a população na prática esportiva e proporcionar mais opções de lazer para o final de semana na capital.

Esse ano, espera-se que a prefeitura dê total suporte financeiro ao evento. Em 2017, primeiro ano da gestão de João Doria, a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (SEME) cortou R$ 3 milhões do orçamento da Virada. Essa quantia seria paga às empresas contratadas que ofereceriam atividades aos cidadãos. Ao invés disso, a Secretaria atuou como ‘facilitadora’, permitindo que patrocinadores realizassem ações esportivas durante a 11ª Virada. Em 2018, o orçamento da pasta foi 17,5% menor do que o destinado à ela em 2017. Ainda no dia 28 deste mês, o atual prefeito lançou o projeto de concessão do Estádio do Pacaembu (com restrições), apostando na iniciativa privada como forma de reduzir os gastos da pasta.

 

Equipamentos

Com o orçamento enxuto, o desafio da prefeitura será manter a estrutura dos locais onde as crianças podem praticar esportes durante todo o ano. É o caso, por exemplo, dos 46 Centros Esportivos Municipais (CE). Dispostos pelas cinco regiões da cidade, os equipamentos dispõem de campos de futebol, ginásios, quadras e piscinas, e todas as atividades oferecidas são gratuitas. Para participar, basta dirigir-se a unidade de sua escolha e fazer a carteirinha do local.

Localizado na Vila Clementino, zona sul de São Paulo, o Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP) Marechal Mário Ary Pires é referência nacional na prática esportiva de alto rendimento. De lá, saíram atletas como o ginasta Arthur Zanetti, campeão olímpico na modalidade de argolas e primeiro brasileiro a conquistar uma medalha de ouro em seu esporte.

Para treinar no local, as crianças devem passar pelas “peneiras”, que acontecem todo mês. Os treinos são divididos por gênero e faixa etária, e é necessário estar matriculado no ensino básico para concorrer às vagas.

Para o Centro, o esporte é coisa séria. De acordo com reportagem do Estadão, a prefeitura investe de R$ 800 a R$ 1000 por mês na formação de cada um dos mais de mil atletas mirins, oferecendo auxílio transporte, lanche elaborado por nutricionista, atendimento médico e psicológico e treinamento com técnicos especialistas em dez modalidades (atletismo, basquete, boxe, futebol, ginástica, handebol, judô, luta, natação e voleibol).

As 22 unidades do Serviço Social do Comércio (SESC) localizadas na Grande São Paulo entram nesta reportagem porque, apesar de não configurarem equipamentos públicos – e portanto cem por cento gratuitos – oferecem extensa programação de lazer com entrada franca ou a preços módicos, durante seis dias da semana (terça à domingo), com desconto para aqueles que dispõem da credencial.

A maioria das unidades conta com ginásios poliesportivos, espaços de brincar e salas de expressão. Algumas, como a de Pinheiros, a da Consolação e a do Bom Retiro, contam também com parques aquáticos (piscinas semiolímpica e infantil, aquecidas e cobertas), quadra de areia (Osasco) e campo de futebol soçaite (Belenzinho).

Idealizado pelo empresariado do comércio em serviços em 1946, os SESC ficaram conhecidos por introduzir na sociedade novos modelos de ação cultural, atendo-se à premissa da educação como pressuposto para a transformação social, virando até modelo internacional.

Em 2015, quando da inauguração da Faculdade de Urbanismo do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), a prefeita Anne Hidalgo viria a dizer que os SESC foram fonte de inspiração para a atuação do Cent Quatre, importante centro cultural e espaço de convivência da capital parisiense, inaugurado em 2008.

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