Transexualidade entra em jogo

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Por Ana Luiza Menechino, Ana Beatriz Pattoli e Paula Zarif

No Brasil,  179 travestis ou transexuais foram mortos em 2017. Isso significa uma morte a cada 48 horas. Os dados são de uma pesquisa da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e ainda parece estar longe de mudar. 

Outro ponto que mostra a dificuldade de ser trans no Brasil é apontado na pesquisa da União Nacional LGBT que apresenta que o tempo médio de vida de uma pessoa trans no país é de apenas 35 anos. Enquanto a expectativa de vida da população em geral é de 75,5 anos de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A vida de uma pessoa transgênero ou transexual continua sendo uma das mais difíceis no mundo. Lidar com opressão e, muitas vezes, agressão todos os dias não é fácil –  nem humano.

Alguns países ainda não aceitam pessoas homossexuais e os tratam como seres não-humanos e que deveriam morrer. Segundo uma pesquisa feita pela Ilga (International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association), 72 países consideram crime gostar de uma pessoa do mesmo sexo e em 8 deles isso é punido com pena de morte (veja a pesquisa aqui https://ilga.org/maps-sexual-orientation-laws). Quando o assunto é um indivíduo que não se identifica com o gênero biológico que nasceu e o que a sociedade “impõe” para ele , o preconceito é ainda maior.

O  tema passou a ter mais destaque somente nos últimos anos, especialmente com o crescimento da cantora Pabllo Vittar. Ainda assim, o debate e a disseminação de informações ainda é muito necessário. Um exemplo recente disso foram as discussões sobre a jogadora de vôlei Tiffany.

Tiffany, atleta do Bauru (Foto: Marcelo Ferrazoli/ Vôlei Bauru)

A atleta do time do Bauru é a primeira trans a participar da Superliga feminina de vôlei e ainda sofre toda vez que entra em quadra. Atuante desde setembro de 2017, Tiffany se destacou nos jogos tanto pelo desempenho quanto pela dúvida: muitos torcedores acreditam que, por ter nascido homem, ela não compete em condição de igualdade com as outras jogadoras. Ao contrário do que imaginam, ela está dentro das normas estipuladas pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) e participa dos jogos regularmente.

Mesmo isso não foi suficiente para calar os “haters” online. No Twitter e no Facebook muitas pessoas se posicionaram contra a atleta e vários comentários, como é comum quando as pessoas se posicionam por trás da tela, sequer faziam sentido. Isso colaborou para abalar a confiança de Tiffany e ela foi perdendo cada vez mais espaço. Hoje, mesmo sendo uma das maiores pontuadoras em um jogo, a profissional é reserva e possui pouco espaço para jogar.

Dando “um passo à frente” dos esportes profissionais, a organização do JUCA (Jogos Universitários de Comunicação e Artes) aprovou a participação dos atletas trans nos jogos. A novidade foi anunciada no dia 29 de janeiro, dia da Visibilidade Trans.

O JUCA atinge, em média, sete mil  pessoas entre atletas, torcedores e baterias. Para orientar todos e levantar o debate entre os envolvidos, a LAACA, liga das atléticas que organizam os jogos, realizou uma palestra.

O evento, batizado de ‘Seu Juca convida: Precisamos falar sobre diversidade’, teve como objetivos levar esse debate para o meio universitário, compartilhar informações e apresentar uma perspectiva prática sobre a questão de gênero do esporte, levando em consideração a atual realidade brasileira.

A palestra aconteceu em março deste ano e teve cerca de 300 convidados, incluindo atléticas e atletas dos jogos de comunicação e outros. A mesa de palestrantes contou com as presenças  de Amara Moura, travesti, feminista e autora do livro e “E se eu fosse puta”, Rachel Macedo Rocha, vice presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/SP, Renan Lucena, médico e colaborador do grupo de trabalho da Casa 1 (centro de cultura e acolhimento de LGBTs) e o universitário Thomas Fernandes, que há quatro anos iniciou sua transição e é atleta nas modalidades: triathlon, duathlon e rugby – este último por parte do time LGBT.

A mesa debateu não só o começo das participações de atletas trans em competições, mas também a saúde física dentro do regulamento e as questões psicológicas, defendendo que, mesmo com a abertura no esporte universitário e profissional, isso ainda é apenas um passo dentre tantos outros que precisam ser dados para inclusão.

Quem vai ser diretamente afetado pela nova regra é o Gui Abreu, atleta trans do time de handball da Belas Artes. Pela primeira vez, ele vai poder jogar no JUCA, coisa que evitou nos últimos anos porque não queria jogar com as meninas. Ele foi uma das pessoas que lutou para mudar a regra nos jogos e, para a próxima edição, que acontece no fim de abril, ele está “apreensivo, ansioso e com medo”.

Jogo de handball do time masculino da Belas Artes no JUCA 2017

Franco Tellini, presidente da Atlética de Comunicação da PUC SP, considera a medida necessária: “mesmo que em menor escala, já começamos a fazer mudanças dentro do nosso alojamento para englobar todo o público. Os nossos banheiros, por exemplo, agora são divididos entre ‘homens’, ‘mulheres’ e ‘fluido’.”

Gui acredita que ainda falta diálogo para que essa inclusão seja bem feita no esportes em geral. “ É necessário que todos entendam que não somos diferentes porque carregamos um trans e não um cisgênero. Muitas faculdades e esportes não lidam bem com essa diferença, mas ela é necessária para a evolução da nossa sociedade”, explica.

 

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