O ensino deficiente da educação física

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Como a falta de acessibilidade da escola pública afeta o aprendizado de estudantes com dificuldades motoras

Por Beatriz Gimenez, Edilson Muniz e Rachel Castilho

A acessibilidade sempre foi um tema recorrente, principalmente quando tratada no âmbito escolar. Alunos com qualquer tipo de deficiência são muito atingidos pela infraestrutura precária, a qual muitas vezes não está nem perto da ideal, além do desinteresse em modificar tais situações, que às vezes parte de professores, coordenadores, e mais comumente, do próprio governo.

O Censo Escolar de 2017 trouxe dados preocupantes. Das mais de 140 mil escolas públicas analisadas, aproximadamente 39 mil delas contavam com dependências acessíveis aos deficientes físicos. Além disso, menos de 54 mil dessas escolas possuíam em sua estrutura sanitários adaptados para esses alunos.

As escolas públicas não possuem defeitos apenas para aqueles estudantes que têm alguma dificuldade motora. Segundo esse mesmo levantamento, mais de 86 mil das escolas analisadas não contam com uma rede de esgoto adequada e aproximadamente 47,5 mil delas também não contam com água a partir da rede pública.

A infraestrutura de escolas públicas é visivelmente falha. Além de sofrer com inúmeros problemas de acessibilidade e de serviços básicos, muitas delas não oferecem salas e dependências adequadas para os seus alunos. Considerando essa mesma pesquisa, das mais de 140 mil escolas observadas, quase 100 mil delas não possuem biblioteca, mais de 85 mil não contam com laboratórios de informática, apenas 12 mil delas têm laboratórios de ciência, 98 mil não possuem quadras esportivas e aproximadamente 25 mil delas não têm sanitários dentro do prédio principal.

Para Márcia Greguol, que atualmente é professora da Universidade Estadual de Londrina, mas que por muitos anos lecionou a disciplina de Atividade Física Adaptada e Saúde em um curso de pós-graduação na cidade de São Paulo, a crise estrutural pela qual as escolas públicas passam, com espaços físicos decadentes e professores com formações precárias, é o maior impedimento para a acessibilidade.  “Como uma escola já decadente pode ‘se preparar’ para receber alunos com deficiência? Sem uma política governamental que saia do papel, a escola sozinha pode fazer muito pouco”, afirma.

Estudantes com dificuldade de locomoção, por exemplo, precisam de rampas e elevadores para conseguirem se movimentar pela escola. Lucas Cruz, aluno de 15 anos que tem paralisia cerebral, conta que o elevador de sua escola está quebrado já há algum tempo e que ele pode até reclamar disso, mas que provavelmente nada será feito para resolver a situação. Ele diz que a turma muitas vezes também não coopera e opta por excluí-lo de atividades em vez de ajudá-lo a lutar por seus direitos. “Teve uma vez que eu tive que brigar com eles lá porque a sala inteira queria subir e me deixar sozinho. E eu falei que não, eu faço parte da sala”.

A falta da prática de uma educação física adaptada para suas condições também pode prejudicar muito a condição do aluno, já que a aula é muito mais do que apenas “fazer exercícios”, de acordo com a professora Márcia. “O aluno deve desenvolver [nessas aulas]dimensões conceituais sobre a atividade física e o esporte, além de dimensões atitudinais durante seu convívio com os demais alunos, ainda que não consiga se movimentar”. Ela ainda completa dizendo que a inclusão é um processo que exige esforço. “Muitas das ações da escola seriam facilitadas caso houvesse algumas garantias por parte do governo, como recursos materiais apropriados, espaços acessíveis, formação continuada e professores de apoio. Sem estas condições, a inclusão fica comprometida”, afirma.


Mesmo com todo o problema da falta de infraestrutura adequada, Lucas e Rosângela, sua mãe, valorizam e se surpreendem muito quando algum professor mostra preocupação com o bem estar do aluno e tenta encaixá-lo nas atividades da turma. “O professor Fernando era muito bom, ele fez o Lucas dançar na festa junina, quadrilha. Ele adaptou um jeito da cadeira ir seguindo a dança”. Para eles, a vontade faz toda a diferença.

A precariedade das escolas públicas do estado

O Lucas precisa de auxílio para fazer algumas atividades da escola, por exemplo provas. Os livros didáticos têm que ter a escrita ampliada e alguém precisa escrever por ele. Assim, muitas vezes ele não pode participar das mesmas atividades aplicadas aos outros estudantes porque não há ninguém para auxiliá-lo. “Na prova governamental, por exemplo, que de vez em quando não tem ninguém qualificado para me ajudar na prova. Eu sou qualificado, eu sou inteligente, mas não tenho suporte, então acabo não fazendo.” Nesses casos, Lucas ficava em uma sala especial, a chamada “sala da inclusão”, onde crianças, muitas vezes com deficiências mais graves que a dele, eram reunidas para ter aulas adaptadas. Rosângela considera que seu filho aprende muito mais estando nas salas regulares com os outros estudantes, não sendo colocado à parte. “Uma vez teve a prova Brasil, a prova avaliativa do governo. Em vez de eles arrumarem alguém pra fazer a prova com o Lucas, não arrumaram ninguém e jogaram ele na sala de inclusão, sala especial. Ele devia ter feito essa prova do mesmo jeito que os outros fizeram, na sala regular ele tá aprendendo mais”. Hoje essas salas especiais foram extintas, porque o governo considerou que elas não ajudavam na formação das crianças, mas sim as excluíam das atividades e do convívio com outros alunos.

Rosângela conta que, quando Lucas estudava em outra escola, uma do município, existia uma sala de recurso, onde alunos que possuíam algum tipo de deficiência ficavam à tarde para um reforço. Às vezes a professora dessa sala, uma estagiária do curso de pedagogia, ia para a classe de Lucas e o ajudava com suas necessidades, servindo como a sua escriba. “Então ela copia a lição pra criança, é como se ela fosse os braços da criança, a pessoa que escreve para a criança.” Nas escolas do estado essa pessoa não existe, deixando o aluno refém da boa vontade do professor, para levar textos já escritos ou xerocados, ou dos colegas, para eventualmente copiarem a matéria para ele. “Ano passado o Lucas ficou sem matéria de ciência. A professora ficava chamando o Lucas de preguiçoso, mesmo sabendo que ele não copiava a matéria. Teve um dia que eu fui falar com a coordenação. Falavam que eu era barraqueira, que eu tinha que falar com a coordenação e não direto com o professor”.

 

Situação do deficiente e sua família

No começo, era a Rosângela quem ia à escola com o Lucas e o acompanhava nas atividades de educação física. “Eu pegava o Lucas no colo, a gente saía correndo, brincava de pega-pega, eu tocando a cadeira”, diz a mãe, que acrescenta: “Eu fazia ele participar de todas as atividades e eu incentivava as crianças a estarem sempre interagindo com ele”. “Eu acho tão bonito isso, eu fico tão emocionada” era o que ela mais ouvia dos professores. Porém, com a chegada dos cuidadores nas escolas, sua presença não era mais necessária e os problemas nas aulas de educação física começaram.

De acordo com o Lucas, são raras as aulas que são adaptadas às suas condições e, na maior parte do tempo, ele fica somente conversando. “Ela [a professora]não me dá nenhuma atividade. Eles falam a mesma coisa de sempre: eles não estão preparados para isso, não estão formados para isso”, afirma sobre seus professores da disciplina. A falta de equipamentos adaptados para crianças com deficiência, cursos preparatórios para os professores e superlotação das salas, são problemas fundamentais que prejudicam o aluno, mas, para Rosângela, o professor “tem que ter essa vontade de querer ajudar e querer fazer a diferença”, inclusive para estar preparado ao entrar para dar aulas em uma escola com inclusão.

Nas aulas de educação física, a falta de infraestrutura adequada atinge ainda mais esses alunos. Muitas as atividades não são adaptadas para eles, que ficam apenas assistindo as aulas. Para Rosângela, a falta de vontade das pessoas em ajudar é um problema tão grave quanto essa infraestrutura precária. “Eu pensei até em comprar uma cesta de basquete adaptada. Mas se eu levar a cesta e o professor não fizer nada com ela, não vai adiantar nada. Falta a parte do material, a parte humana, procurar saber o que pode ser feito. Cada um tem uma limitação, cada aluno é diferente e não pode ser uma aula igual para todos”, afirma.

Ela diz ter tentado conversar com diversos profissionais na escola, desde o professor até o vice-diretor, mas nenhum deles parece ter vontade de ajudar. Até mesmo o próprio Lucas já tentou resolver a situação, e sua coordenadora, na época, disse que ele era a primeira criança com deficiência que brigava pelos seus direitos na escola. Muitos dos professores perguntam para a mãe o que deve ser feito com a criança deficiente durante as aulas, e sua resposta é direta: “Você tem que correr atrás pra ver como é que faz, senão você me dá o seu salário e eu faço a parte da educação física”.

Logo depois das tentativas, as adaptações não se mantêm por muito tempo. “É um dia que eles adaptam, depois vão esquecendo e aí tem uma hora que você até cansa. Teve um dia que eu falei pro Lucas deixar essa educação física pra lá e ficar batendo papo, porque se não tiver a boa vontade do professor, não adianta ficar brigando”, diz a mãe. De acordo com ela, até mesmo o próprio Lucas parou de reclamar, “foi desistindo. Eu também fui cansando de tanto brigar e a gente deixou pra lá”, acrescenta.

Na opinião da Rosângela, a falta da disciplina prejudica seu filho. Para ela, trabalhar com inclusão é fazer com que o Lucas participe de todas as aulas, “senão não é uma inclusão, chega a ser uma exclusão”, afirma, alegando também que o incentivo do professor não é positivo somente para o aluno com deficiência, mas para todos. “Se não tem incentivo do professor, os alunos vão perdendo o interesse e ficando no canto”, diz.

Porém, parece ainda existir um luz no fim do túnel. Alguns professores, mesmo sem preparo, se esforçaram para incluir o Lucas durante as aulas. Rosângela deu o exemplo de um deles: “Ele disse pra eu não me preocupar que todas as aulas o Lucas ia entrar. E foi dito e feito. Não tinha uma aula que ele não participasse. Ele chegou a andar de skate, o pessoal ficou de boca aberta lá na escola. Ele deu cambalhota com o Lucas. O que as outras crianças fizeram, ele também fez”, conta. Lucas diz que se vivêssemos em um mundo perfeito, totalmente adaptado, ele gostaria de participar de competições de karatê ou até de capoeira, mas, para ele, “isso por enquanto está numa utopia que eu não acho que vai chegar tão cedo”, afirma.

Para Rosângela, apesar de tudo, as escolas estão vivendo uma evolução, mesmo que pequena. “Se pensar que tempos atrás as escolas nem tinham inclusão, as crianças com deficiência nem iam para a escola, hoje, por exemplo, a maioria das escolas tèm que ter rampa. Mas assim, são passinhos pequenininhos.” Ela pensa que os professores também precisam se adaptar, porque todas as escolas públicas agora são inclusivas. “Assim, se é uma escola de inclusão, então tem criança com deficiência. E se tem criança com deficiência, então eu tenho que me adaptar. Não é a criança que tem que se adaptar à escola, é a escola que tem que se adaptar à criança. Isso que é inclusão.”

Lucas e Rosângela Cruz.

A visão do professor

Com o aumento das discussões acerca da inclusão social dos grupos quase invisíveis para a sociedade em geral, profissionais procuram especializações para aumentar os conhecimentos de tais assuntos. Um exemplo são os professores de educação física que tentam se moldar para incluir os alunos com dificuldades motoras.

Márcia acredita que a formação precária do profissional da área é, por muitas vezes, a maior dificuldade enfrentada para lidar com alunos com deficiência. Além disso, equipamentos especializados para este tipo de aluno, segundo ela, é muito caro e difícil de providenciar: “muitas das atividades desenvolvidas nas aulas de educação física para alunos com deficiência física seriam facilitadas caso fossem disponibilizados materiais específicos, os quais infelizmente apresentam alto custo”.

Quando perguntada sobre como efetuar a inclusão, a professora foi enfática em afirmar que não é possível incluir de modo que as crianças continuem segregadas: “Acho totalmente desaconselhável um plano de aula específico. Incluir não é apenas colocar no mesmo espaço físico, mas sim planejar atividades em que todos possam participar, ainda que de formas diferentes”. Ela completa que todos podem participar da aula, mesmo que seja diferente do modo original, assim como Lucas afirma já ter sido juiz em jogos de futebol na disciplina.

As leis de inclusão dos alunos com complicações motoras são crescentes. A lei de nº 10.172, do ano de 2001, aprovou o Plano Nacional de Educação que estabelece vinte e oito objetivos e metas para a Educação das pessoas com necessidades educacionais especiais. Mesmo com esta conquista, Márcia diz que isso não é suficiente para que haja uma mudança de postura: “O papel aceita tudo. Ir para a escola e pôr sua ‘cara a tapa’ na frente de uma turma é muito diferente. A inclusão escolar sem dúvida é um processo benéfico e que deve ser implementado em sua totalidade. Mas isso não depende apenas de papel e saliva. Depende de recursos financeiros, de investimentos em estrutura física, de recursos humanos e materiais”.

Considerando o papel dos professores, Márcia diminui a responsabilidade dos profissionais que estão diariamente em contato com este problema. Segundo ela, eles precisam de apoio para conseguir cumprir a lei: “Não se pode jogar nas costas do professor a obrigação de fazer a inclusão escolar dar certo. O esforço é conjunto. Leis bem escritas podem ser muito comoventes, mas não resolvem o problema”. Ela completa reconhecendo que existem problemas, mas segue defendendo a categoria: “Claro que podem existir pessoas com ‘má vontade’ no meio do processo. Porém, culpá-las apenas pela falha no processo é deixar de pensar na figura mais ampla. É dizer que o governo já fez sua parte promulgando leis. E isso, como já disse antes, é uma visão simplista e equivocada”.

Na opinião de Márcia, o grande problema vem mais de cima, na formação dos professores e na forma como eles são tratados pelo governo. “A lei menciona a formação continuada, porém a forma como ela é oferecida na escola pública é muitas vezes precária. Em algumas escolas são oferecidas palestras ou cursos não presenciais, que muitas vezes foram da realidade de muitos professores. Alguns buscam iniciativas por conta própria, como cursos de extensão ou especialização.” Em sua opinião, precisamos nos preocupar também com as dificuldades que os educadores enfrentam dia a dia. “Talvez estejamos esquecendo que este professor já vem para a escola com uma formação precária e, independente do aluno com deficiência, já é sobrecarregado com turmas numerosas, baixos salários, falta de materiais e espaços físicos inadequados. Temos escolas públicas com quadras que colocam em risco o deslocamento de qualquer aluno. Imagine daquele com deficiência. Para o governo, mostrar para o povo e para os órgãos internacionais (como a UNESCO) que temos belas leis é muito importante.”

A professora afirma que a procura por cursos preparatórios está aumentando, mas ainda não é o ideal: “Nos cursos de Educação Especial nos quais atuei, percebi uma crescente busca de profissionais de educação física por esta especialização, ainda que a grande maioria do público desses cursos seja formada por pedagogos”. Ela finaliza dizendo que a participação nas aulas e o convívio com os colegas de classe fazem parte do crescimento do aluno: “Deixar de conviver com os colegas na aula de educação física faz com que o aluno deixe de adquirir uma série de atitudes e habilidades sociais que seriam importantes para o seu desenvolvimento”. E completa falando que o crescimento não é só para o aluno com dificuldades: “Os alunos sem deficiência também, ao serem privados do convívio com seus colegas com deficiência nas aulas de educação física, perdem uma oportunidade ímpar de aprendizado e podem ter mais dificuldade em lidar com diferenças”.

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