Mulheres buscam defesa pessoal e procura por Krav Magá cresce

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A luta com origem em Israel tem ganhado cada vez mais adeptas que buscam se proteger da violência

Por Ingrid Duarte, Julia Castello Goulart, Thalita Archangelo

A procura pela luta de defesa Krav Magá tem aumentado nos últimos anos no Brasil, principalmente por parte das mulheres. De acordo com informações da Associação Brasileira de Academias (Acad), há a percepção de um crescimento de 40% na procura pela prática de lutas, desde 2012. Segundo a Acad, as mulheres já representam cerca de 30% do novo público que quer praticar alguma modalidade de luta. Ainda, segundo dados da Federação Sul Americana de Krav Magá, cerca de 30% dos alunos no Brasil são mulheres, que procuram a modalidade para se defender.

Os altos índices de crimes contra a mulher são um dos principais motivos que justificam o público feminino na modalidade. Segundo dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública, em fevereiro deste ano os casos de estupro no Estado de São Paulo passaram 794 casos registrados em janeiro, para 999 no segundo mês do ano. Foi uma média mensal de 25,82% neste tipo de crime. Na capital paulista, houve um crescimento de 19,79%. O número passou de 187 em janeiro para 224 em fevereiro de 2018. Já em perceptiva nacional, 86% das brasileiras já sofreram algum tipo de assédio e  a estimativa de violências físicas, como o estupro, chega ao número de 135 por dia. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2017 e da ActionAid, Organização Internacional de Combate à Pobreza. Apesar da arte marcial estar se difundido cada vez mais no Brasil e no mundo, ela surgiu em Israel em um contexto bem diferente, do usado hoje.

Imi Lichtenfeld, filho de um chefe do serviço secreto, condecorado e conhecido como o detetive que mais prendeu criminosos perigosos, decidiu criar, na década de 1940,uma forma de sobreviver a primeira guerra árabe-israelense, já que as técnicas de lutas existentes na época não eram suficientes. Então ao perceber que a principal ferramenta era seu próprio corpo, Lichtenfeld entendeu que os movimentos naturais podem ser trabalhados para a defesa própria.

No início era restrito apenas à elite militar,  a partir de 1964,o ensino foi liberado aos militares em geral e à população civil dentro do Estado de Israel. E nesse momento, seu criador com medo que que a sua obra não tivesse continuidade, selecionou um grupo para treinar e se preparar. Em 1987, foi liberado a saída para a fora de Israel, vários países como Estados Unidos, Inglaterra e França adotaram. Em 1990, o primeiro faixa preta ‘Mestre Kobi’ chegou ao Brasil, como único representante da arte na América Central.  

As aulas de Krav Maga são divididas em corridas, alongamentos e movimentos específicos da aula do dia, depois a parte técnica que tem o chute regular, soltura de estrangulamento, golpes de boxe com a esquerda e depois direita, ataque de faca por cima, complementada com uma dinâmica no fim.  Adriano A Rais, instrutor de Krav Magá diz que as técnicas são de defesa e ataque, “lembramos que a essência do Krav Magá é defesa e contra ataque ao mesmo tempo, inicialmente o aluno aprende estrangulamento, agarramento, golpes de boxe e chutes”.

Vale lembrar que o Krav Magá ensina os alunos a se defenderem e não a bater, já que o objetivo é chegar são e salvos em casa. Aprendem desde a primeira aula que só deve ser usado em situações de agressão. Adriano enfatiza “o aluno aprende que pode reagir somente quando sua reação não colocar sua vida e de outra pessoa, mas vale lembrar que temos a obrigação de nos defender”.

Ele que já é professor da modalidade há 14 anos diz que percebeu na prática o aumento da procura das mulheres pelo esporte. Ele conta que inicialmente chegou a ter turmas sem nenhuma mulher. Hoje já tem turmas lotadas mais de mulheres do que homens. “É necessário aprender defesa pessoal porque qualquer indivíduo precisa saber se defender de uma agressão, além de ser de extrema importância não se sentir ameaçado e adquirir uma vida física e mental saudável”, afirma.

Hingrith Assis é instrutora de pole dance e faz Krav Maga há um mês. Ela conta que o principal motivo de querer aprender um pouco sobre a defesa pessoal surgiu como meio dela se proteger, já que chega muito tarde em casa todos os dias. “Defender a própria vida nos dias de hoje é o mínimo, a segurança é muito pouca e depender de policiamento é complicado”.  No aspecto de reagir em uma situação de risco ela diz que se é algo que atinge seu corpo é necessário ter uma reação “acredito que enquanto a ameaça for apenas um assalto, você entrega suas coisas e pronto, mas ultimamente ameaçam sua vida, aí que precisamos reagir”.

Cristina Pimenta é  engenheira civil e treina há dez meses e decidiu fazer por querer fazer uma atividade física. Ela até hoje nunca usou as técnicas para se defender, mas acha um esporte muito útil e acredita que usaria as técnicas em uma situação de assédio, “sempre que eu penso em um momento que eu vá usar o Krav Magá são em situações de assédio e estupro”.

Já a aeronauta Alessandra Silva faz Krav Magá há um mês, mas já foi praticante de várias lutas, como boxe e Muay Thai. Decidiu-se pela nova luta de defesa depois de entrar em uma briga de família e não conseguir se defender “na hora foram muitas pessoas em cima de mim e poderia ter ficado no prejuízo e agora quero estar preparada”. Contudo, ela frisa que espera não usar em nenhuma situação, mas recomenda “existem muitas técnicas fáceis e não perigosas de usar, já que não utiliza força física”.

Luiza Russo Vilela, estudante, que já treina há quatro meses, diz que começou as aulas inicialmente como uma forma de praticar exercício. No fim, acabou usando para proteger ela e as amigas de uma situação de ataque de alguns homens no carnaval: “como sou alta e vi logo a situação, percebi que se eles caíssem em cima de nós, machucariam as meninas. Foi aí que desviei um deles com um golpe de cotovelo e o cara caiu no chão do meu lado. Fiquei um pouco assustada na hora porque não sabia a dimensão de força que conseguia dar num único golpe, mas deu certo, logo depois fomos embora para não dar mais problema”.

Segundo a psicóloga do Centro de Acolhimento às mulheres vítimas de violência, Lenira Silveira, situações de assédios e estupros como vividos por Luiza e muitas outras brasileiras trazem inúmeras consequências psicológicas, os traumas. Diferente da história de Luiza, que terminou com um desfecho sem muitos riscos, muitas outras mulheres não tiveram essa sorte ou reação e acabam sofrendo inúmeros tipos de violência.

A violência quebra a sensação de segurança e de confiança da mulher dentro das suas relações. “A principal consequência são os  traumas emocionais que a violência provoca, qualquer tipo de violência. A gente vai ter também dependendo da situação de violência traumas físicos também, dependendo da gravidade dessa violência”. Segundo ela ainda existe um nível de consequências diferentes de quando a violência acontece com estranhos do que com conhecidos no caso de relacionamentos, que é nomeado de violência domèstica, porque existe todo um emocional envolvido.

Para Lenira é exatamente essa questão emocional envolvida que a faz acreditar que o Krav Magá apesar de poder ser uma ótima ferramenta de desenvolvimento do autoestima das mulheres, não pode ser vista como solução e resposta para a diminuição dos casos de violência. “De forma geral, as mulheres, até diria meninas, poderem ser expostas a alguma situação, e perceberem sua força, desenvolverem inclusive, essa capacidade de  autoconfiança, seu processo de defesa, eu acho muito importante de modo geral. Até porque na nossa sociedade ainda, se educa muito as meninas para recuar diante de qualquer situação de risco. Então desenvolver esse processo que as meninas se sentiam capazes, desafiadas, é muito importante até no ponto de vista psíquico, para desenvolver a autoconfiança. No mundo violento que estamos vivendo, acho interessante que as mulheres desenvolvam estratégias de defesa pessoal, não acho que seria o ideal. Eu gostaria que a gente vivesse em um mundo que a gente não precisasse ter essa lógica de defesa ao semelhante”.

Como ela mesma explicita  o emocional no momento influencia a reação das mulheres nessas situações de conflito. “Às vezes não é nem da mulher não saber como reagir, mas, as vezes o próprio sentimento no momento vai impedi-la de agir. Às vezes você encontra mulheres fortes nas suas relações do dia a dia e frágeis nas suas relações conjugais. Então é preciso tomar cuidado para não criar o mito que com a autodefesa a mulheres estarão cem por cento seguras, porque pode provocar outras situações de risco. Eu vejo a defesa pessoal como um recurso há mais , não como a solução do problema”.

Além da questão emocional tem situações que não se utiliza a auto-defesa por uma questão de constrangimento: “No caso de assédio, por exemplo, às vezes a menina está em uma situação, por exemplo, dentro de um ônibus que é complicado ela se expor. Não é as vezes que ela não sabe o que fazer, mas até para ela sair da  situação pode causar um constrangimento social. Então tem muito mais a ver com a cultura, do que a própria relação. Outro exemplo, no assédio no trabalho, então não é tão simples, porque não estamos falando só de uma reação física, mas, emocional que tá envolvido nessa violência de gênero. Se a gente não atacar o problema na raiz, mesmo que as mulheres tenham os instrumentos, talvez, elas nem os utilizem”.

 Assim, segundo ela as soluções devem ser pensadas em mais a longo prazo e não como uma solução isolada. Como ela mesmo exemplifica existe um candidato concorrendo à presidência que propõe como solução o armamento das mulheres como autodefesa. “Ele diz que se a gente der armas para as mulheres a gente não precisa da lei Maria da Penha, ou seja, são soluções que vão para um caminho muito complicado, que não implica uma solução eficiente para o problema.  Que mundo é esse que a gente tá pensando, que as relações entre homens e mulheres vão ter que ser mediadas por uma arma? Eu acho que a gente precisa pensar mais além”.

Segundo Lenira, que atende vítimas de violência contra a mulher todos os dias, o problema está na própria sociedade que hierarquiza a relação do homem superior a da mulher, não só nos relacionamentos, mas dentro da esfera do trabalho, doméstico, ou mesmo em relação a sexualidade. “Ainda se trabalha que a sexualidade é algo incontrolável  que se a menina está de saia curta, o homem não consegue se controlar. Como se a sexualidade masculina, fosse animal e a feminina de outra natureza. São todas construções sociais, é a sociedade que educa as pessoas para serem desse jeito. Ainda existe uma permissividade para essa violência, uma permissividade social. Tem uma lógica da sociedade ainda de que os homens são incontroláveis, que as mulheres não podem se vestir como querem, andar aonde querem…então o que a gente precisa fazer, é mudar essa lógica.”

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