Em um esporte sem árbitro, a ética entra em campo

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No Ultimate Frisbee, competição e cooperação andam de mãos dadas

Por Débora Bandeira e Emilly Dulce

“Podemos dizer que o Ultimate é um esporte onde todos são árbitros”. A fala de Lica Assis, farmacêutica e jogadora de Ultimate Frisbee, define o ponto principal desse esporte, ainda pouco conhecido no Brasil, no qual não há a presença de nenhum tipo de arbitragem.

“Todos os jogadores sabem as regras e eles são os responsáveis por arbitrar os lances. A chamada é feita e a decisão é tomada entre os envolvidos no lance, com base nas regras amparadas pelo Espírito de Jogo, que é o grande diferencial do esporte. Não existe o ‘tudo pode desde que o juiz não veja’. Aqui, todos veem tudo e, portanto, uma atitude desrespeitosa é exposta para todos.” explica Lica.

O Ultimate Frisbee, conhecido também apenas como Ultimate, é um esporte jogado geralmente em duas equipes de sete jogadores, cuja ausência da figura de um árbitro, aparentemente neutro, faz com que o exercício constante da ética seja a característica mais significativa da prática esportiva. Por isso, o Espírito de Jogo, mencionado por Lica, é a mais importante regra do jogo. Camila Paiva, estudante de Psicologia Educacional Inclusiva e também praticante da modalidade pelo time Strix — equipe que treina na Universidade de Brasília —, explica que a regra diz respeito a “quando os jogadores são inteiramente responsáveis pelo que acontece no jogo e suas procedências”, incentivando-os a serem honestos, imparciais e objetivos.

A aplicação dessa regra se dá a partir da explicação sucinta do seu ponto de vista, dando ao adversário uma oportunidade de argumentar em busca de uma resolução rápida para os lances. Assim, ao final de cada jogo, as equipes dão pontos para o Espírito de Jogo do adversário em cinco categorias: regra e aplicação, falta e contato físico, atitude positiva, imparcialidade e comunicação. Lica explica que “essa pontuação é somada a todos os outros pontos recebidos pelos outros times e, ao final de um torneio, a premiação mais importante é justamente a do Espírito de Jogo”.

Lica Assis no Panamericano 2017 pela equipe Elektra Ultimate Team em Cañuelas, Argentina. Foto: Nkolakovic

Camila acredita que tudo isso incentiva o respeito, o diálogo, a compreensão, a empatia, paciência e a cautela, além de gerar senso de responsabilidade e autonomia. “Basicamente o que considero necessário para convivermos bem e em harmonia com um meio. É uma cultura esportiva saudável, irresistível e viciante. São lições e valores para levarmos para fora da vida esportiva”. Lica também tem o mesmo entendimento. “Essas atitudes não ficam só em campo, aos poucos nos vemos praticando o Ultimate no trabalho, na família, com seu/sua parceira, na vida”, reforça.

Nesse sentido, para a profissional de Educação Física Amanda Gomes, a implementação da modalidade nas escolas é essencial para a formação de caráter das crianças e adolescentes. “É preciso que os alunos entendam que um jogo não se resume a sair vitorioso, ainda mais se essa vitória for a todo custo”.

Porém, ela acredita que isso seja difícil de ser aplicado, já que há diversos exemplos de atitudes fraudulentas pouco questionadas, principalmente no futebol. “Há influência do ‘jeitinho brasileiro’ de se tirar vantagem das coisas também no esporte. Assim, o jogo é construído em cima de falhas e injustiças, sem falar de quando o árbitro é persuadido pelos jogadores”, diz Amanda.

O que a profissional de Educação Física descreve já se tornou tão comum no mundo da bola a ponto de causar espanto quando uma atitude de ‘fair play’ (jogo limpo) é adotada. Foi o que aconteceu com Rodrigo Caio, zagueiro do São Paulo. Em um jogo contra o Corinthians em abril do ano passado, na semifinal do Campeonato Paulista, o jogador alertou o juiz de ter dado um cartão amarelo para o atacante Jô, do time adversário, de maneira injusta.

O juiz havia dado a advertência após entender que Jô tinha pisado intencionalmente no goleiro são-paulino Renan Ribeiro e foi avisado por Rodrigo Caio que ele é quem havia feito, involuntariamente, a ação. Apesar de ter exercido uma atitude de caráter ético, na época o então técnico Rogério Ceni não mostrou apoio ao jogador e Maicon, seu companheiro de time e também zagueiro, afirmou em entrevista coletiva que “se foi certo ou não, é da consciência de cada um, mas eu prefiro a mãe do meu adversário chorando em casa do que a minha”. Outros ex-jogadores como Paulo Nunes e Edmundo elogiaram a atitude, mas confessaram que não fariam.

Diante disso, Camila Paiva afirma que, para ela, praticar o Ultimate Frisbee significa ter coragem. “Coragem para ser honesto em um país e em um mundo onde os honestos no esporte — e em outros ambientes também — são apedrejados pelo próprio time; coragem para assumir seus erros e reconhecer seus acertos; coragem para questionar meu adversário de sua decisão quando não concordo; coragem para mudar minha posição quando vejo que meu adversário está correto”, define Camila.

Corvos-Ninjas no campeonato Toronto Ultimate Club 2017. Foto: Arquivo pessoal de Camila Paiva.

Para que a ética esportiva seja aplicada, Amanda acrescenta que é necessário não colocar colaboração e competitividade como atitudes opostas. Enquanto o primeiro remete a uma relação baseada na união, colaboração e empatia, o segundo se relaciona à disputa, ao individualismo e, muitas vezes, à vitória a qualquer custo. “Quando diferenciamos dessa forma, passamos a não enxergar que competição e cooperação podem e devem caminhar lado a lado”, afirma.

A jogadora Lica Assis concorda. “Durante um jogo do Panamericano, Alex Snyder, jogadora e capitã na época, do time feminino Fury (EUA), me deu uma dica enquanto ela fazia uma jogada e eu a marcava. Ela me disse que se eu a marcasse de ‘tal maneira’, iria ser mais efetivo para meu time. Ou seja, ela colaborou com o time adversário mesmo que isso significasse ficar mais difícil para o time dela. Essa atitude foi colaborativa e até deixou o jogo mais competitivo, menos fácil para eles, assim, mais intenso e divertido”. Ela lembra que essa atitude rendeu uma alta pontuação da jogadora no quesito do Espírito de Jogo.

Ultimate Frisbee: um esporte ainda pouco conhecido

O Ultimate Frisbee surgiu por volta de 1940, quando alguns universitários brincavam de arremessar pratos de tortas em uma loja chamada Frisbie’s. Na época, isso virou hábito entre os jovens e logo foram fabricados os primeiros discos de plástico, pesando 175 gramas, medida que permanece até hoje. O jogo desportivo e coletivo combina a rapidez do futebol americano com a finta e a marcação do basquete, além das características do esporte praiano: o Frisbee.

O objetivo do jogo é chegar com o disco nas áreas de finalização, que ficam localizadas nas extremidades do campo, e fazer o maior número de gols possíveis. Um ponto é marcado quando um jogador na zona final pega o disco. No gramado, a partida dura 1h40m com 10 minutos de intervalo. 

No Ultimate, o jogador não deve se movimentar nem ficar com o disco por mais de 10 segundos, passando-o de jogador para jogador. Se o passe não funcionar ou for interceptado, o time adversário toma posse do disco no mesmo local. O restante do time poderá se mover pelo campo tentando encontrar um local aberto para receber o passe. Se o disco cair no chão, o time adversário assume o ataque. 

A maneira de começar a partida é muito parecida com a de um jogo de futebol americano: o time oposto fica na zona final e joga o disco para qualquer jogador adversário pegar. Todos os jogadores do time sem o disco devem correr na direção da outra equipe para começar a defesa. A regra do início também vale para a marcação de pontos. Contato físico e jogadas provocativas não são permitidas.

O gramado oficial consiste em um retângulo com 100 metros de comprimento e 37 metros de largura. Oito objetos flexíveis e coloridos, como cones de plástico, marcam os cantos das áreas de gol.

Intenso, rápido e estratégico, o Ultimate possui diversas modalidades. Pode ser jogado em gramados (7×7), areia (5×5) ou em locais fechados, como quadras (4×4) nas categorias mixed (homens e mulheres), feminino e open (livre de gêneros, onde os mais resistentes jogam, geralmente homens). O Ultimate se destaca pelo equilíbrio de gêneros em uma partida, sendo uma das características principais do esporte junto com a falta de árbitro. Existem diversos tipos de torneios, expandidos entre clubes nacionais ou entre países.

Lica Assis em campo. Foto: Ultiphotos.

Apesar do esporte estar se popularizando cada vez mais pelo Brasil em seus 30 anos de prática no país, especialmente em escolas, universidades, colônias de férias, programas voluntários etc., Camila Paiva destaca que ainda falta espaço para a prática do Ultimate. “Existe uma Federação em São Paulo que participa na organização de alguns campeonatos no estado, mas mesmo assim é pouco, visto que não existem times apenas em São Paulo. Porém, independente da pouca visibilidade, vejo que estamos nos saindo bem. Sempre vejo as equipes do Brasil unidas para o crescimento do esporte, apoiando a divulgação dos eventos, oficinas, dias de treino das outras e dos trabalhos de professores e técnicos dando aulas e oficinas. E isso faz toda a diferença”, argumenta Camila.

Nas escolas, Amanda Gomes destaca que há dificuldade para a inserção não só do Ultimate, mas de outros esportes que também ofereçam um olhar diferenciado. “Há um desafio muito grande para a implementação de novas práticas dentro das escolas, já que infelizmente a maioria não consegue ter uma boa aceitação de esportes que não sejam aqueles mais comuns, como futebol, vôlei, basquete e handebol”.

Camila reforça que os obstáculos fazem parte de uma estrutura ainda maior, inquestionável dentro do próprio mundo do esporte. “Creio que o maior desafio para a implementação [do Ultimate]está na cultura esportiva que ainda é cultivada sobre os esportes coletivos: competitividade exagerada, necessidade de terceiros para resolver problemas dentro do jogo como a ‘voz da verdade’, falta de honestidade e dificuldade em assumir os próprios erros, desrespeito e violência com jogadores, técnicos, árbitros, equipe de assistência e torcedores”, afirma.

Nesse contexto, Lica Assis, integrante dos times Soulfrisbee (mixed) e Elektra Ultimate Team (feminino), destaca ainda um certo preconceito com o Ultimate, sendo um reflexo da dificuldade de quebrar padrões já enraizados. “Normalmente temos que quase implorar pelos mesmos direitos que o futebol pelos campos disponíveis e, na maioria das vezes, somos passados para trás. Uma vez tentamos alugar um campo de prefeitura municipal, como esses de Clube Escola, para um amistoso. Quando o responsável soube que era para Ultimate Frisbee, ele nos informou que estava com os horários todos lotados. Trocamos a pessoa de contato com o administrador e conseguimos alugar o campo para o fim de semana seguinte porque não avisamos que era para o Ultimate Frisbee”, enfatiza.

Soulfrisbee no campeonato Sudaka 2016, na Argentina. Foto: Arquivo pessoal Lica Assis.

Ela também destaca a falta de incentivos financeiros. “Da mesma maneira que pouco conseguimos espaços, pouco se consegue de patrocínio. Por exemplo, o meu time feminino gastou cerca de R$3.000,00 por jogadora para o último Panamericano em Cañuelas, Argentina. Levamos um time de 18 meninas. São R$54.000,00 dos quais fizemos algumas ações no Instagram e Facebook, mas conseguimos apenas cerca de 10% do valor. A maioria veio de amigos, jogadores e ex-jogadores do Brasil”, pontua. No entanto, ela adverte que a entrada expressiva de grandes incentivos financeiros poderia priorizar a vitória da partida acima do Espírito de Jogo, atingindo o princípio que move o Ultimate.

Por fim, Lica ressalta a facilidade de começar a praticar o esporte, disponível em treinos abertos das equipes. “É necessário apenas um disco e duas pessoas. Para o jogo oficial, um disco e 14 pessoas (7×7) e, para um jogo adaptado, um disco e 4 pessoas (2×2)”. Camila completa. “Além do disco, que não é caro, é preciso também algo para marcar as extremidades do campo (cones, chinelos, algo que não vá voar em caso de vento forte). Quanto às roupas, basta que sejam confortáveis e não limitem movimentos”.

Camila Paiva arremessando o disco. Foto: Arquivo pessoal.

Lica reforça que primeiro passado é difundir o Ultimate dentro das bases educacionais. “Eu acredito que o esporte deveria ter mais espaço em matérias dos cursos de Esporte e Educação Física, bem como ser passado para os alunos durante as aulas da educação básica e fazer parte de campeonatos interclasses escolares, mesmo que na versão indoor (4×4). Uma vez que entrasse com maior espaço nas matérias universitárias, seria legal as atléticas colocarem o esporte nos campeonatos das universidades. Acredito que os maiores desafios se devem ao fato de poucas pessoas conhecerem o esporte. Não há espaço nas grades dos cursos, o que para mim seria o princípio de uma grande mudança que resultaria, ao final dessa cadeia, em um real crescimento do esporte no Brasil”.

Conheça um pouco mais sobre o Ultimate Frisbee:

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