#DeixaElaTorcer e o movimento das mulheres no futebol

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Por Barbara Bastos e Giovana Costa

Com os novos movimentos feministas surgidos nos últimos anos, as mulheres têm conquistado um espaço maior na sociedade. Porém, é notável como ainda precisam lidar com o machismo em inúmeras situações do dia a dia. No futebol por exemplo, as mulheres ainda enfrentam acontecimentos desconfortáveis dentro de estádios, tanto quanto torcedoras quanto como profissionais.

Andrezza (à esquerda) num jogo do Palmeiras. (Fonte: Forza Palestrina)

“Num esporte predominantemente masculino, a voz da mulher é sempre calada”, disse Andrezza Bissordi, torcedora do Palmeiras. Apesar de nunca ter sofrido nenhum tipo de assédio dentro do estádio e se sentir segura dentro desse ambiente, “nos arredores, como bares, já passei por situações constrangedoras, com ‘cantadas’, olhares, passadas de mão”.

Mayara Akie, torcedora do São Paulo, concorda, “a gente sabe que se passar por algum grupo de homens, por exemplo, pelo menos algum comentário nojento vai sair”. Entretanto, ela reconhece que isso “não é apenas no futebol em si, mas na sociedade”.

É o caso das torcedoras do Grêmio que, depois de diversos casos de assédio, criaram um grupo para debater essas questões e por não se sentirem confortáveis com os torcedores. Dessa forma, elas criaram a hashtag #deixaelatorcer, para expor as diversas situações em que mulheres foram assediadas verbal e fisicamente. Posteriormente a tantos episódios como esses surgiu uma campanha de torcedoras gremistas, chamado “Gurias do Grêmio”, inicialmente o grupo foi criado no WhatsApp e no Facebook.

Daniela Flor, uma das criadoras da hashtag e do grupo, nos concedeu uma entrevista para explicar melhor o moviemento. Abaixo você confere na íntegra.

1- Do que se trata o movimento #DeixaElaTorcer?

O #DeixaElaTorcer é um movimento de torcedoras independentes de vários times, com a intenção de levantar o debate do machismo no futebol e promover ações para defender o espaço das mulheres neste meio. Começou como uma hashtag para que as mulheres pudessem contar o que passam como torcedoras, apreciadoras do esporte e, especialmente, quando frequentam os estádios.

A proposta inicial era levantar a conversa para mostrar que estamos em grande número e que, por mais que nem sempre nos sintamos confortáveis para dividir, a maioria de nós já sofreu com assédio, violência verbal ou física, além de outras formas de opressão, por querermos espaço como torcedoras de futebol.

No primeiro momento, já pudemos ver o quão rápido a hashtag se espalhou e quantas mulheres “se escondem” ou não exercem a sua vontade de conhecer, acompanhar e curtir o futebol por causa da opressão e da falta de ambientes confortáveis para falar sobre o assunto. Assim, surgiu também um grupo de Facebook só de mulheres para falar do esporte e, em seguida, pensarmos juntas nas próximas ações do movimento.

2- Quando foi criado?

O #DeixaElaTorcer surgiu com a hashtag, que foi lançada no último dia 16/03.

A ideia surgiu em grupo de Facebook/WhatsApp de torcedoras gremistas, chamado Gurias do Grêmio, criado por mim e por duas amigas na metade do ano passado. O assunto do machismo nos estádios – e no futebol em geral – era comum entre nós, já que o grupo surgiu exatamente porque não nos sentíamos confortáveis pra interagir em grupos mais abertos de torcedores em razão de comentários desagradáveis, assédio e descrédito das nossas opiniões.

O estopim foi o GreNal do dia 11/03, logo depois do Dia da Mulher, no qual diversos episódios de machismo saíram na imprensa do RS ou foram comentados nas redes, como o caso da Renata de Medeiros, repórter da Rádio Gaúcha e o da Kelly Matos. A gente falou muito sobre o que ocorreu e achou que era hora de mostrar que essas não foram situações isoladas. Assim, a hashtag foi a opção mais imediata para demonstrar nossa indignação.

3- Quem são as fundadoras e qual a sua atuação?

Como falei, o #DeixaElaTorcer surgiu de uma indignação mútua no grupo das Gurias do Grêmio, que foi criado por mim, pela Carolina Goyer e pela Giovana Roza, então, difícil dizer quem fundou. Dá pra se dizer que foi esse grupo de torcedoras gremistas.

Já que queríamos que o movimento superasse qualquer rivalidade entre clubes, chamamos também algumas amigas coloradas, como a Anahís Vargas e Julia Lima, para nos ajudarem a lançar a ideia nas redes e o movimento.

4- Qual o objetivo do grupo?

O objetivo é denunciar o machismo no futebol e nos estádios e exigir respeito e espaço para as mulheres neste meio. Nossa intenção é que possamos, no futuro, torcer de igual para a igual com qualquer homem que frequenta esses ambientes. Além disso, queremos que mais mulheres e meninas se descubram torcedoras ou se expressem como tais e se sintam seguras e à vontade para irem aos jogos, torcer e falar do esporte entre amigos ou nas redes.

5- Vocês já sentiram alguma mudança?

Sentimos que o diálogo sobre isso aumentou, pelo menos, e que fiz homens pensarem sobre o machismo no futebol. Me parece que muitos não tinham nem se dado conta até então que era um problema, exatamente porque as mulheres acabam “se escondendo” por ser um ambiente tão masculino.

Fora isso, sentimos que várias gurias que não falavam de futebol começaram a se abrir. Um dos tuítes que mais me emocionou foi logo no primeiro dia que espalhamos a hashtag, quando uma moça que viu a campanha escreveu que sempre quis ver o time dela jogar, mas cresceu escutando que era perigoso e não era lugar de mulher. Aí ela falou “acho que esse ano eu vou. Se todas essas meninas foram e vão, tá na hora de eu perder o medo e ir”. É isso que a gente quer.

6- Você já sofreu preconceito por ser mulher e gostar de futebol?

Já, acho que as gurias que dizem não ter sofrido talvez não tenham percebido ainda o preconceito velado em várias situações. Na minha família, exceto o meu avô, os homens não são nada ligados a futebol. Quem me levou pro meu primeiro jogo do Grêmio e quem vai comigo sempre ao estádio até hoje é minha tia, muitas vezes com as amigas delas. Então, pra mim, futebol sempre foi coisa de mulher.

Ainda assim, nas pequenas coisas, eu notei desde criança a estranheza por parte de outras pessoas. Na escola, me faziam um milhão de perguntas pra ver se eu entendia mesmo de futebol sempre que eu comentava algo nas rodinhas de meninos. Na vida adulta, ainda é assim. Raramente me incluem em discussões sobre futebol, a não ser que eu faça questão de dar a minha opinião sem ser chamada. E aí, muitas vezes minha opinião é desacreditada.

Foi inclusive por causa de situações assim que acabei criando um grupo de gurias gremistas no Facebook com as minhas amigas. Eu sempre lia um grupo de torcedores aberto, mas na única vez que decidi comentar porque vi uma situação de machismo, fui super atacada, assim como outras mulheres que estavam no post. Na internet, sempre vejo duas situações: ou dizem que a gente não sabe o que está falando por sermos mulheres, ou a gente é assediada, mandam mensagem privada no Facebook, adicionam, etc. Raramente a discussão se limita ao futebol.

7- Como é a convivência dentro dos estádios?

Já foi pior, mas não é a ideal. É comum assobio e comentários por parte de homens. Hoje, vejo muito mais mulheres nos estádios brasileiros do que via quando era criança e isso ajuda a gente se sentir segura. Eu evitava ir de shorts, por exemplo, mesmo no calor, porque o estádio é ainda mais hostil do que outros ambientes nos quais a gente já passa por isso, exatamente por ter mais homens que mulheres. Parece que é visto como um lugar para “extravasar”, o que eu concordo, desde que se mantenha o respeito.

8- Dentro desses ambientes, alguma vez você se sentiu ou foi impedida de fazer alguma coisa por ser mulher?

Nunca fui impedida de nada, mas já me senti desconfortável incontáveis vezes. Na internet, principalmente. No estádio, algo que acontece com frequência é de homens que estão sentados no meu lugar não acreditarem que estão errados quando peço para saírem. Às vezes, foi engano mesmo, mas tentam me contestar quando falo que aquela cadeira é minha, como se eu não frequentasse ou não entendesse. Já vi acontecer com homens e a a reação nunca é essa. Eu frequento estádio desde criança e, desde a inauguração da Arena do Grêmio, sento com a minha tia no mesmo lugar, nas cadeiras que são nossas.

Fora quando digo que sou gremista e perguntam se meu pai é também, se ele me levava no jogo quando era mais nova. Faço questão de dizer que ele vê futebol por minha causa e não o contrário. E que quem me apresentou a esse meio foi uma mulher.

Faixa exibida por torcedoras.

Não são somente as torcedoras que passam por situações desse tipo. Bruna Dealtry, repórter do “Esporte Interativo”, foi assediada durante uma transmissão ao vivo no estádio do Vasco, no Rio de Janeiro. Enquanto ela falava sobre a partida entre Vasco e a Universidade de Chile, um torcedor beijou sua boca sem consentimento. Após o beijo, assustada a jornalista diz: “Isso não foi legal, não precisava, mas aconteceu e vamos seguir”, claramente desconfortável com a situação. Ela também publicou um texto nas redes sociais falando sobre o ocorrido e contando um pouco sobre sua trajetória como repórter, enquanto mulher. “Com certeza o rapaz não sabe o quanto eu ralei para estar ali. O quanto eu estudei e me esforcei para ter o prazer de poder contar histórias incríveis e estar em frente às câmeras mostrando tudo ao vivo. (…) pelo simples fato de ser uma mulher no meio de uma torcida, nada disso teve valor para ele. Se achou no direito de fazer o que fez. Hoje, me sinto ainda mais triste pelo que aconteceu comigo e pelo que acontece diariamente com muitas mulheres, mas sigo em frente como fiz ao vivo”.

O movimento “Deixa Ela Trabalhar” surgiu com a finalidade de discutir os episódios de assédio vividos pelas mulheres no jornalismo esportivo. A ideia surgiu com Bruna e reuniu 50 profissionais mulheres num vídeo lançado nas redes sociais, dentre elas estão Carol Barcellos, Cris Dias, Aline Nastari e Fernanda Gentil. As jornalistas falam sobre as agressões que vivenciaram durantes diversas coberturas jornalísticas das partidas. Além disso, no vídeo são mostrados xingamentos e discursos de ódio contra as profissionais que trabalham nos esportes. Alguns clubes e canais esportivos como Corinthians, Fluminense, Palmeiras, Cruzeiro, Flamengo, São Paulo, Internacional, Atlético-MG, Bahia, Botafogo e Chapecoense se manifestaram nas redes sociais em apoio à iniciativa.

Torcedoras do Corinthians na arquibancada. (Fonte: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians)

O que se espera é que o esporte deixe de ser um ambiente predominantemente masculino e possibilite um maior espaço para as mulheres. Seja na torcida, no campo ou durante a cobertura. É essencial que as mulheres possam torcer, participar e trabalhar, enquanto o campo seja um espaço de igualdade e respeito mútuo.

 

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