A relação de Putin com a Copa

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Por Adriana Vieira, Elaine Bertoni e Maria Victória Gonzalez

Os preparos para o maior evento futebolístico do mundo vão além de infraestrutura, como os metrôs, estádios extraordinários, passeios oferecidos aos visitantes estrangeiros etc. Principalmente ao tratar da Rússia como o país que receberá a Copa do Mundo, alguns outros fatores devem ser analisados sobre a preparação para o evento. A extensão continental, fusos horários, diferenças geográficas, climáticas, culturais e políticas, situações de guerra e o terrorismo que também assusta. Em 2015, a Rússia se tornou o país com maior influência na guerra da Síria, pois o presidente Vladimir Putin interveio sobre os conflitos e fez com que tomassem os territórios das mãos de rebeldes. O historiador da USP com formação pela UFF e pelo Instituto Pushkin de Moscou, Angelo Segrillo, diz que “no geral, acredito que ele vai continuar suas políticas, principalmente na Síria, porque é vista como um grande sucesso, para ele. ” Em relação a Copa, os russos estão bem otimistas‘’ é um grande evento e estamos muito orgulhosos de poder receber a Copa de 2018 em nosso país. Especialmente, a gente que mora em cidades de Copa além de Moscou e São Petersburgo. É muito bom para nossa economia’’, afirmou a guia de turismo russa, Ekaterina Semenova.

Contagem regressiva para o evento em Moscou

Putin teve uma vitória esmagadora sob seus oponentes: foi reeleito com 74% dos votos e assegurou o seu favoritismo. Em meio a queda da União Soviética, ele dirigiu, em seus dois primeiros mandatos, uma economia devastada. Por esse motivo, em meio à exaustão do povo, conseguiu um aumento significativo no nível de vida. A taxa de pobreza caiu 29% em 2000 e 10,7% em 2012, segundo informações da agência de estatística russa em Rosstat. Em 2016, ela subiu para 13,5% e mesmo assim manteve uma taxa favorável. Em entrevista, Semenova diz que o atual presidente “é um dos maiores estadistas da história , sabe governar, sabe falar e tomar as decisões certas para o bem do seu povo.” E ainda, mantendo sua visão otimista sobre a situação do país, comenta que ‘’um grande país sempre vai ter problemas, é inevitável, mas a força e prestígio não se concentram nos problemas – se concentram na capacidade das autoridades de prever e resolver esses problemas a tempo. Nós já tivemos a Copa das Confederações em 2017, um ensaio geral da Copa, e deu tudo certo!”, comemora.

Líder russo Vladimir Putin

Com as ameaças de ataques terroristas do grupo Estado Islâmico, o líder russo declarou que, caso o ISIS cometa qualquer ataque terrorista na Rússia, a Arábia Saudita, que é uma das principais fontes de renda do grupo criminoso e fornece parte do dinheiro responsável por manter o grupo terrorista, será destruída em meia hora. As primeiras ameaças do Estado Islâmico foram contra os jogadores Neymar Júnior e Lionel Messi, que tiveram suas fotos compartilhadas pelo grupo nas redes sociais, seguidas da mensagem “Vocês não terão segurança enquanto os países muçulmanos não estiverem em paz”.

Estado Islâmico ameaça jogadores

Desde o final de 2017, as medidas de segurança foram reforçadas e é nítida a aceitação da população. Como por exemplo as instalações no metrô de Moscou de entradas de segurança em todas as estações, além das bolsas e mochilas que também serão revistadas. Já em São Petersburgo, a polícia passou a ter cães farejadores para ajudar no serviço de rastreamento de possíveis objetos perigosos. A Copa é o evento esportivo mais importante do mundo, junto aos Jogos Olímpicos, e o objetivo central é aumentar a cautela.

Catedral de São Basílio em Moscou, uma das cidades-sede da Copa

Com visuais e estruturas deslumbrantes, os estádios, sem dúvida, estão preparados para receber um evento deste porte. Entretanto, um empresário responsável pelas obras revelou, em uma reportagem para O Estado de S. Paulo, que o governo não tem feito os pagamentos combinados e ele mesmo tem bancado a construção. Com apenas três meses para a Copa do Mundo, a Rússia conta atualmente com apenas cinco estádios prontos e os outros sete continuam em obras, com previsão de entrega de 2 meses.

Estádio Lujniki na capital russa

O evento será o mais caro da história da Copa. Para alguns, não existe espaço na imprensa nem entre os ativistas para investigar a causa dos altos gastos, apesar da metade do dinheiro ter vindo dos cofres públicos. Um guia feito pelos russos para a Copa das Confederações de 2017, que serviu de teste para a Copa do Mundo, mostrou que caso os jornalistas quisessem fazer uma reportagem em outro lugar fora da zona das cidades-sedes, teriam de solicitar uma autorização especial. O vice-presidente ministro russo da época, Vitaly Mutko, garantiu que a imprensa poderia cobrir “tudo o que ela quiser, sem problemas”. Entretanto, apontou que as regras para o credenciamento de jornalistas estrangeiros existem desde 1994.

O país, que se mostrou conservador no governo atual, cedeu em alguns pontos importantes. Mesmo a homossexualidade não sendo considerada crime na Rússia, a postura rígida em relação ao grupo LGBT fez com que as entidades dos direitos humanos se manifestassem ao temerem a proibição à diversidade. Durante o evento, a Rússia não deverá proibir manifestações nas ruas ou nos estádios contra certas posturas retrógradas, “não haverá nenhum tipo de banimento para quem usar símbolos com as cores do arco-íris na Rússia. Está claro que qualquer um poderá vir aqui e não ser multado por expressar os seus sentimentos”, afirmou Alexei Sorokin, CEO do Comitê Organizador Local.

Ativistas LGBT em manifestação na cidade de São Petesburgo

O professor de Antropologia da PUC SP, José Florenzano, analisa que “ao abrigar a Copa, Putin almeja, ao mesmo tempo, reforçar internamente o suposto consenso em torno do seu poder centralizador e no plano internacional, reafirmar o prestígio da Rússia como potência econômica, política e militar. Em relação aos grupos plurais que irão visitar o país e temem devido ao conservadorismo de algumas políticas russas, Florenzano conclui que ‘’as ações de caráter repressivo contras as minorias dissidentes não entram em linha de choque com os padrões estabelecidos pela FIFA, ao contrário, pode-se dizer que existe uma perfeita harmonia entre os dois. Tanto o regime político quanto a entidade privada convergem no interesse comum de assegurar a ordem normativa dentro da qual deve se desenrolar o evento esportivo”.

 

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