A politica internacional e a paixão pelo futebol

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Por Clara Marques, Giulia Villa Real e Victoria Bassi

Não são apenas os brasileiros que irão às urnas neste ano. Venezuela, Paraguai, Colômbia, México e outros países da América Latina também estão na lista daqueles que passarão por momentos únicos e de decisão. Folheando jornais ou até visitando sites de notícias é possível observar informações que agregam a esses momentos influência significativa da Copa do Mundo, já que esse grande evento promete balançar a política dos vários países classificados em 2018.

Desde eleições até ataques, é evidente que a Copa influencia significativamente a política internacional. Isso deve-se, em grande parte, à importância da conquista frente aos países, já que a busca pelo reconhecimento internacional é uma verdadeira utopia, e desperta aquela velha sensação de nacionalismo, muitas vezes perigosa. O fato é que o clima já contagia a todos: esquemas, táticas de jogo e diversas apostas já são realidade nos 32 países classificados para a competição. Entretanto, um detalhe importante é que realidades econômicas, políticas, sociais e culturais extremamente distintas entrarão em contato. Lourival Sant’Anna, repórter e analista internacional, e José Paulo Florenzano, antropólogo e professor de jornalismo na PUC-SP, ajudam a esclarecer essa difícil e complexa relação entre a política internacional e a Copa do Mundo.

As eleições e o futebol

Teoricamente, a Copa do Mundo não teria nada a ver com processos eleitorais. Mas como já dito anteriormente, a política e o esporte, principalmente o futebol, paixão antiga do brasileiro, estarão historicamente e factualmente ligados. 

Em tempos turbulentos e polarizados como atualmente, em que as eleições nem começaram, mas que pré-candidatos já correm, afobados, para comandar um país marcado por uma democracia frágil e população fadigada por processos como a Operação Lava Jato e suas consequências, a Copa surge como pivô para acirrar ainda mais essa situação.

Na história, observamos diversos momentos em que o show futebolístico influenciou no apaziguamento de movimentos políticos. Na seleção de 70, a do rei Pelé, é incontestável com as vitórias e seu brilho, ofuscaram momentos sombrios do golpe militar, no auge de sua tortura e o AI-5.

Pelé comemora vitória com Jairzinho, na Copa de 70/Reprodução: Internet

Fora do Brasil, muitas vezes esses jogos são usados como vitrines, aproveitando-se dos olhares mundiais para os eventos, como por exemplo em 1934, quando o ditador italiano Benito Mussolini usou da Copa do Mundo na Itália para propagar os ideais fascistas.

Fato é que, sendo utilizado como vitrine ou apenas como uma distração muito bem-sucedida, os campos de futebol são centros não apenas de craques que emocionam, como também palcos de eventos políticos, com a vantagem de estarem sendo televisionados mundialmente.

De um modo geral, para o Estado-nação, os eventos esportivos têm uma dupla função, a saber: de um lado, reforçar a coesão interna ao redor do regime político; e, de outro lado, projetar a vontade de poder do país sede no plano internacional”, conclui Florenzano sobre as possíveis vantagens tiradas por países ligados a eventos esportivos.

Para Lourival Sant’Anna, um eventual bom desempenho da seleção brasileira, traria mais vantagens, no quesito boa reputação, para o atual governo de Temer, do que para as eleições em si. “Historicamente no Brasil, existe uma ligação entre bons desempenhos na Copa do Mundo e apoio ao governo”, disse o repórter que relembra que essa questão são apenas questões hipotéticas.

Seleção brasileira de 2018/Reprodução: Getty Images

Sant’Anna ainda comenta sobre o conceito inglês chamado “feel good factor”, em português algo como “fator de sentir-se bem”, que diz respeito a um sentimento de que tudo está correndo bem. Uma economia crescendo, sua escola de samba favorita venceu o Carnaval ou mesmo a seleção brasileira vencendo uma Copa do Mundo, fazem a população associar essas pequenas alegrias com o governo e assim vê-lo com “mais bons olhos”.

Para ambos, tanto Florenzano quanto Sant’Anna, uma possível vitória ou bom desempenho da seleção brasileira, não influencia diretamente nas eleições, mas sim num nível mais subjetivo do brasileiro apreciador dos eventos futebolísticos e também eleitor nas próximas eleições em 2018. Esse fenômeno se aplicaria também aos países da América Latina no geral, ao passo que em sua maioria, assim como o Brasil, vivem momentos truculentos politicamente e também passam por eleições em futuro próximo.

Como um lembrete, segundo o Florenzano “A rigor, nem mesmo as democracias escapam à equação política-esportiva”, deixando claro, como reforçado em toda a matéria, que a política estará sempre ligada aos eventos esportivos, principalmente com campeonatos internacionais como a Copa do Mundo e as Olímpiadas, e em países como os latinos, em que o futebol é uma paixão nacional incontestavelmente.

Crise política peruana X Classificação na Copa do Mundo 2018

Esse é um ano histórico para o Peru pois desde 1982 o país não se classifica para a Copa do Mundo. Mas a questão a ser discutida é o fato de que, como o Brasil, o país passa por decisões políticas que influenciam diretamente na sociedade peruana.

Seleção peruana da Copa do Mundo de 1982/Reprodução: Internet.

No dia 21 de março, o presidente peruano Pedro Pablo Kuczynski denunciado.  Em dezembro, em uma das fases da Lava Jato, foi acusado de recebimento de quase U$5 milhões pela empresa brasileira Odebrecht e, pouco tempo depois, foi vazado um vídeo dele falando sobre o pagamento de verbas para obras de alguns deputados. Ele renunciou à presidência antes que uma votação no Parlamento do país decidisse pelo o impeachment.

Presidente Pedro Pablo Kuczynski/Reprodução: Internet.

De acordo com Sant’Anna, essa crise política que traz instabilidade e incerteza para população, estar na Copa do Mundo é um motivo de alegria e compensação numa situação de tristeza.

Boicote islandês

Em março deste ano, a Islândia anunciou que não vai enviar autoridades para representar o país na Copa do Mundo, mas essa medida não atinge a seleção que irá disputar o campeonato pela primeira vez.

Seleção islandesa para a Copa do Mundo de 2018/Reprodução: Internet.

Essa medida foi tomada após o ex-espião russo Sergei Skripal e sua filha serem envenenados em uma cidade da no sul da Inglaterra. Skripal foi acusado de trair dezenas de espiões russos a favor da inteligência britânica. Após o caso, o Reino Unido decidiu expulsar 23 diplomatas russos e não enviar autoridades ao país para acompanhar a Copa do Mundo. Portanto, nem integrantes da família real irão assistir aos jogos do Mundial.

De acordo com Florenzano, não é a primeira vez que acontece um tipo de boicote como esse. Em 1973, nas eliminatórias para a Copa do Mundo da Alemanha, a então União Soviética se recusou a disputar a partida contra o Chile, em Santiago, porque o Estádio Nacional havia sido transformado em centro de prisão e tortura de todos os que se opunham ao golpe militar instalado no país.

Nacionalismo e ataques pós Copa do Mundo

Um acontecimento que reúne diversos continentes consequentemente traz a rivalidade socioeconômica ao campo e os resultados chegam até a espelhar o comportamento político. O cientista político Andrew Bertoli, dos Estados Unidos, foi quem trouxe essa discussão à tona após analisar o comportamento de 142 países que participaram de eliminatórias da Copa do Mundo entre 1958 e 2010. Ele concluiu que os países que se classificavam para a Copa tornavam-se mais agressivos nas relações exteriores, com ameaças ou ações contra outros países. Inclusive, o estudo ainda definiu que esse comportamento agressivo durava desde a classificação até dois anos após as disputas.

Seleção do Senegal comemorando a classificação para as quartas de final na Copa do Mundo de 2002/ Reprodução: Internet.

Em 2001 Senegal surpreendeu o mundo ao se classificar para Copa e ainda chegar às quartas de final, vencendo grandes potências como a França, sua antiga metrópole. As vitórias e o bom desempenho da seleção no Mundial, trouxeram euforia e muita animação para a população. Segundo o estudo, duas semanas após sua última partida no Mundial, o país iniciou uma disputa militar com Gâmbia, acusando o país de dar apoio a separatistas senegaleses.

Seleção representando o Senegal na Copa do Mundo de 2002/Reprodução: Internet

Diante a esse cenário, Florenzano em análise ao estudo, acrescenta que a história registra diversos confrontos armados entre países envolvidos com a disputa para a Copa do Mundo. Segundo ele, “o caso mais célebre, sem dúvida, diz respeito à chamada ‘Guerra do Futebol’, envolvendo Honduras e El Salvador. As partidas eliminatórias para a Copa do México, disputadas em 1969, precipitaram no campo militar a tensão latente acumulada ao longo dos anos sessenta entre os vizinhos centro-americanos.”

Jornal de 1969, fala sobre a “Guerra Futebolística” entre El Salvador e Honduras

Vale ressaltar que, em uma aprofundada reflexão, pode-se analisar que esse comportamento está muito interligado com o nacionalismo. A tomada de decisão internacional vai além do fato da Copa em si, abordando questões essenciais para uma nação, como a interdependência em relação a outros países. Nesse contexto, Bertoli considera que o nacionalismo causado pela classificação de Senegal foi fator importante pela origem do conflito com Gâmbia.

 

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