Bicicletas e a emancipação feminina no século XIX

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Por: Giulia Bechara e Isabel Rabelo

Durante grande parte da história, a mulher era designada a casar cedo, ter filhos e cuidar da casa e do marido. Tudo isso era feito usando roupas sufocantes, como espartilhos, o que restringia, de certa forma, a locomoção. Sempre vistas como figuras frágeis, foi no final do século XIX e começo do XX que as mulheres começaram a sair mais de casa e ter, lentamente, o direito de ir e vir. Esse direito foi viabilizado pelo uso das bicicletas, uma vez que não precisavam de seus maridos para levá-las a lugar nenhum.

Apesar da forte oposição masculina, a avidez das mulheres fez com que lutassem cada dia mais por sua mobilidade cívica, conferindo-lhes um meio de encontrar a liberdade e ampliar seus horizontes. Naquela época, muito se dizia sobre o mal de se pedalar e como poderia causar esterilidade feminina ou, até mesmo que era indecente, porque traria prazer pela “fricção nas partes íntimas”. Afirmações estas feitas em forma de recusa em aceitar que as mulheres estavam conquistando sua autonomia.

Colete Spencer (à direita) e calça Bloomer (à esquerda). Fonte: Portal Pop

“Andar de bicicleta fez mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo”, dizia a feminista americana Susan Anthony, no final do século XIX. Para as americanas e as francesas, pioneiras no uso da bicicleta, esse foi o momento de liberdade pessoal durante a Primeira Onda Feminista, momento em que a luta sobre os direitos a votação e assinatura de contratos estava em vigor. A imagem das bicicletas ficou ligada ao New Woman no Estados Unidos, conceito que relacionava mulheres a papéis que contestavam as tradições e se envolviam ao ativismo.

Senhoras de bicicleta em 1900 – HULTON ARCHIVE / GETTY IMAGES

As mulheres eram vistas pedalando livremente pela cidade, causando afronta a muitos tradicionalistas e conservadores. As roupas asfixiantes foram deixadas de lado e as calças compridas e folgadas foram descobertas. Criada por Amelia Bloomer, as bloomers eram um estilo de calça estreita nos tornozelos e usadas por baixo das saias, então encurtadas. Foi aí que esse movimento, chamado de “vestido racional”, idealizado pela própria Amelia, teve seu auge na Primeira Onda Feminista e ganhou espaço novamente. Graças a expansão das bicicletas, as mulheres mudaram seu vestuário, a fim de se sentirem mais confortáveis e livres para pedalar e vestidos tradicionais foram finalmente substituídos por calças e saias largas. 

 

Movimento do “vestido racional” e a troca de vestuário. Fonte: historiadeltraje/Reprodução

Amelia Bloomer, idealizadora do movimento “vestido racional” – Fonte: anitabemcriada/Reprodução

Algumas outras figuras foram importantes durante esse movimento libertário feminino. Annie Kopchovsky, um jovem imigrante judia, decidiu que iria ser a primeira mulher a dar a volta ao mundo de bicicletas. Quase um ano e meio depois, voltou para os EUA e sua viagem foi nomeada por vários veículos como “A jornada extraordinária”. Kittie Knox foi uma ciclista conhecida em 1890, em Boston, quando integrou a atual Liga dos Ciclistas Americanos. A entrada de Kittie também colocou em destaque a barragem que se tinha relacionado a cor. Filha de mãe branca e pai negro, a ciclista desafiou as regras e percepções saudosistas não somente acerca do gênero mas também, da raça. Por fim, Maria Ward, que defendia a capacidade das mulheres de cuidar da manutenção de suas bicicletas. Assim, em 1896, publicou um manual de como usar sua bike chamado “Bicycling for Ladies”, um guia completo sobre como escolher a mais adequada e instruções necessárias para mantê-la.

Por mais que os números tenham crescido conforme os anos, no Brasil, eles continuam bem baixos. De acordo com uma pesquisa feita pelo Instituto Ciclocidade, as ciclistas mulheres são apenas 7% do total de ciclistas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Aracaju, Recife e Niterói. Teresa D’apile, uma das fundadoras do grupo Saia na noite, criado em 1992 conta que sempre sentiu a necessidade de abrir um espaço desse direcionado ao público feminino. “Desde o começo, eu e algumas amigas fomos fazendo esse trabalho aos poucos, chamávamos algumas meninas para pedalar. Nem sempre todas iam, foram muitos passeios tímidos, mas hoje, o grupo completa 25 anos”.

Foto: Grupo Saia na Noite/Divulgação


Com tanta agitadas acontecendo, o grupo foi uma fuga da realidade, um recorte de votos para uma vida mais leve. A ciclista ainda conta que o lema do grupo é influenciar, fomos o primeiro grupo de bicicletas feminino do Brasil, seria até curioso se a força destas meninas, mulheres e senhoras não chegassem cotanta influência”.

 

 

Depois de mais de 30 anos pedalando, Teresa ainda sente a liberdade como se fosse a primeira vez. “Todas as terças-feiras, durante o passeio, eu me desligo completamente do que passei a semana inteira, eu colocou minha mente nas ruas, eu estou completamente ali naquele momento”, conta. Hoje o grupo faz atendimentos em várias cidades do Brasil, prestam auxílio, treinamento, passeios em grupo e etc.

 

 

Seria difícil afirmar que a bicicleta acabou com a opressão e deu às mulheres todos os direitos que foram conquistados, mas é justo dizer que, entre tantos desenvolvimentos do povo ocidental, a bicicleta propiciou-lhes controle sobre sua saúde, autonomia e, consequentemente, inspirou-as a reivindicar questões trabalhistas.

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