Uma segunda chance para os refugiados

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Mesmo com as dificuldades encontradas no Brasil, muitos deles conseguem se integrar e trazer novos elementos para a cultura brasileira


Por Gabriela Fogaça e Matias Diego

Atualmente, o mundo vive uma grave crise de refugiados, podendo também ser considerada uma das maiores crises humanitárias de nossos tempos. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o número de refugiados e deslocados mundialmente chegou a 65,6 milhões em 2016 – número divulgado pelo relatório da organização, Tendências Globais. As principais motivações para o refúgio são a violação dos direitos humanos, guerras, conflitos armados, e perseguições políticas e religiosas.

A Europa, a África e o Oriente Médio são as regiões que mais concentram refugiados, solicitantes de refúgio, deslocados internos, retornados, apátridas, entre outros, no mundo. Ainda assim, o número de pessoas que buscam reconstruir suas vidas na América Latina está crescendo – 8.052.806, de acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O Brasil chama atenção nesse cenário, pois nos últimos anos, o número de pessoas acolhidas em solo brasileiro vem aumentando. Até o final de 2016, o número de refugiados reconhecidos no Brasil era de 9.552 de 82 nacionalidades.

Para se ter uma ideia da situação brasileira, segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), que é o órgão brasileiro que avalia os pedidos de refúgio, atualmente há cerca de 86 mil pessoas que solicitaram esse status no Brasil. Só em 2017 foram 33.866 pedidos, a maioria deles por parte de venezuelanos, seguidos por cubanos e haitianos.

Porém, com apenas 14 funcionários, o Conare não tem capacidade de atender muitas demandas e o tempo de espera médio para uma resposta positiva ou negativa pode chegar a até dois anos.

Mesmo com esse longo tempo de espera, ao entrar com um pedido de refúgio, os solicitantes adquirem direitos básicos como educação e saúde, além de receber uma carteira de trabalho para poder exercer alguma atividade econômica.


Apesar de tudo, os refugiados são sobreviventes. Longe de casa, milhares deles buscam refazer suas vidas em países, muitas vezes, totalmente diferentes dos seus. Por meio da cultura e de suas diferentes manifestações – seja no esporte, no aprendizado de um novo idioma ou na culinária -, essas pessoas encontram formas de sustento, de integração à sociedade, de apresentar suas experiências e agregar novos pontos de vista para a população. Esse é o caso da cubana Maria Ileana e do congolês Luambo Pitchou.

 

Refugiados no Líbano – Foto: @UNHCR/S. Baldwin

Ambos integraram o Abraço Cultural, uma organização não governamental que ajuda no acolhimento de refugiados em território nacional. Localizado na cidade de São Paulo, o projeto promove cursos de idiomas – espanhol, inglês, francês e árabe – ministrados pelos refugiados, no qual os objetivos são promover a troca de experiências, gerar renda e a valorização pessoal e cultural dos professores.

A cubana Maria Ileana foi uma das professoras de espanhol no Abraço Cultural. Ativista, antropóloga e historiadora, ela deixou seu país e sua família devido a perseguição política que sofria, e veio para o Brasil como convidada para dar uma palestra sobre Direitos Humanos.

O congolês Luambo Pitchou também foi professor no projeto e deu aulas de francês. Formado em Direito, veio para o Brasil em consequência da guerra militar existente no seu país. Hoje, ele tem seu restaurante de comida congolesa, o Congolinária. Localizado em Perdizes, bairro da zona oeste de São Paulo, o local oferece pratos veganos típicos do Congo.

Maria conta que não havia projetado morar fora de Cuba. Dentre os obstáculos que sofreu quando chegou aqui, menciona a perda de identidade que sentiu e a dificuldade para se relacionar com outros refugiados. Além disso, ela relatou a falta de receptividade dos brasileiros e notou que a sociedade brasileira é classicista. No entanto, não voltaria para Cuba, por causa da repressão política presente no país.

Para Pitchou, a primeira impressão que teve quando chegou em São Paulo é que os brasileiros são pessoas fechadas. Assim como Maria, ele falou sobre a discriminação que o refugiado vem sofrendo aqui, “talvez pelo desconhecimento e falta de informação da população brasileira. Quando um refugiado chega aqui, [ele]tem uma bagagem, tem uma cultura, tem uma comida que comia lá, tem uma música, tem tudo”. Ele também citou a ausência de políticas de moradia e de emprego no Brasil.

Na hora de aprender a língua portuguesa, os dois contam que não foi difícil. Pitchou aprendeu o português através da leitura de livros. Para Maria, o gosto pela cultura e música brasileira facilitaram na hora do aprendizado. Alguns dos artistas que estão em seu repertório musical são: Chico Buarque, Elis Regina e Milton Nascimento.

A troca de vivências e culturas proporcionadas por meio de projetos de organizações da sociedade civil ou de políticas públicas desenvolvidas por mecanismos do governo, além dos próprios meios que a população refugiada busca para se sustentar mostra quem os refugiados são, e a capacidade de resiliência que eles possuem para reconstruir suas vidas.

 

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