Uma alternativa musical no combate da depressão

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  Por Nádya Duarte

A depressão afeta 4,4% da população mundial e 5,8% dos brasileiros, segundo dados da OMS de 2017 e o Brasil é o país com maior prevalência de ansiedade no mundo: 9,3%. A psicoterapeuta e psicóloga do Instituto de Cancerologia de São Paulo, Sílvia Ivanko, afirma que “a depressão é um problema de saúde pública, e será o mal do século 21, juntamente com a síndrome do pânico”.

Cientificamente falando, a depressão é causada por um defeito de neurotransmissores. Quando acontece esse problema, a pessoa começa a apresentar sintomas de desânimo, tristeza, autoflagelação, perda do interesse sexual e até falta de energia para atividades simples. No geral em algum momento da vida uma em cada cinco pessoas vivenciará um episódio depressivo e embora trata-se de um distúrbio químico, sempre tem em sua raiz um motivo psicológico

Muitas pessoas ficam em dúvida ao distinguir tristeza de depressão. A tristeza é completamente normal, como em situações de perda de um ente querido ou término de relação. Apesar de ter um intenso desânimo com a vida isso passa, quando ela não passa pode estar ocultando uma depressão.

Embora ainda exista muita pesquisa em volta do tema, todos reconhecem que se trata de uma doença tratável sendo que a parte mais difícil do processo é o reconhecimento da doença tanto do paciente quanto da família. A família muitas vezes tem dificuldade em reconhecer por achar muito doloroso ter algum parente sofrendo e com isso tentam achar outras justificativas para aquela pessoa estar se sentindo assim, e nisso impede o doente de procurar ajuda. Sílvia Ivanko comenta que “é fundamental que se aceita a existência da doença e se assuma a responsabilidade por tratá-la de maneira adequada, mesmo que isso implique mudanças de comportamento por parte de todos os envolvidos”. Além do tratamento com terapias e medicamentos quando necessários, de uns tempos para cá vem surgindo tratamentos alternativos para depressão e outras patologias.

A musicoterapia é um tratamento alternativo que geralmente funciona como um complemento no tratamento da depressão, muitos procuram essa terapia por encaminhamento de médicos, outros por procura pessoal ou convênio. Em entrevista realizada com o musicoterapeuta Thiago Tatsuro Aoki , ele comenta que é extremamente necessário que a pessoa esteja em tratamento tanto com medicamentos quanto com terapia para que ela não se torne dependente dos medicamentos e  a musicoterapia ajuda a enriquecer o tratamento como outro canal de expressão nesse processo.

O paciente é estimulado de forma que consiga trazer elementos que já estão inconscientemente neles e elementos necessários para desabafar e “colocar para fora” como sentimentos que possam estar incomodando como gatilhos das crises de depressão mas esse compartilhamento não acontece de forma verbal e sim por uso de outros mediadores, que no caso são os instrumentos musicais, o corpo, o movimento, para que se encontre um outro caminho de expressão.

Para se iniciar esse tratamento, primeiramente o paciente é recebido preenchendo uma ficha na primeira consulta para configurar o tratamento como a carga horária e a parte mais burocrática. Após esse passo há uma ficha especialmente para musicoterapia para colher o histórico sonoro do paciente, sua relação com o som de um jeito que o paciente encontre a forma de expressão na musicoterapia junto a um profissional que dê esse suporte.

Há a necessidade de encontrar quais sons agradam ou não e isso não é apenas ligando a gêneros musicais. Envolve em descobrir quais sons ligam à memórias antigas, sons que definem a relação com alguma familiar, que ligam a paisagens como de onde esse paciente viveu e foi criado, a dinâmica de onde a pessoa trabalha, se é um ambiente de trabalho com muito barulho, tudo isso influencia. Como essa pessoa é atingida por sons diariamente e qual a relação com as memórias.

 Assim há uma facilidade no processo para ser trabalhada a identidade sonora da pessoa, sabendo quais sonoridades fazem parte de cada um e quais recursos serão utilizados e como vai ser a forma de expressão. Qualquer expressão realizada na sessão tem uma ligação com as memórias e recursos que são inconscientes e não há a necessidade do paciente ter consciência disso, ele só precisa expressar.

 A eficácia do tratamento como qualquer outro tipo depende de cada paciente  pois não há como saber o nível de comprometimento da pessoa com o tratamento, porque o vínculo precisa ser construído entre o terapeuta e o paciente. Há a necessidade do tempo para a relação se desenvolver e também para conseguir ter noção dos resultados e como o paciente está progredindo.

 A musicoterapia consegue atingir tanto pacientes super ativos quanto pessoas que estão em coma, depende muito como essa procura acontece e como o profissional chega nesse acompanhamento. Por ser uma terapia que acontece de forma não verbal, está apta para tratar diferentes tipos de depressão pois acontece de uma forma mais natural por forma desses recursos.

O principal objetivo é fazer com que o paciente desenvolva autonomia, com o suporte do terapeuta quando necessário, que ele consiga se sentir mais disposto e ele mesmo quando quer executar suas ações. Quando ele atinge a iniciativa nesse ambiente de terapeuta e paciente, de fazer coisas, é esperado que essa postura leve à outros espaços.

Quando o paciente se sente capaz de realizar suas ações acontece uma modificação não só nesse ambiente mas em outros lugares do mundo a sua volta também. Ocorre a independência do paciente, de forma que ele consiga a lidar com as situações que aparecem no cotidiano, como uma maneira melhor de reagir a frustrações e de um jeito mais forte de enfrentamento, pode acontecer a diminuição as crises de depressão.  Mas como não é uma doença só psicológica pode acontecer das crises voltarem, por isso é fundamental estar com acompanhamento médico junto à musicoterapia.

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