“Sem conflito é impossível inserir o feminismo nas Igrejas”, diz membro de ONG feminista

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O feminismo tem crescido dentro das religiões, mas enfrenta muita oposição, mesmo entre as mulheres.

Por Letícia Passos

“Maria foi consultada para ser a mãe de Deus”. Esse são os dizeres de um dos quadros espalhados pela sede da ONG Católicas pelo Direito de Decidir. A frase faz referência a uma das questões discutidas pelo feminismo moderno: o direito das mulheres de escolher se querem ou não ter filhos. A CDD é uma organização católica e feminista que apoia diversas causas sociais, inclusive a legalização do aborto e os direitos LGBT.

Tem se tornado cada vez mais comum ver o feminismo adentrar a religião, seja qual for a vertente. No Oriente Médio, por exemplo, muçulmanas protestam por mais direitos e comemoram cada avanço que conseguem, como na Tunísia onde o casamento misto entre um não-muçulmano e um muçulmano agora é permitido não só para os homens, como também para as mulheres. A decisão do governo tunisiano enfrentou oposição dos líderes religiosos, mas manteve-se firme e não revogou o decreto. Essa iniciativa, a primeira do gênero no Oriente Médio dentro do Islã, é só mais uma amostra de que o feminino tem ganhado cada vez mais espaço nos ambientes religiosos, conhecidos pelo patriarcado exacerbado.

No entanto, o movimento feminista ainda encontra muita resistência não só nas figuras masculinas, como nas próprias mulheres. É possível encontrar na internet religiosas que se consideram anti-feministas ou se declaram “pró-mulher”, mas que abominam o feminismo.

Mas o que gera essa reação entre as mulheres religiosas? A doutora em Ciências da Religião e membro da ONG Católicas pelo Direito de Decidir Regina Soares Jukerwicz, 62, explica o que distanciou algumas mulheres do feminismo. “Por muito tempo se trabalhou a ideia de que uma coisa é o movimento de mulheres e outra é o feminismo. Então nas instituições religiosas fica muito bem você ser ‘pró-mulher’ porque elas lutam pelos movimentos populares, mas no momento em que as mulheres demandam direitos individuais, isso se torna um problema para as igrejas”, explica. “Quando as instituições religiosas pararam de apoiar esses grupos, algumas mulheres começaram a se afastar do feminismo por causa dos ponto de conflitos com as igrejas”, continua.  

Outro motivo que pode afastar as mulheres do feminismo é a maneira como ele é mostrado pela mídia. A maioria de nossa entrevistadas afirmaram que grande parte do que sabem sobre o feminismo e suas vertentes através do que a mídia divulga. “A mídia não interfere diretamente na inserção do feminismo nas Igrejas, mas a forma como trata o feminismo é uma maneira deturpada, fala de um grupo de mulheres radicais”, afirma Regina Soares.

Por causa dessa distorção do que é o feminismo, muitas mulheres religiosas preferem se manter longe das lutas feministas. “Acredito que não seja possível você ser evangélica e ser feminista”, diz Ana Paula, 24, estudante de Sistemas de Informação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). “Creio que pelo que o feminismo prega hoje seja impossível uma mulher religiosa conservadora da palavra de Deus apoiar tais práticas”, afirma.

Existe uma crença de que religião e feminismo não pode se misturar porque são controversas e defendem princípios diferentes. Mas para Regina Soares, essas contradições não são tão excludentes quanto pode parecer a princípio. “Se formos na proposta inicial tanto do Cristianismo quanto do feminismo acabamos por encontrar eixos comuns, como o desejo pela igualdade não só entre os gêneros, mas entre as diferenças raciais, as diferentes culturas. Então nesse sentido, dá pra dizer que não há contradição entre os dois”, garante.

Dentro dos coletivos feministas, a ideia de que os dois lados não podem se misturar também não é bem aceita. “Creio que o feminismo deve estar aberto a todas as mulheres: religiosas, ateias ou agnósticas. Só devemos tomar cuidado para que a nossa militância não se torne impositiva, ‘passando por cima’ da crença alheia”, afirma Eva Pacheco, 21, estudante de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e militante feminista.

Mesmo com a crença de que existem contradições insuperáveis entre feminismo e religião, e o péssimo trabalho da mídia em apresentar as ideias feministas, muitas mulheres religiosas acreditam no feminismo, ainda que não apoiem todas as causas defendidas pelo movimento, como é o caso da engenheira Larissa Carneiro, 23. “O ideal feminista deve ser abraçado por todas. As questões das vertentes é que precisam de cuidado, principalmente o extremismo. Questões como a legalização do aborto, por exemplo, eu não concordo”, explica.

A auxiliar de laboratório Sueli Mafalda, 23, é protestante e se considera feminista porque acredita que as mulheres não devem ter sua independência ligada ao homem e que a religião não deve impedi-las de acreditar em outras propostas sociais. “Acho que a mulher deve ser o que lhe convém, independente de sua opção religiosa”, diz.

Qualquer que seja a religião, é possível encontrar organizações feministas dentro de instituições religiosas que defendem os direitos das mulheres e isso não diminui a religiosidade, pelo contrário, as colocam mais perto do que a ideologia de suas religiões pregam, como respeito e amor ao próximo.  

Mesmo que se diga que há muitas semelhanças entre o feminismo e as diversas religiões, os conflitos são inevitáveis, como explica Regina Soares. “Sem conflito é impossível inserir o feminismo nas Igrejas porque partem de lugares diferentes. A teologia feminista por si é conflitiva porque vem fazer uma denúncia. Ela vai mostrar base de pensamentos diferentes”, afirma.

No entanto, esses conflitos podem ser base para renovar a maneira de divulgar o feminismo e inspirar novas formas de mostrar o que ele veio trazer para as mulheres. No Islã, por exemplo, além da militância convencional, é possível encontrar uma rica variedade cultural, como filmes que relatam os absurdos sofridos por mulheres muçulmanas e a luta delas pela liberdade, pelo seu direito de escolha.

O filme “Love Crimes of Kabul (2012)”, dirigido pela documentarista iraniano-americana Tanaz Eshaghian, conta a história de três muçulmanas presas por “crime morais”, como sexo antes do casamento e por fugir de casa. Uma das acusadas, uma jovem de 18 anos, apesar de ter sido examinada para comprovar sua virgindade, foi sentenciada a três anos de prisão por ter sido encontrada sozinha com um homem. O que chama a atenção neste filme é a falta de união entre as mulheres; muitas delas foram acusadas de crimes por terem agido de acordo com suas vontades, mas tentam minimizar suas acusações enquanto apontam o dedo na cara de outra interna, afirmando que se estavam ali é porque mereciam. O documentário enfatiza o quanto há a necessidade da luta pelo fim do patriarcado em qualquer país e em qualquer religião e como a desunião entre as mulheres pode impedir ou retardar conquistas necessárias.

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Apesar de não se identificar com o feminismo atual, Ana Paula afirma que é necessário união para que haja avanços. “O principal objetivo deveria ser a união das mulheres, mas há uma divisão entre as que se sentem representadas pelas feministas e outras que querem distância”, diz. Regina Soares concorda com esse pensamento e garante que se assumir ou aceitar o feminismo não é o mais importante na questão da libertação das mulheres. “Primeiro tem que romper essa questão conceitual da linguagem porque não importa se a mulher se diga feminista ou não, o que eu acho importante é que elas se conscientizem dos seus direitos”, conclui.  

No Catolicismo, a produção cinematográfica não é significativa, entretanto, na literatura, um dos nomes mais icônicos da teologia feminista é a brasileira Ivone Gebara, uma teóloga, que também é freira, e defende o casamento gay e a legalização do aborto. Por suas ideias “rebeldes”, Ivone foi punida pelo Vaticano, sendo proibida de dar aulas e conceder entrevistas. Mas a punição teve o efeito oposto: instigou ela a divulgar ainda mais as suas opiniões revolucionárias. Entre suas obras encontramos títulos como: “O que é teologia feminista (2007)”, “Teología a ritmo de mujer (1995) e “Out of Depths: Women’s experience of evil and salvation (2002)”, que visam explicar o catolicismo pelo ponto de vista feminino.

Apesar de ter sido em nações protestantes que o feminismo encontrou maior espaço para a formação de movimentos de libertação, como a emancipação das mulheres, no aspecto cultural, essa vertente do Cristianismo deixa muito a desejar. Mesmo tendo coletivos feministas dentro de igrejas pentecostais e neopentecostais, como o “Evangélicas pela igualdade de gênero”, ainda falta incentivo para a produção de filmes e livros que tratem do feminismo protestante. É muito fácil achar longametragens que tratam da fé em Deus ou que contam milagres dentro das igrejas, mas quando o assunto é feminismo, a indústria cinematográfica e literária é praticamente inexistente.

O que pode ser encontrado são ensaios ou artigos acadêmicos que tratam do tema, como por exemplo, a tese de mestrado de Valéria Vilhena, evangélica e doutora em Educação e História Cultural, intitulado “Pela voz das Mulheres: uma análise da violência doméstica entre mulheres evangélicas atendidas no Núcleo de Convivência da Mulher – Casa Sofia (2009)”. Esse artigo é importante para o feminismo protestante principalmente pelo fato de que 40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas, segundo pesquisa feita em 2016 pela Universidade Presbiteriana Mackenzie a partir de relatos colhidos por organizações não-governamentais que trabalham no apoio às vítimas desse tipo de violência.

Com o feminismo ganhando cada vez mais espaço dentro da religião é preciso haver mais estímulo para que ele possa fincar raízes nessas instituições. Mas é preciso lembrar que antes de sair anunciando o feminismo é necessário saber para que tipo de público religioso está se falando, como orienta Regina Soares. “O feminismo que as mulheres rejeitam pode ser o que foi plantado pela mídia, uma versão distorcida de que toda feminista é ‘sapatão’ e odeia homem. Para mudar essa realidade tem que trabalhar a metodologia, você precisa saber pra que tipo de grupo está falando para não espantar e afastar as mulheres ainda mais”, adverte.

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