Meu corpo, minha arte: a trajetória da libertação sexual das mulheres

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Por Carol Gomes e Gianluca Florenzano

O sexo ainda divide a sociedade. Antigamente, a visão que prevalecia sobre ele era religiosa. O ato sexual era visto meramente para fins reprodutivos e condenavam-se publicamente aqueles que praticavam por prazer e principalmente fora do casamento.

Entretanto, ao longo dos anos, essa visão foi perdendo a sua hegemonia na sociedade e foi dando lugar a uma mais liberal, graças a movimentos que ocorreram por todo o ocidente em favor da libertação sexual.

Entre as décadas de 1960 e 1970, os jovens começaram a reescrever o código social sobre o comportamento sexual. Logo, os principais pilares que sustentavam os panoramas de conduta moral em relação ao sexo foram derrubados.

Relações fora do casamento, assim como relações homossexuais deixaram de ser vistas como algo condenatório. Além disso, os jovens aderiram outros tópicos da contracultura, como a nudez em público e a legalização do aborto.

Contudo, o aspecto principal que impulsionou esses movimentos foi o desenvolvimento da pílula anticoncepcional em 1960 nos Estados Unidos – a pílula chegou ao Brasil dois anos depois.

Graças a esse dispositivo de fácil acesso, as mulheres começaram a ter mais confiança em praticar relações sexuais, pois sentiam que possuíam um controle maior sobre seu corpo e, principalmente, que poderiam escolher se queriam ter filhos ou não.

De fato, a pílula anticoncepcional foi um marco revolucionário de como o sexo passou a ser visto pela sociedade. Se antes o ato era meramente reprodutivo, com o surgimento desse dispositivo, as mulheres começaram a buscar o prazer que a relação sexual trás.

Além disso, aos poucos foram desenvolvidos mercados voltados para o sexo. Filmes adultos começaram a ser produzidos, revistas eróticas ganharam espaço nas bancas e lojas de sexy shops foram abertas. Ao invés de ser visto como um tabu, o sexo passa a ser visto, na sociedade moderna, como uma mercadoria rentável.

Por isso que, sendo a busca pelo prazer uma característica inerente ao ser humano, sua sexualidade é explorada por muitos viés artísticos. Quando se trata do sexo como entretenimento, o homem soube e ainda explora sabiamente este mundo.

Por exemplo, por meio do cinema, com aquela cena mais picante, ou até comerciais de televisão que exploram os corpos desnudos das mulheres a serviço de algum homem muito másculo. A indústria do show business conseguiu implantar na sociedade de que esses conteúdos são aceitáveis de serem consumidos. Sexo virou mercadoria e muito lucrativa, por sinal.

Já em ambientes educacionais e espaços culturais que abordam o erotismo de uma forma mais informativa, intelectual e abstrata, o conteúdo é martirizado, satirizado e criminalizado. O educacional tornou-se baixaria e o que é baixaria virou exemplo a seguir.

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Toda complexidade da sexualidade humana é uma expressão artística e, por isso, todo o seu manifesto cultural deve ser fragmentado em muitos conhecimentos –  sem o estigma e o contraditório tabu a respeito do sexo: de que todo mundo faz e ninguém pode falar  a respeito.

Pela literatura, a música, tecnologia e cursos de autoconhecimento, a libertação sexual, principalmente das mulheres que foram por anos privadas de explorar o seu lado erótico, é desmistificado este medo de lidar sobre o assunto.

Não tem problema não saber de tudo na hora H, o problema é não ter acesso a conteúdos que podem te ajudar com isso e é responsabilidade dessas ramificações artísticas em ensinar, além de um profissional de saúde, claro.

Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (ABEME) em 2017, cerca de 83% da população nacional nunca experimentou um produto erótico, podendo apontar a falta de interesse das pessoas em explorar a sua própria sexualidade e suas limites a serem ultrapassados.

No entanto, as mulheres são as mais desbravadoras e curiosas a respeito de aumentar o seu repertório quando o assunto é sexo, sedução, sua feminilidade e desenvolver o amor e valor por si mesma.

Crédito: Pixabay

Elas buscam, por exemplo, na literatura erótica ou, também conhecidos pelo nome de New Adults, um entretenimento com qualidade e a pitada do romance que a linha editorial não deixa de lado.

“No início, as mulheres liam pela curiosidade, hoje, como um grito de liberdade. Já existiam livros que falavam de sexo, mas depois de Cinquenta Tons de Cinza’, o público feminino passou a assumir que gostam de sexo nos livros. Teve gente dizendo que esse segmento iria desaparecer em um ano e hoje temos autoras que escrevem maravilhosamente bem”, declara a escritora baiana Tatiana Amaral, autora de diversos livros eróticos, como a trilogia “Função CEO” e a série “O professor” que tiveram mais de cem mil unidades físicas vendidas no Brasil e mais de dois milhões de visualizações por mês na Amazon.

Este mercado editorial é tão popular, porque encontrou uma forma exata de se comunicar com as mulheres: escrevendo especialmente para elas, com autoras que entendiam os reais problemas de uma mulher moderna e seus desejos mais profundos.

Em entrevista ao site Hoje em Dia, a editora Márcia Pereira que trabalha no selo dedicado ao público feminino da Editora Planeta, afirma: “quando se observa a curva de vendas, percebe-se que há momentos de estabilidade e outros de pico. Não tem diminuição”.

Se antigamente não se falava e nem lia a respeito do sexo, hoje em dia não apenas se discute como também se escuta. Ícones feministas da música moderna brasileira trouxeram aos ouvidos da sociedade a libertação sexual da mulher. Cada vez mais as canções tratam diretamente sobre sexo e principalmente sobre o jogo da sedução e o poder feminino.

Anitta, por exemplo, uma estrela dessa nova geração de cantoras, aborda em suas músicas o poder de sedução da mulher. No hit “Vai malandra” – que ganhou grande repercussão entre os jovens -, a artista canta como pretende seduzir o homem: “Desço, rebolo gostoso / Empino te olhando / Te pego de jeito”.

Valesca Popozuda, outra cantora de renome reforça em suas letras a independência sexual que a mulher adquiriu. Como por exemplo, em sua música “Tô solteira de novo”, a artista canta: “Hoje eu escolho quem eu fico, agarro, rebolo, beijo, me acabo”.

No entanto, a cantora que deu um passo além sobre como falar da libertação sexual da mulher na música foi a rapper Karol Conka. Na letra de sua melodia “Lalá” a rapper designa um novo papel social para a mulher.

Na canção, a cantora critica abertamente o desempenho sexual de seu parceiro: “Esses caras ainda não aprendem que 10 minutos é desfeita / Nem a bomba que toma não aguenta o molejo da lomba / Se desmonta, tem medo e no final só me desaponta”.

Contudo, o ápice da música é quando Conka eleva a mulher ao mesmo patamar que o homem. Se, nas letras de funk cantadas pelos MC’s a mulher é sempre submissa ao homem; na canção da rapper o papel se inverte: “Moleque mimado bolado que agora chora / Só porque eu mandei ajoelhar / Fazer um lalá por várias horas”.

Apesar das letras serem cada vez mais revolucionárias e pregarem a libertação sexual, principalmente da mulher, em alguns casos, certas ações ainda são condenadas pelas normas sociais e acabam sendo censuradas e proibidas de serem veiculadas em qualquer tipo de plataforma eletrônica.

A canção de Clarice Falcão, cantora e comediante, denominada “Eu escolhi você” foi motivo de polêmica. A música trata de uma forma irônica a escolha dela pelo seu parceiro: “Dos males o menor / Porque você é o melhor / Ou melhor, o menos pior pra escolher”.

Entretanto, a polêmica não girou em torno da letra, mas sim, sobre o videoclipe da canção. No vídeo, as pessoas são filmadas da cintura para baixo, sem roupas, mostrando os órgãos genitais. O YouTube, plataforma digital que hospedava o clipe, retirou-o do ar. Em nota, o site afirma que “o vídeo foi removido por violar as políticas do YouTube sobre nudez ou conteúdo sexual”. Em resposta, Clarice comentou na sua conta do Twitter, “calma gente é só piru e ppk [pepeca]”.

Não obstante, de alguns segmentos sociais ainda verem o tema como sinônimo de tabu, o sexo se enraizou em diversos ramos da comunicação, como por exemplo, na literatura erótica, nos filmes e nas músicas.

E, a cada dia que passa, surge um novo tipo de mercado voltado para o referido tema. Em alguns lugares, existem cursos especializados nas diversas maneiras de praticar o ato sexual, como pompoarismo, massagem tântrica, etc.

Esses cursos promovem o autoconhecimento de si com o seu corpo e estão gradativamente aumentando a procura no mercado.

Cátia Damasceno, fisioterapeuta especializada em uroginecologia, tem um blog chamado “Mulheres Bem Resolvidas” e promove dois cursos que ajudam suas leitoras a praticar exercícios de ginástica íntima, chamado de pompoarismo, e um intensivão de seis meses, chamado “Programa Mulheres Bem Resolvidas“, para aprimorar todos os lados de uma mulher: sua sexualidade, autoestima, saúde, relacionamento e sensualidade.

Em seu blog, Cátia declara: “eu amo o meu trabalho e nada me deixa mais feliz do que ler comentários de mulheres dizendo como Mulheres Bem Resolvidas foi um divisor de águas em suas vidas. (…) Apesar de eu falar de um tema repleto de tabus, eu estou conseguindo passar a minha mensagem e impactar a vida de milhares de mulheres todos os dias.”

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Cátia utiliza de plataformas digitais para divulgar os seus conteúdos e, hoje, tem um canal no Youtube que conta com mais de um milhão de inscritos para disseminar os seus conhecimentos a respeito de relacionamento, posições sexuais e maneiras divertidas de inovar na cama.

Nesta pegada, a tecnologia ajuda muito a ser um canal de educação para mulheres que não conseguem ter de sua base familiar ou no seu currículo acadêmico um interesse em se educar sexualmente.

Dora Figueiredo, idealizadora do canal do Youtube que leva o seu próprio nome, oferece aos seus mais de 700 mil inscritos, vídeos que alertam a importância de se manter higiênica na hora do sexo, como fazer sexo anal, alertas de um relacionamento abuso, maneiras de evitar dor na penetração e entre outros.

Incentivada pelo seu pai, a youtuber expandiu seu gosto de falar sobre relacionamentos com seu amigos para criar o seu próprio canal que alavancou muito sucesso entre as internautas entre 25 a 35 anos .

“O canal começou a crescer bastante, principalmente, porque era uma mulher falando sobre sexualidade de uma forma completamente comum. Não tinha nenhum fundo de ‘ah é uma sexologa, cientista ou psícicologa’. Era mais um bate -papo de amiga e busca mostrar que as mulheres podem sim falar sobre sexualidade”, declara Dora.

A influenciadora digital acredita na importância da plataforma digital para a educação sexual. “Não inventaram melhor plataforma de educação para isso do que a internet principalmente, porque, normalmente, as mulheres são muito reprimidas sexualmennte no colégio e em casa é muito difícil de abordar este assunto, porque as mães e os pais tem vergonha da própria sexualidade então não conseguem passar isso de forma natural para os filhos. Então, eu acho que as pessoas se sentem minimamente seguras na internet, porque não vão ter aquela tia fofoqueira (..) ou aquele monte de cochicho no colégio.”, concluí.

Do pecado ao prazer. Do proibido ao comum. Foi por essa transformação brusca pela qual o sexo passou na sociedade. E, mesmo nos dias atuais, os jovens revolucionam cada vez mais o modo de pensar e fazer o ato sexual.

As mulheres foram as líderes dessa revolução. Com a libertação sexual feminina, elas ganharam o protagonismo na hora H. Ao invés de apenas agradar os homens, elas buscam cada dia mais, sentir os prazeres da relação. Em outras palavras, as mulheres não querem apenas fazer seus parceiros gozarem, mas querem gozar também.

Conforme coloca Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em entrevista ao site Uol, “nos últimos 50 anos, praticamente tudo mudou para as mulheres. A idade mínima para a primeira transa, a questão da exclusividade que se abalou, a liberdade de escolher quando e com quem se ter sexo”.

Para a antropóloga Regina Facchini, do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp, devido às transformações sociais – explicadas acima por Abdo -, as relações sexuais se tornaram mais igualitárias. Ainda de acordo com ela, um exemplo claro disso, é que “a pauta do feminismo contemporâneo” está voltada para a questão do consentimento que aborda “diretamente o sexo das mulheres”.

De fato, quando o assunto é sexo, o consentimento ganha destaque principal entre elas. Com o advento da hashtag #NãoéNão as mulheres lutam para que seus corpos não sejam discriminados e que a relação seja uma escolha de duas pessoas. “Sexo só é bom quando também é desejado pela mulher”, reforça Facchini.

Assim como as mulheres ainda estão aprendendo a conhecer seu corpo e quebra as barreiras de repressão contra elas; a sociedade como um todo, também está aprendendo a abordar o tema.

Como argumentado pela coordenadora do ProSex, graças ao advento da internet “a sexualidade passou a ser compartilhada”, favorecendo “as mulheres porque abriu para elas novas possibilidades”. De acordo com ela, “os homens sempre tiveram mais liberdade sobre o tema” devido a sexualidade deles não está privada a vida doméstica e “nem a contratos de fidelidade”. No entanto, com o surgimento de “salas de bate-papo [digitais]e compartilhamento de vídeos” as pessoas – especialmente as mulheres – ganharam um “espaço sexual maior”, já que podem falar sobre o tema a qualquer hora e privadamente, sem sair de casa.

Todavia, a internet é um espaço ambíguo em relação ao sexo. Ao mesmo tempo em que ela se tornou uma ferramenta para ajudar as mulheres a se libertarem sexualmente; a internet também pode se tornar um mecanismo de censura sobre o tema.

O YouTube, por exemplo, é um site visitado por milhões de jovens diariamente. Nessa plataforma, os mais variados assuntos – inclusive o sexo -, são abordados pelos “youtubers”, também conhecidos como “influenciadores digitais”. Entretanto, o tema ainda é visto de certa maneira como tabu. O referido site, por exemplo, conta com um mecanismo que retira a monetização de vídeos que falam sobre o ato sexual.

De acordo com Figueiredo, a maioria das “marcas [que patrocinam o YouTube]não querem suas publicidades relacionadas a esse assunto [sexo]”. Porém para ela, falar de relações sexuais “deveria ser algo comum” já que é um “assunto que todo mundo faz”.

De fato, o sexo é praticado como nunca antes na história. E se por um lado, há empresas que não querem associar seu nome com o ato; por outro lado, a um mercado voltado justamente para o tema.

A Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico e Sensual (ABEME) promove constantemente eventos para as pessoas explorarem a sua sexualidade. No final do ano de 2017, por exemplo, a associação realizou “uma festa picante de fim de ano só para as mulheres”.

Sexo hoje em dia passou a significar muito mais do que liberdade – especialmente para o segmento feminino. Se, para alguns, ele ainda é visto como tabu; para outros o sexo se tornou uma mercadoria, e muito lucrativa.

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