A mulher no cinema: Brasil e América Latina

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Divulgação/internet

Por: Giulia Bechara e Isabel Rabelo

Desde meados do século XX, a imagem e a representação da mulher no cinema têm sido questionadas na sociedade. Quando o cinema surgiu no Brasil, no século anterior, os espaços políticos eram constituídos exclusivamente por homens alfabetizados e maiores de 21 anos, excluindo-se, portanto, mulheres e a classe proletária. Pensando assim, nas circunstâncias brasileiras que se vivia na época e embora o cinema brasileiro, em sua essência, sempre tenha buscado inserir diversos contextos narrativos em suas produções, personagens femininas continuavam sendo deixadas de lado. Em 1932 as mulheres brasileiras conquistaram o direito de votar e a se candidatarem e na década de 40, passaram a assumir funções que divergiam de afazeres domésticos, isso devido as novas configurações que a sociedade assumiu no pós-guerra. Porém, curiosamente e diante as mudanças que o mundo estava vivendo, o cinema continuava o mesmo. Foi também nos anos 40 que o Brasil passou pela febre da chanchada, gênero cinematográfico que introduziu piadas machistas nos roteiros e continuava usando mulheres com submissão.

A imagem da mulher construída pelo cinema é criada, na sua maioria esmagadora, por e para homens, de modo que essa representação não seja relevante e sim, um objeto de cena posicionado para o prazer e satisfação masculina. Essa é uma realidade que não se distancia da opressão vivida pelas mulheres fora das telas, mesmo que a luta feminina por igualdade de gêneros venha ocupando cada vez mais os campos de uma sociedade misógina.

Através de uma articulação entre história cultural e a história de relação de gêneros, não é surpresa que, enquanto ferramenta política, social e de entretenimento, o cinema não fugisse da regra que o olhar masculino era o grande pioneiro por direcionar infielmente as narrativas cinematográficas. Mesmo que raras, houveram tentativas de quebrar estereótipos e isso ganhou força nos anos 60 com o avanço da Segunda Onda Feminista, movimento que ampliava debates e discussões sobre questões que envolviam sexualidade, mercado de trabalho, família, direitos reprodutivos e desigualdades. Na Primeira Onda Feminista, o sufrágio e derrubada legal de barreiras à igualdade de gênero tinham enfoque, já na Segunda Onda foi uma época que em que as mulheres alcançaram grande avanços nas profissões, esportes, meios de comunicação. O ativismo contínuo também chamou atenção para questões de violência doméstica e problemas de estupro conjugal, além da luta pela criação de abrigos para mulheres maltratadas devido mudanças a lei de custódio. 

Dorothy Arzner/ divulgação/internet

Além de ter sido a época marcada pela revolução sexual, foi também quando o cinema passou a assumir seu papel político de forma mais explícita e a representação do feminino se equilibrava entre a impotência e a sexualização. Elas entendiam que as desigualdades políticas e culturais estavam profundamente relacionadas. De acordo com a britânica Laura Mulvey, crítica de cinema feminista, em seu artigo chamado “Prazer visual e cinema narrativo”, “O olhar masculino determinante projeta sua fantasia na figura feminina, que consequentemente, em seu papel tradicional exibicionista, as mulheres são simultaneamente olhadas e exibidas”. Assim, o fetichismo e a mixoscopia se tornaram base do que perpetuava imagem das mulheres nas telas.

Mesmo com toda a evolução do cinema brasileiro desde a década de 60 e o reconhecimento de cineastas como Anna Muylaert, Laís Bodanzky, Ana Carolina, Tatá Amaral, Helena Solberg, Lucy Barreto, Petra Costa, Leandra Leal, Renata Pinheiro, entre outras, muito das histórias que conhecemos são contadas por homens. Uma pesquisa realizada pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) mostra que das 2.606 obras feitas em 2016, apenas 19,7% foram dirigidos por mulheres. Em entrevista, a jornalista e fundadora do site Mulheres no Cinema Luísa Pécora afirma que a participação da mulher ainda é extremamente minoritária em praticamente todas as cinematografias, “Estamos muito distantes da igualdade de gênero no audiovisual brasileiro, sobretudo por trás das câmeras, mas desde 2009, pelo menos, temos visto um aumento no debate sobre a mulher no cinema, com especial força a partir de 2015 acompanhando o que tem se chamado de ‘quarta onda feminista’. Não há dúvida de que há mais gente falando sobre o assunto, e de forma mais pública, o que é positivo”.

 

 

Anna Muylaert/divulgação

Anna Muylaert/ divulgação

 

Similar a realidade no Brasil, o cinema na América Latina em geral, é marcado não só pela falta da participação, mas também pela falta da representação das mulheres.

De acordo com a Federação Ibero-Americana de Academias de Cinema, 18% são diretoras, 21% roteiristas e montadoras, 27% produtoras e, em menor número, 7% são diretoras de fotografia ou de som. Na Argentina, Brasil, Chile, Colombia, Ecuador, México, Paraguay e Venezuela, dos 798 filmes estreados em 2016, apenas 10% têm mulheres como diretoras de ficção e 21% como documentaristas.

Na Argentina, a antiga ONG Un Pastiche divulgou, em 2013 o estudo “Representaciones de género en el cine argentino”, em que analisaram os dez filmes com maior audiência entre janeiro de 2011 e maio de 2013*. As mulheres representaram 37,4% dos personagens (com nome e falas), contra 62,6% sendo homens. Em protagonismo, o número diminui para 30,7%. As atrizes são o dobro em papéis com filhos, fazem três vezes mais cenas parciais ou totalmente nuas e 15 vezes mais cenas com roupas sexualmente atrativas. Essa objetificação sexual faz com que a cada 200 mulheres, 33 recebem comentários sobre o físico, contra um a cada 200 homens. Além disso, a análise traz que as mulheres constituem 41% do mercado de trabalho argentino, mas, no cinema, elas são 25%, representadas com estereótipos. Nas telas, não há mulheres inseridas na política e apenas 30% dos cargos de saúde são representados com atrizes, sendo que 70% das mulheres são médicas ou enfermeiras no país.

No México, docentes da Universidad Autónoma de Nayarit analisaram três entre os dez filmes com maior audiência no país de 2000 a 2010: O Crime do Padre Amaro (2002), Rudo e Cursi (2008) e Não é Você, Sou Eu (2010). Embora com oito anos de diferença, os três têm as personagens estereotipadas como donas de casa. Os dois últimos ainda têm elas no papel de mulher objeto, cujo papel é acompanhar e agradar um personagem homem. Não só nos filmes analisados, de acordo com os pesquisadores, essas representações se repetem em boa parte do contexto cinematográfico do país.

No Chile, dos 243 filmes produzidos entre 2011 e 2015, apenas 15 foram dirigidos por mulheres; em 2017, elas dirigiram sete dos 47 estreados. Nas telas, menos de 32% dos personagens são mulheres, em boa parte, com papéis de irmãs, mães ou esposas. Em 2014, só 12% dos filmes com maior audiência tiveram protagonistas femininas.

Eva Landeck/ divulgação

 

No Uruguai, as primeiras experiências cinematográficas foram no final do século XIX, enquanto a inserção da mulher só aconteceu em 1938 com ¿Vocación?,  dirigido por Rina Massari e El lugar humano, por Eva Landeck em 1979. Entre 2000 a 2016 apenas dez filmes nacionais tiveram uma ou mais mulheres como protagonistas.

 

 

Luísa Pécora ainda complementa que a mudança leva tempo, principalmente sendo uma questão complexa, que envolve fatores que divagam entre conceitos e práticas sociais até questões financeiras e interesse de corporações. “Não é uma questão simples que vai mudar da noite para o dia ou mesmo em poucos anos. O debate é importante, mas a ação precisa ser maior e contínua. Os dados deste ano podem melhorar no ano que vem, sem que isso signifique mudança real”, reforça.

Muito tem se discutido acerca da representatividade, mas ainda há um grande caminho pela frente até que a sociedade não se minimize em uma metáfora, aos clichês e o falso realismo. Existem diferentes ações que podem ser tomadas em diferentes esferas (governamental, empresarial, educacional, etc). Luísa ainda destaca, “Existem milhões de coisas que poderiam ser feitas, por exemplo, os estúdios e profissionais tomem decisões de contratar mais mulheres, que mostras tenham a preocupação de incluir mais mulheres na programação e que o próprio público procure ver os filmes feitos por mulheres”.

 

Ana Carolina/ divulgação

Que horas ela volta?/ divulgação

 

 

 

 

 

 

*Un cuento chino (2011), Igualita a mí (2010), Atraco (2012), Dos Hermanos (2010), Gaturro, la película (2010), Viudas (2011), Mi primera boda (2011), Revolución: el cruce de los Andes (2011), Peter Capusotto y sus 3 dimensiones (2012), Los Marziano (2011).

 

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