A representatividade da mulher negra na mídia

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Por Adriana Vieira, Elaine Bertoni, Maria Victória Gonzalez

Você sabia que, segundo uma pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, 48% das jornalistas brasileiras são mulheres brancas até 30 anos, e apenas 5% são negras? O que torna essa descoberta devastadora é o fato de 54% da população brasileira ser negra.

É importante perceber que vivemos em uma sociedade extremamente racista, que faz com que mulheres negras sejam excluídas nas produções de entretenimento – como cinema e novela -, sendo tratadas como coadjuvantes. Viola Davis se tornou a primeira mulher negra a conquistar a chamada “Tríplice Coroa de Atuação” (Oscar, Emmy e Tony) há um ano, porém, seu discurso ainda é atual: “Às atrizes negras não falta talento, falta oportunidade.”

Exemplos de ‘Mães Negras’. Via: geledes.com

O mito da democracia racial foi construído ao longo de vários anos no Brasil, elaborado pela ideia de miscigenação e convivência racial pacífica. Assim, forjou o ‘sujeito mestiço’ denominado “brasileiro”. Enquanto isso, apagava a cultura e identidade negras, acarretando em uma política de exclusão.

A indústria midiática que produz cultura é pouco aberta às ideias de ter a negra como protagonista nas novelas e filmes, e segue reproduzindo estereótipos, colocando-a em papéis, quase sempre, de subalternidade.  No caso das novelas em específico, sabemos são as maiores responsáveis pela construção da imagem representativa de muitos grupos, e nelas, vemos frequentemente negras como empregadas domésticas que amam demais a família branca para qual trabalham, nominadas como ‘Mães Negras’.

Cacau Protásio viveu a empregada Zezé, em Avenida Brasil, via: farofata.wordpressa

Cozinheira de mão cheia, além de cuidar dos filhos dos outros, realizam todos os afazeres domésticos. A vida delas é servir, coisa  que elas fazem com o maior sorriso no rosto, não é mesmo? Em produções de época, o emprego garantido! No papel, é claro, de mulheres escravizadas. Sempre em posição subalterna, mas feliz da vida mesmo assim, a figura da Mãe Preta acaba ocultando as relações de poder por trás da sua situação. E como se não bastasse, ainda reforça a ideia de que mulheres negras são naturalmente subservientes e pertencentes ao serviço doméstico.

Apenas 10% dos personagens em novelas de maior audiência são interpretados por artistas negras. Não são necessários muitos exemplos para entender o peso que esse rótulo tem: a empregada espevitada e irreverente, que vive fazendo graça e arrancando risos da patroa, como a personagem de Cacau Protásio, a Zezé de Avenida Brasil; a mulher negra, sensual e mãe solteira de filhos de pais diferentes que se envolve com vários homens na trama, Cris Vianna viveu Dagmar dos Anjos em Fina Estampa; pobre, estereotipada e demonizada, Rodrigo Santanna interpretou a personagem Adelaide no programa Zorra Total, da Rede Globo; mãe preta, que cuida dos afazeres da casa com muita felicidade, Zezé Motta viveu a personagem Tia Joaquina na novela Escrava Mãe, da Rede Record

Via: Bing

A negra arretada é aquela personagem extrovertida e com muita atitude. Aliás, estes clichês racistas relacionados à negra arretada surgiram como resultado do Movimento pelos Direitos Civis e do Movimento Feminista, como uma forma de trazer mais visibilidade para mulheres negras no Cinema.

A sexualização também é outro problema constante na mídia e no entretenimento, e se dá por meio de personagens exuberantes e luxuriosas que enlouquecem os homens ao seu redor. Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele, sendo que nesse estereótipo são enquadradas as mulheres negras de pele clara.

Um outro exemplo nítido, é a polêmica gerada na série da Rede Globo, Sexo e as Negas, onde as negras são protagonistas, mas compartilham de muito machismo e preconceito. Nela, as mulheres fortalecem todos estes estereótipos existentes no Brasil: serão camareira, costureira, operária e cozinheira, continuando a servir, como de praxe. Programas como o Esquenta, da mesma emissora, também não contribuem em nada para mudar essa imagem: como sempre, retratam como divertidas e sexualizadas.

É nítida a diferença do espaço que as mulheres brancas e as mulheres negras têm no jornalismo brasileiro. Quase não se vê profissionais negras na área e, as poucas que assumem papéis importantes no mundo da notícia, sofrem diariamente com ataques racistas, principalmente nas redes sociais.

A jornalista e apresentadora da previsão do tempo do Jornal Nacional, da Rede Globo, Maria Julia Coutinho é um dos casos mais recentes. Os ataques preconceituosos que sofreu nas redes sociais, comentários como ‘’tempo branco? Mentira, sua preta.’’ repercutiram na mídia internacionalmente. 

Ataques racistas. Via: Huffpost

Outra global, Glória Maria, a primeira repórter negra da TV aberta brasileira, vivencia esses episódios desde o início da sua carreira, quando foi barrada na porta de um hotel de luxo do Rio de Janeiro.

Outros exemplos de mulheres negras profissionais do jornalismo são Adriana Couto, da TV Cultura, Valéria Almeida do Profissão Repórter da Rede Globo, Luciana Barreto que já passou nas principais redes televisivas do país como Bandeirantes, GNT, entre outras. Joyce Ribeiro, se inspirou em Glória Maria, já foi assessora de imprensa, repórter e apresentadora. Todas elas, em algum momento da carreira, já relataram episódios de racismo.

Além desses, existem casos isolados e que não possuem a mesma repercussão, como o caso da estudante de jornalismo de uma faculdade do Nordeste que foi hostilizada pelo professor durante a aula. Fernanda (nome fictício) de 20 anos, estava apresentando um trabalho quando o professor fez um comentário racista sobre o cabelo da garota dizendo que aquele tipo de penteado (afro) era inadequado para ser âncora de telejornal.

O tratamento da negra na mídia é diferente da realidade social? É óbvio que não. Muito pelo contrário, nesse caso, as novelas transmitem aquilo que vivenciamos. É claro que tal realidade vêm se modificando, mas de uma forma tão lenta que se torna imperceptível. 

Via: ijnet.org

Enquanto a representatividade não existir, nada vai mudar. Algo que chama a atenção dos telespectadores negros é o fato de que quem dirige ou escreve histórias sobre sua cultura, na maioria das vezes são brancos, de classe média/alta, que não vivenciaram sequer 1% do sofrimento deles. A representatividade não existe em cargos, nem no protagonismo, e programas como o Esquenta, da Rede Globo, não contribuem em nada para mudar a imagem que o povo têm.

Além das novelas, no cinema é possível ver a discrepância entre mulheres negras. A pesquisa feita pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, entre 2002 e 2012, chamada “A Cara do Cinema Nacional”, analisou dados dos filmes com maior bilheteria do país: 84% dos filmes tiveram direção de homens brancos; 13%, de mulheres brancas; 2%, de homens negros e nenhum filme teve direção de uma mulher negra.

Via: Revista Totem

Na publicidade e propaganda, a Agência Heads Propaganda fornece alguns dados importantes sobre a discussão: 3 mil comerciais exibidos na programação brasileira durante uma semana de julho de 2016, apenas 26% foram protagonizados por mulheres, das quais, apenas 16% eram negras e 38% tinham o cabelo crespo e cacheado. É evidente a invisibilidade das mulheres negras nos comerciais, mas ainda assim, os dados chocam.

No jornalismo em geral, o Instituto Mídia Étnica, afirmou que a televisão brasileira conta com apenas 5,5% de apresentadores e profissionais negros e negras. Temos como exemplo Glória Maria, que em um programa da Marília Gabriela, comentou sobre o racismo que sofre, mesmo sendo uma figura pública: “Preciso provar que sou uma jornalista de talento, porque do contrário você é sufocado de uma maneira que não imagina.’

Os dados não mentem, e o peso dos estereótipos e falta de representatividade afeta a cultura negra em geral, e mais ainda, as mulheres. A mulher negra é invisibilizada nos meios de comunicação, é retratada de uma forma superficial e, além disso, as mudanças que vemos caminham a passos lentos. Com tudo isso, uma pergunta simples aflige o povo: até quando?

 

 

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