Com o avanço da tecnologia, já é possível governar uma cidade à distância?

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As dezenas de viagens de João Dória ao longo de seu primeiro ano de mandato foram combustível para discussão

Eleito como um verdadeiro fenômeno, o prefeito João Dória (PSDB), prometia um modelo de governo completamente diferente ao que o brasileiro está acostumado, e seu projeto teve uma resposta mais do que positiva nas urnas, que o elegeram prefeito de São Paulo já no primeiro turno. Prometendo uma gestão eficiente, Dória nunca se colocou como político, mas sim como um gestor.

O prefeito recém-empossado passou a realizar viagens, as primeiras para o Oriente Médio e China, com o objetivo de atrair investidores para a cidade. E foi com este argumento, além afirmar o desejo de aprender com outros governos, que ele realizou mais de 40 viagens em seus primeiros 11 meses de mandato. João Dória esteve em todas as regiões brasileiras, chegando a viajar nove vezes nos meses de outubro e agosto.

Na maioria das vezes, foi homenageado por políticos locais. Desde assumiu a prefeitura paulistana, já se tornou cidadão soteropolitano, natalense, vilavelhense, campinense, paraense, belenense, osasquense, goiano, sergipano, rio-pretense, sorocabano, cidadão calçadista de Franca e cidadão honorário de Seul (Coreia do Sul).

Não escondendo seu desejo de concorrer à sucessão de Michel Temer, suas viagens foram acusadas de terem objetivos eleitoreiros – o que gerou desgaste junto aos paulistanos e acendeu o alerta do Ministério Público.

Em setembro, o promotor Marcelo Camargo Milani pediu que o prefeito informasse o roteiro das viagens e as circunstâncias pelas quais elas se deram, quem participou dessas comitivas e a forma como os custos foram pagos. Resultado de uma representação feita pelo Partido do Trabalhadores (PT), que acusou o prefeito de usar o cargo para fazer campanha antecipada à Presidência da República.

“As viagens foram feitas em horário de trabalho para fazer campanha política, então entendemos que é necessário uma profunda investigação sobre o que vem ocorrendo, já que ao nosso ver, o expediente está sendo usado de forma indevida “, é o que explica o presidente do diretório petista, Paulo Fiorilo.

Respondendo publicamente o ocorrido, João Dória alegou: “As viagens que faço, faço com meu dinheiro. Eu pago as minhas viagens, seja no Brasil, seja no exterior. É uma opção que tive. Assim como uso o meu automóvel, devolvo o meu salário para o terceiro setor e quero voltar a dizer: vamos continuar a viajar. No Brasil e fora do Brasil, quantas vezes forem necessárias para mostrar o valor da nossa cidade atrair investimento, gerar empregos e produtividade”.

O Ministério Público de São Paulo acabou arquivando o inquérito instaurado para apurar as viagens. A promotoria justificou a decisão afirmando que, além de exercer o cargo todos os dias do ano, o chefe do Executivo não cumpre o horário de trabalho de um servidor público normal. Ou seja, não precisa assinar ponto. Além disso, Milani afirmou que todo prefeito tem o dever de ter agenda pública. Sendo assim, fiscalizado a todo momento. Segundo ele, em nenhum dos deslocamentos foi ultrapassado o limite permitido pela Lei Orgânica do Município, que é de 15 dias.

Apesar de ser legal juridicamente, professor de Ciência Política da PUC-SP, acredita que não é possível governar uma cidade como São Paulo à distância.

“Eu entendo que não é possível. É o equivalente a dizer que uma pessoa não pode fazer home office trabalhando em um supermercado, por exemplo. Você pode tomar decisões à distância a partir de relatórios e relatos de funcionários de confiança, mas não pode sentir o movimento na loja ou observar o comportamento dos clientes. Um prefeito tem de conhecer a cidade e percebê-la em seus aspectos subjetivos”, afirma Rafael.

“Há um elemento vivo na cidade que só se conhece percorrendo-a. A cidade é mais que uma paisagem, é a soma das pessoas que a habitam, suas interpretações e sentidos. Não dá pra ser prefeito a distância, o que não significa que o prefeito não possa ou não deva fazer viagens para buscar investimentos e negociar dívidas”, completa.

Analisar novas tecnologias de comunicação é um ponto importante na discussão, afirma o cientista político e vereador Matheus Marum (PHS) da pequena cidade de Salto de Pirapora, no interior do estado de São Paulo: “Acredito que a tecnologia colabora bastante com a administração pública. Entretanto, acredito que nenhuma tecnologia existente é capaz de substituir a pessoalidade. Fazer-se presente, mantendo as secretarias e divisões sob um olhar clínico é o que garante um bom ritmo de trabalho”.

Sendo assim, não posso concordar que a produção dos servidores é a mesma, com ou sem a presença do prefeito”, avalia.

“Respeito a opinião do prefeito Dória em fazer uma administração digital mas creio deve tomar cuidado pra que ela não se torne virtual”.

Ambos os cientistas políticos entrevistados, alegaram que praticamente em todas as metrópoles, inovações tecnológicas são de fato indispensáveis nas gestões, porém não conhecem nenhuma em que seu prefeito governe à distância e seja bem sucedido.

Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV, a imagem de Dória foi fortemente afetada com essas viagens. O que foi comprovado pela pesquisa Datafolha realizada em abril de 2017. Segundo ela a maioria dos moradores (55%) da cidade reprovava a possibilidade do prefeito deixar o cargo no ano que vem para ser candidato a governador ou a presidente.

“É inevitável não relacionar o abandono de praças e vias públicas com as viagens do prefeito. Em 2017 as subprefeituras bateram um número recorde de reclamações, são muros pichados, aparelhos de academia quebrados e mato alto nas praças em todas as regiões da cidade”, completa Marco Antonio.

Em contraponto, o vereador paulistano Rodrigo Goulart (PSD), acredita que é possível governar a distância, desde que o prefeito não se ausente por completo.

“CEOs e diretores de grandes companhias vivem viajando, e nem por isso a empresa é prejudicada. Pelo contrário, muitas vezes ela se beneficia com isso. Acredito que o prefeito não precisa necessariamente estar fisicamente todos os dias em São Paulo para um governo de sucesso. Com gente de confiança e competência à frente da gestão é possível uma gestão nesses moldes. Nessas horas, a comunicação é indispensável”.

O prefeito explicou ao vivo durante programa Amauri Júnior. Perguntado sobre como administrava a maior cidade do Brasil à distância, João Dória alegou usar o celular, assim como empresários fazem com suas empresas, além de usar aviões e helicópteros particulares em suas viagens.

A socióloga Marcella Campos rebate as justificativas do prefeito e seus aliados.

“Enquanto João Dória viaja vendendo a cidade, existem fortíssimas acusações sobre seu mandato, entre elas: o abandono de praças públicas, agressão de moradores de rua pela Guarda Municipal, a proibição de entrega de comida voluntária nas ruas, racionar merendas nas escolas e deixar alunos sem aula, após uma demissão em massa de professores da rede pública. Nós estamos presenciando em nosso dia a dia como a educação está sendo abandonada em São Paulo”.

“Acredito que trazer investimento externo é necessário, pois a prefeitura conta com recursos cada vez menores, porém com todos os problemas citados, o prefeito deveria ser mais presente, para resolver com rapidez questões internas”, completa a professora.

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