Endometriose, a doença que atinge 7 milhões de brasileiras

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Mulheres passam por uma “peregrinação” até descobrirem a doença e iniciar o tratamento médico

 

REPORTAGEM: Andressa Lima, Laleska Diniz e Laura Jabur
EDIÇÃO: Fred Lopes

 

Cólicas menstruais intensas, cansaço e dores durante a relação sexual: estes são apenas alguns dos sintomas que atingem mulheres vítimas da endometriose. A doença que é causada quando o tecido que reveste a parede interna do útero – o endométrio – cresce em outros lugares do corpo afeta mais de 180 milhões de mulheres no mundo, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Dessas, 7 milhões são brasileiras.

Recentemente a atriz e youtuber Giovanna Ewbank revelou que precisou passar por uma cirurgia após descobrir que tinha a doença. No entanto, diferentemente da atriz, que teve um diagnóstico rápido, a maioria das mulheres entrevistadas pela nossa reportagem demorou anos até saber que eram portadoras dessa condição.

No caso de Erika de Azevedo Medeiros, 35 anos, o diagnóstico veio em 2015 apesar dos sintomas que hoje a impedem até de trabalhar terem se agravado gradativamente desde a menarca. “Aos nove anos, foi minha primeira menstruação, o fluxo era muito grande. Aos dez, comecei a sentir muitas dores só no período menstrual. Aos 11 eu tinha um fluxo de 10 dias e muitas dores, perdia aula”, conta. Erika, que hoje aguarda a cirurgia pelo SUS (Sistema Único de Saúde), disse que passou por uma “peregrinação” até ser atendida por um ginecologista.  “Primeiro fui diagnosticada por meio do exame clínico e dos sintomas. Então a primeira coisa foi suspender a menstruação. Tomei vários tipos de anticoncepcionais enquanto aguardava os exames e, depois que recebi os resultados, fui encaminhada para uma consulta com um ginecologista. Isso levou dois anos”, relata.

De acordo com a médica ginecologista Adriana Vitor Resende, que atua há mais de 20 anos na área, isso acontece porque a endometriose pode ser confundida com outras doenças. “Nem sempre o diagnóstico é fácil porque ela pode ser confundida com problemas intestinais, alterações urinárias ou doença inflamatória pélvica”, explica. O exame que faz o diagnóstico da endometriose é realizado através de laparoscopia e permite a visualização dos focos diretamente na cavidade pélvica. No entanto, por ser invasiva e requerer anestesia geral, essa forma de diagnóstico é cada vez menos recomendada pelos especialistas.

Para a ginecologista Flávia Fairbanks, especialista em endometriose pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), isso tem se tornado possível graças ao avanço da medicina. “Os recursos de imagem, principalmente o ultrassom transvaginal e a ressonância magnética, hoje tem dado uma precisão no resultado muito grande, de forma que a laparoscopia diagnóstica praticamente caiu em desuso”, explica.

E mesmo com o avanço das formas de diagnósticos, apresentar dor é praticamente um pré-requisito para que a endometriose possa ser investigada. Ariane Steffen Pellis, 42 anos, revela que passou por isso.  “Nenhum médico quis investigar por eu não ter nenhum sintoma além desse”, disse se referindo à dificuldade de engravidar. Em 1996, ela procurou os médicos e, segundo Ariane, na época não se falava sobre endometriose. “Levei quase três anos para engravidar e só em 2000 tive o diagnóstico de endometriose em um exame de rotina, no SUS”, explicou. Após a gestação, os sintomas se agravaram e hoje eles são muitos. “Tenho uma dor terrível no lado direito do corpo, que me faz andar curvada. Não consigo levantar nem deitar sozinha, o tecido da roupa me causa dor só de encostar na pele, que fica sensível como se fosse queimadura de fogo”, relata.

Vanessa Nunes, 35 anos, também descobriu a doença enquanto tentava engravidar. “Quando parei de tomar o anticoncepcional comecei a ter os sintomas de endometriose. Passei por cinco médicos e não sabiam o que eu tinha, todos os sintomas para eles eram normais e nunca fiz exames para diagnóstico. Foi na emergência do SUS que descobriram”, conta. Mesmo após começar a ter dores fortes no ventre, hemorragia, dores de cabeça e cansaço, ela ainda teve que conviver seis anos com os sintomas até ser diagnosticada.

Já para Ana Andreis, 22 anos, a história foi diferente. Diagnosticada em um hospital particular aos 18 anos, ela passou por cirurgia que amenizou os sintomas da doença. “Como minha dor era muito intensa e diária e os exames acusaram uma endometriose já evoluída, sugeriram que eu parasse de menstruar com anticoncepcional e fizesse a cirurgia”, disse. Mesmo após a intervenção, Ana faz uso contínuo de anticoncepcional para evitar que a endometriose volte, seguindo orientações médicas.

Segundo a ginecologista Fairbanks, o tratamento com anticoncepcional é tido como clássico em casos de endometriose. “Quando temos sintomas que podem ser resolvidos com medicação, é isso o que se faz em um primeiro momento. Quando os sintomas são bem analisados, a questão é saber se a paciente quer ou não engravidar. Caso ela queira, provavelmente será submetida a um bloqueio hormonal temporário ou a uma cirurgia, dependendo do caso, e depois de seis meses é liberada para engravidar”, explica.

Já as que não querem engravidar, o tratamento é diferente e mais fácil, com exceção dos casos extremos. “É feito um tratamento clínico inicialmente, seja com progesterona ou até com a pílula anticoncepcional. Se os sintomas foram bem controlados, a paciente mantém esse tratamento durante todo o acompanhamento”.

Danielly Silva, de 32 anos, também teve recomendação médica para usar anticoncepcional para amenizar os sintomas. Após ter uma filha aos 17 anos, que nasceu prematura em uma cesariana de emergência, ela começou a ter cólicas mais fortes e hemorragias. “O médico me indicou o DIU Mirena, mas como não tinha condições financeiras na época não coloquei e continuei com as dores e muito mal-estar”, conta. Depois de idas e vindas, a médica que fez seu parto suspeitou que o caso dela fosse endometriose. “Ela me passou Qlaira [anticoncepcional]entre 2014 e 2015 e só depois que eu fiz a ressonância magnética é que foi constatado a endometriose. Mudei a medicação para o Allurene 2 mg”. Após uma videolaparoscopia, em 2016, Danielly descobriu que a doença tinha se espalhado, deixando-a com um cisto no ovário esquerdo e com problemas gastrointestinais.

Segundo ginecologista Adriana Resende, as causas da doença ainda não estão claras. “Pode haver uma predisposição familiar, mas a hipótese mais aceita é a presença de menstruação retrógrada. Esta ocorre quando há passagem de sangue do útero através das trompas para a cavidade pélvica”, explica. Segundo a médica os tecidos do endométrio podem se desprender e chegar aos ovários, intestino e bexiga, por exemplo, causando um processo inflamatório que leva aos sintomas de dor.

Sem prevenção e, em muitos casos, sem cura

O caso de Giovanna Ewbank foge do comum por outro motivo. Após a cirurgia, que retirou os focos da doença, atriz não teve mais que lidar com os sintomas da endometriose. No entanto, a ginecologista Adriana Vitor Resende explica que, além dessa doença não pode ser prevenida, em muitos casos, ela também não tem cura. “É importante realizar um diagnóstico mais precoce possível para se estabelecer o tratamento adequado para a paciente. Não falamos em cura para endometriose e sim, em redução dos sintomas e das lesões. O tratamento contínuo pode evitar que a doença avance.”

Erika tem consciência disso. “Os médicos já conversaram comigo que minha cirurgia não vai me curar, mas vai me devolver qualidade de vida”, disse. Ana e Vanessa também acreditam que a endometriose possa ser amenizada e controlada. Já Ariane é otimista e, assim como Danielly, tem esperança de não precisar mais viver com os sintomas da doença.

Lugares para procurar ajuda

Coletivo Feminista Sexualidade Saúde (http://mulheres.org.br/saude-das-mulheres/)
Rua Bartolomeu Zunega, 44 – Pinheiros – São Paulo/SP
Contato: (11) 3812-8681 | mulheresorg@gmail.com

Secretaria de Estado da Saúde Campinas
Rua Gal. Setembrino de Carvalho, 123 – Ponte Preta – Campinas/SP
Contato: (19) 3233-6972

NIS – Núcleo Integrado de Saúde
Av. Carlos Salles Block, 74 – Anhangabaú – Jundiaí/SP
Contato: (11) 4588-7388

Secretaria da Saúde Piracicaba
Rua do Trabalho, 602 – Vila Independência – Piracicaba/SP
Contato: (19) 3437-7440

Secretaria de Estado da Saúde Presidente Prudente
Av. José Soares Marcondes, 2357 – Presidente Prudente/SP
Contato: (18) 3221-3522

PAM Várzea do Carmo
Rua Leopoldo Miguez, 327 – São Paulo/SP
Contato: (11) 3385-7004 / 7009 / 7011 | vcspdm@gmail.com

Departamento Regional de Saúde – Sorocaba
Rua Comendador Pereira Inácio, 564 – Centro – Sorocaba/SP
Contato: (15) 3332-9100 R 9251

Sites para encontrar ajuda 

http://portalms.saude.gov.br/fale-conosco
http://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/
https://www.proteste.org.br/saude-e-bem-estar/doencas/noticia/endometriose-tem-tratamento-gratuito

Foto: Reprodução/Pexels

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