Universo sugar: entenda como funcionam os relacionamentos em troca de benefícios

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O número de adeptos a sites que aproximam os interessados cresce cada vez mais no Brasil

Texto: Carolina Abrantes, Carolina Lameirão, Laleska DIniz, Laura Jabur
Edição: Fred Lopes

“É totalmente diferente dos outros relacionamentos. Nele, eu vi uma situação pura. Ele queria ajudar alguém a crescer financeiramente”, conta Camila.

“É a base da sinceridade, têm pessoas que falam que a gente está comprando outras, mas eu acho que é uma via de mão dupla, eu ajudo de uma forma e ela me ajuda dando carinho e atenção”, diz Ricardo.

Pessoas mais velhas que proporcionam experiências, bens materiais e um padrão de vida confortável a moças e rapazes mais jovens não são um fenômeno novo. Essas relações querem fugir do rótulo de prostituição, mas também dos tradicionais serviços de acompanhantes. É quase um namoro, mas com um acordo bem determinado. Quem patrocina pode ter qualquer idade, profissão, orientação sexual, basta contar com dinheiro. Mais do que algo que ocorre nas sombras, isso já se transformou em um negócio: há aplicativos que facilitam e tornam mais seguro o encontro entre patrocinados e patrocináveis. Confuso? Bem-vindo ao mundo das relações “sugar” – palavra em inglês que significa “açúcar”.

Mulheres e homens de boas condições financeiras, as “sugar mommies” e os “sugar daddies” oferecem benefícios materiais, profissionais ou pessoais a quem busca se tornar um “sugar baby”. Para os adeptos deste estilo de relacionamento, a principal regra é deixar tudo claro desde o início, uma vez que os acordos devem trazer vantagens para ambas as partes.

Um dos pontos mais polêmicos é se as pessoas devem ter ou não relações sexuais com seus parceiros. Para a jovem aprendiz Camila, 20, nada deve ser imposto. Ela conheceu seu “daddy” por meio de um site voltado a este público e conta que, no início da relação, pediu que ele não desse nada de presente a ela e que agissem como pessoas que se conhecem em aplicativos de relacionamentos tradicionais.

“Já me relacionei sexualmente com meu daddy, mas foi bem natural. A gente saiu para jantar, conversou, depois, quando estávamos voltando para casa, falei que queria passar a noite com ele”, lembra. “As pessoas têm muito preconceito e acabam confundindo com prostituição, mas não é. Quando você entra em um relacionamento, espera uma união, leve, saudável divertida, sem cobranças, e com sugar é isso também”.

Já a estudante de psicologia Danielle, 18, tornou-se sugar por estar desempregada. Ela se relaciona com um empresário de 35 anos, há seis meses, e, apesar de conversarem todos os dias, só se veem a cada duas ou três semanas. Danielle afirma que não conta para sua família que é uma sugar por causa do preconceito que poderia sofrer. “Quando você fala para alguém que tem um relacionamento e recebe ajuda com dinheiro, acham que você é garota de programa, book rosa, essas coisas. As pessoas mistificam muito”, opina.

Sobre o tipo de ajuda que cada baby recebe, Camila diz que tudo depende da necessidade da pessoa. “Tem vários tipos de sugar: aquela que quer orientação profissional, que gosta de sair com pessoas mais velhas porque são mais experientes e as que procuram ajuda financeira mesmo – seja para estudar, fazer um curso ou comprar um sapato”, conta.

No Brasil, o termo ainda é pouco conhecido. Há até quem já “patrocinava” parceiros sem adotar o termo sugar. O fazendeiro Renato, 54, conta que, desde os 32 anos, é adepto a este tipo de relacionamento e, mesmo sem saber, era um sugar daddy.

“Eu descobri por acaso o universo sugar, uma amiga minha me falou, fui pesquisar e me encontrei nele. Já era uma coisa que eu vivia e não sabia”, conta. Atualmente, Renato ajuda financeiramente uma baby de 22 anos. Ele afirma que é uma relação normal, um namoro de uma menina mais nova com um homem mais velho.

Como sugar daddy, o fazendeiro não estabeleceu uma quantia ou um auxílio específico à sua baby. “Ela não fala que precisa de ajuda, eu sei que eu não preciso dar dinheiro para ela, mas sei suas necessidades. É uma coisa espontânea”, diz.  “Espontaneidade”, aliás, parece ser a palavra que todos gostam de dizer quando perguntados sobre esse universo.

A forma de estabelecer esse vínculo também pode seguir caminhos nada convencionais. É o caso do estudante de engenharia Pedro, 23. Ele conheceu o marido de sua mommy em uma convenção de construção civil em São Paulo. Ao voltar para sua cidade, Recife, o empresário Diego, 53, propôs que Pedro se tornasse sugar boy de sua esposa Marcele, 29, para lhe dar atenção e encontrá-la com frequência. Em troca, o rapaz teria sua faculdade paga e receberia presentes caros.

“Eu não precisava entrar nesse mundo, eu moro com meus pais, eles são funcionários públicos, ganham bem e eu trabalho também. Mas já que veio eu fiquei feliz, e aceitei”. Pedro ainda conta que ter relações sexuais com sua mommy foi algo natural com o tempo, porém antes disso, o casal exigiu que o jovem apresentasse seus antecedentes criminais e exames de doenças sexualmente transmissíveis.

Um dos motivos para o aumento dessas relações no Brasil é a chegada de plataformas digitais que “fazem a ponte” entre os interessados. Em 2013, a americana Jennifer Lobo, filha de brasileiros, trouxe para o país um modelo que já existia nos Estados Unidos, Canadá e Europa. O site Meu Patrocínio, ativo há dois anos, coloca em contato mommies, daddies e babies.

Para se inscrever, os jovens realizam o cadastro gratuito com informações e fotos pessoais e esperam aprovação. Um dos requisitos é não usar imagens de terceiros ou fotos consideradas sensuais. Já os daddies e mommies também podem se cadastrar gratuitamente, no entanto, com um limite de mensagens. Depois disso, é necessário fazer uma assinatura mensal simples de R$199 ou de R$999 – este último plano verifica os antecedentes criminais do usuário. E uma conta  verificada garante mais credibilidade entre os sugars.

O Meu Patrocínio, em um ano, teve aumento de 365% no número de cadastrados. De acordo com sua assessoria, a plataforma conta hoje com 300 mil usuários no país, com uma proporção de cinco babies para cada sugar daddy/mommy.

Indo contra o senso comum de que, para ser daddy, é preciso ser mais velho, Monique conta que mantém um relacionamento com um homem de 35 anos. “A sociedade coloca esse mito que vai ser um velho gordo careca de 70 anos, mas tem muitos homens bonitos e novos nos sites”, afirma.

O advogado Ricardo, 25, é um exemplo: ele conheceu o site por meio de amigos que já utilizavam-no. “Eu resolvi entrar nesse universo porque queria encontrar pessoas com interesses sociais elevados, que procuram por crescimento”, conta. Ele patrocina uma baby de 21 anos, com quem afirma manter um relacionamento aberto, onde cada um faz o que quer, mas sempre contando para o parceiro.

“É a base da sinceridade, têm pessoas que falam que a gente está comprando outras, mas eu acho que é uma via de mão dupla, eu ajudo de uma forma e ela me ajuda dando carinho e atenção”, diz.

“A mulher tem poder de escolha, tem que ter uma sintonia. Não é uma transação econômica, transação comercial. Você desenvolve um relacionamento”, afirma Anne Viana, porta-voz do Universo Sugar, outro site bastante procurado que presta o mesmo serviço.

Ativo há oito meses no país, a plataforma conta com preços que variam entre R$169 e R$799. Quanto mais caro, mais benefícios para o daddy – no Universo Sugar apenas homens podem ser patrocinadores. “Temos um sistema implantado dentro do site que se você fala [palavras como]sexo ou garota de programa ele bane automaticamente os usuários”, explica Viana.

O site também mantém um blog onde oferece dicas para as babies antes dos encontros, estimulando a troca de experiência entre elas. “[Recomendamos] se encontrarem em lugar público e saber da pessoa antes de viajar, por exemplo. Essa parte de tirar o máximo de informações sobre quem está do outro lado não cabe a nós, isso foge do nosso controle”, ressalta.

Para o psicólogo especializado em sexualidade Claudio Picazio, as relações sugar estão se popularizando por aparentarem oferecer mais vantagens do que outras. “De uma forma ou outra, todos nos sentimos sozinhos o que nos faz querer buscar relacionamentos com potencial para dar certo.” Segundo ele, o diferencial dessas relações é o que chama de honestidade emocional. “Diferente de outras aproximações amorosas, nos vínculos sugar as expectativas de cada um são bem claras, ambas as partes sabem o que estão buscando, o que é um ponto que facilita a aproximação entre essas pessoas, independente das diferenças sociais, financeiras ou de faixa etária”, explica.

Não há leis que proíbam ou regulamentem o uso de plataformas digitais do universo sugar no Brasil. Para a advogada Maíra Cardoso Zapater, esse tipo de relacionamento não se difere de outros que ocorrem em aplicativos, como o Tinder ou o Happen. “As pessoas estão lá fazendo o uso de um aplicativo pela sua livre vontade”, destaca.

Quando questionada sobre a comparação entre relacionamento sugar e a prostituição, Zapater afirma que isso é subjetivo. “É mais uma questão moral e social do que jurídica”, ressaltando que em ambos os casos nenhum é considerado crime.

* Os nomes dos personagens dessa matéria foram alterados para preservar a privacidade dos entrevistados.

 

 

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