E o “B” da sigla LGBT, cadê?

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Eles existem. Apesar dos bissexuais serem invisibilizados dentro da sociedade e da própria comunidade LGBT, o “B” não existe por acaso

 

REPORTAGEM: Anna Laura Moura e Carolina Andrade
EDIÇÃO: Gabriel Coccetrone

 

Em uma sociedade onde ser heterossexual é considerado “normal” e “correto”, gays e lésbicas acabam sofrendo uma discriminação direta por terem orientação sexual distinta do “padrão”. Porém, a sigla criada para dar visibilidade a outras identidades e sexualidades também inclui os transsexuais e os bissexuais, que, como os outros, sofrem discriminação no tecido social. No caso dos bi, muitas vezes essa situação não é reconhecida nem dentro da comunidade LGBT – quiçá no restante da sociedade.

Os bissexuais representam menos de 10% da população mundial, sendo que cerca de 2,2% das mulheres e 1,4% dos homens se identificam se definem desta forma, de acordo com o Instituto Americano de Bissexualidade.

Fritz Klein fundou o Instituto em 1998, e seus estudos são considerados grandes marcos para entender essa orientação e os motivos pelos quais ela é tão invisibilizada. Ele descreve a bissexualidade como “uma pessoa cuja atração sexual e romântica não se limita a apenas um sexo”. Entretanto, isso não significa, por exemplo, que a comunidade bi apenas tenha relações poligâmicas.

Afirmar que “todos são bissexuais” ou que a “bissexualidade é um momento de indecisão ou transição” acaba contribuindo para diminuição de sua importância. Ou mesmo para o preconceito, ou simplificando, bifobia.

A bifobia, de acordo com os estudos de Klein, acontece quando os bissexuais são ignorados, excluídos, demonizados ou invisibilizados tanto pelos heterossexuais, como pelas comunidades lésbicas, gays e trans. A exclusão ocorre quando a orientação é vista como inválida, imoral ou irrelevante. É o que acontece com os bissexuais, quando suas necessidades não são atendidas e sua própria existência é questionada.

De acordo com a psicóloga Milena Cristina, especialista em psicologia clínica, saúde mental e sexualidade, grande parte dos seres humanos possui dificuldades em aceitar uma sexualidade caso ela não se encaixe no normativo. Mas a cobrança imposta pela sociedade para que os bissexuais “tomem uma decisão” e “tenham uma preferência” é um fator relevante para o preconceito ao redor do gênero. Ela ainda afirma que a sociedade não tem informação o suficiente sobre gênero, o que contribui para a discriminação sofrida pelos bi.

A bifobia como discussão

Membros da comunidade LGBT, heterossexuais e mulheres que fazem ou não parte do movimento feminista dividem opiniões, fazendo com que a questão da bifobia se torne temas de rodas de conversa e discussões.

Para a feminista Natália Griguol, o caso não deve ser medido por níveis de preconceito. “Eu não acho que bissexuais sofram mais do que gays e lésbicas, pois dentro do grupo de pessoas não-hétero todo mundo é oprimido da mesma forma”, conta. Já a também feminista Sabrina Souza pensa diferente. De acordo com ela, o bissexual é alvo apenas de homofobia, ou seja, somente quando está em uma relação com alguém do mesmo sexo. “Uma mulher bi nunca sofrerá preconceito quando se relacionar com um homem”, opina.

Um grupo que costuma se manifestar bastante sobre a existência da bifobia é a vertente radical do movimento feminista. As “radfem” possuem pautas legítimas, mas ao mesmo tempo são alvo de muitas críticas. Para Bruna Loiola, aderente ao  movimento, afirmar que bifobia não existe é um apagamento da luta bissexual pela representatividade. “Há bifobia só pelo fato de serem bi, assim como lésbicas e gays sofrem por serem homossexuais”, diz. Já para Tamiris Gaelzer, o termo nem deveria existir. “Usar ‘bifobia’ é um jeito bem desonesto de se falar, pois coloca homossexuais no mesmo patamar que héteros quando se trata das violências que um bi sofre”, aponta.

Para parte das militantes, o apagamento bissexual também ocorre dentro do próprio grupo LGBT. A maioria das denúncias alegam que gays e/ou lésbicas sentem repulsa do bissexual, por este possuir contato com o sexo oposto à orientação sexual de tais grupos citados. Para elas, independente do conceito de bifobia existir ou não, o bissexual acaba sendo visto como excêntrico, por ficar “em cima do muro”.

A bifobia fora do movimento feminista

Lucia Virginia Pimenta não se vê como feminista e acredita que o movimento não inclui as mulheres bissexuais na luta. Ela, que é bi, acredita na existência da bifobia e afirma que já perdeu amigos por conta de sua orientação sexual, além de se ver obrigada a esconder da família sua orientação.

“As pessoas, principalmente em movimentos sociais, estão cem por cento nem aí para eles [os bi]; Pouco se leva em consideração o que pessoas bi sentem. Algumas pessoas do movimento LGBT se sentem no direito de ofender pessoas bissexuais e zombar da bissexualidade só porque também são minoria”.

Outra bissexual que não gostaria de se identificar também não se considera feminista pelas diversas falhas que afirma existir dentro do movimento, alegando que ele não reflete a realização das mulheres dos países subdesenvolvidos, especialmente as não brancas e periféricas. Ela alega que não acredita em bifobia, mas que já sofreu preconceito por gostar de meninas. “Acredito que  a violência que sofro é por gostar de mulher, especificamente.”

A bifobia para os bissexuais

Rebeca Emy, bissexual, afirma que sempre viu sua sexualidade como algo natural, apesar de se ver reprimida pela não-aceitação de seus pais. Ela conta que se relaciona mais com mulheres, principalmente as bi, porque sente que recebe um tratamento diferente de meninas lésbicas dentro da comunidade LGBT.

“É dentro da comunidade que se espera acolhimento. No entanto, o bissexual ainda é marginalizado principalmente pelas comunidades gay e lésbica. Por exemplo, muitas lésbicas evitam se relacionar com mulheres bi porque têm medo que elas as troquem por um homem, ou se sentem “enojadas” pela mulher bi que já se relacionou com um homem. Muitos bissexuais, inclusive eu, acabamos nos aproximando mais das comunidades não-cisgêneras (transexuais e não-binários) por conta do preconceito em relação a biologia da pessoa transgênera (muitos são também rejeitados por não terem a genitália “esperada”)”, desabafa.

Uma militante bissexual que não quis se identificar, administra uma página com conteúdo bi na rede social Facebook. Ela conta que recebe diversos ataques por conta dos posts que envolvem textos explicativos, denúncias anônimas feitas por seguidores (as) e, às vezes, humor, mas sempre relacionadas à bissexualidade.

“Eu já recebi muitos ataques e questionamentos. A maioria são de pessoas conservadoras, o que é de se esperar. Porém, alguns argumentos preconceituosos vem de meninas feministas ou militantes do próprio movimento LGBT”, conta.

As críticas, de acordo com a administradora da página, vão desde julgar o conteúdo como “vulgar”, até questionar se há a necessidade de uma página sobre bissexuais, pois existem “outras orientações sexuais mais importantes que merecem mais visibilidade”.

“É importante ressaltar que o preconceito que sofremos quando estamos com alguém do mesmo sexo que nós é homofobia. Acredito que é bifobia quando duvidam da nossa orientação, não quando nos relacionamos com x ou y. Aí acredito que seja homofobia e/ou lesbofobia”, explica.

A entrevistada já ouviu comentários ofensivos durante a própria Parada do Orgulho LGBT. “Tem algumas pessoas que nem disfarçam o apagamento. Bastava surgir um ou mais militantes segurando a bandeira com as cores da bissexualidade, que eu conseguia ouvir comentários ofensivos e descriminatórios vindo de gays e lésbicas, como “olha lá os indecisos”. É como se não fossemos bem-vindos ali”, desabafa.

“Ouçam o que temos pra dizer. A ideia não é competir quem sofre mais opressão, mas não dá pra ignorar que sofremos também e somos invisibilizados. Não da mesma forma que outros grupos oprimidos, mas somos. Ninguém está a salvo”, conclui a militante.

A bifobia para os homens

A opressão contra os bissexuais não afeta somente as mulheres: os homens bissexuais também sofrem com essa invisibilidade. De acordo com Rafael Souza, bissexual, a opressão existe para ambos os sexos, porém se manifesta de formas diferentes.

“Por ser homem, é lógico que não somos fetichizados como as mulheres são quando se relacionam com outras mulheres. Elas são erotizadas”, explica Rafael.

“O que acontece com os homens bis é a condenação. Somos vistos como ‘menos homens’ se somos bissexuais. Se estou com um cara, sofro homofobia, mas se estou com uma menina e sou bissexual, as pessoas acham que eu sou mal resolvido ou que não gosto de mulher o suficiente, usando de fachada. E se eu gostar dos dois?”, questiona.

Além disso, Rafael afirma que o machismo é um agravante para essa condenação. “Existe essa cobrança de que eu preciso ser um padrão másculo. E pra isso eu preciso pegar muita menina. Eu gosto de mulheres, mas se eu faço o mesmo com homens, perco a minha credibilidade masculina. As pessoas não me consideram um homem, me consideram um ‘nada’”, desabafa.

 

Foto: Reprodução

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