A negligência com animais de rua pode causar problemas de Saúde Pública

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Especialistas explicam o que fazer para diminuir o número desses animais

*Por Gabriel Gameiro, Pedro Battesini e Tatiana Maria

“Meu ex-marido estava no mercado e uma mulher começou a gritar. Afugentou uma gata que deixou um filhote de dez dias para trás”.

Esse animalzinho seria chamado mais tarde de Lukas Podolski, e entraria na vida da atriz Juliana Preto para mudar sua rotina completamente. Devido à idade prematura, o bichano precisou ser amamentado pela atriz, que parava todas suas atividades para dar mamadeira para o gatinho de duas em duas horas.

Essa é uma das seis histórias de resgates feitos por ela. Os outros cinco gatos são:  Amélie Poulain, Michael Jordan, Ross, Mônica e Mia.

Juliana é voluntária na organização não-governamental Confraria dos Miados e Latidos. Lá conheceu sua primeira gata, Amélie, após ouvir que o animal havia sido atacado por quatro cães e perdido seus bebês. Ela não quis saber de outra gata, apaixonou-se e levou-a para casa.

Para ela, o amor que animais resgatados dão é algo indescritível. “Eles me tiraram de uma depressão, sempre me fazem rir, me ensinam a amar de maneira que não exista dominação entre as partes; me dão carinho, amor e companhia”, afirma.

Já a estudante de Relações Públicas, Aline Demore, também teve suas primeiras gatas a partir de um resgate. Sua amiga encontrou uma gata prenha e a levou para casa e, logo após algumas semanas, se mudou com a família, levando junto consigo a nova mascote. Depois que a gata teve os filhotes, a amiga de Aline voltou para abandoná-los em sua antiga casa vazia.

Quando Aline soube foi buscá-las e, assim, Fantasma e Banguela chegaram em sua vida. Anos depois, adotaria uma gata idosa chamada Etta James – as três moram com a estudante e seu namorado até hoje. “Minhas gatas são lindas, saudáveis e gordinhas. Me dedico o máximo que posso a elas”, afirma Aline.

A Confraria dos Miados e Latidos acolhe animais de rua que sofreram algum acidente ou que vem de algum caso de acumulação (Este tipo de doença é caracterizada pela acumulação excessiva de animais. É muito perigosa, pois gera condições de vida precárias e graves, para os animais e para os humanos, e superlotação nas casas. Essas pessoas recolhem animais, mantendo dezenas ou centenas deles em um local inadequado).

Atualmente, a ONG está com 140 gatos sob sua tutela. Um deles chama-se Trischa, que chegou junto com seus irmãos e foi diagnosticada com uma rinotraqueíte (uma doença aguda, muito frequente nos gatos, que afeta, principalmente, o trato respiratório superior e surge durante o primeiro ano de vida do gato) e, tratada incorretamente, veio a perder um de seus olhos. Seus quatro irmãos já foram adotados, incluindo Anne, a única que perdeu os dois olhos. Trischa ainda espera adoção na sede da organização, em São Paulo.

Trischa, a gata que perdeu um olho devido a rinotraqueíte – Foto: Gabriel Gameiro

Nem todos os gatos têm a sorte de encontrar pessoas como Juliana, Aline ou uma ONG. O abandono de animais nas ruas ou a procriação descontrolada, além de ser uma crueldade, pode também levar a problemas de Saúde Pública, como o aumento da transmissão de doenças em seres humanos. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, estima-se que só no Brasil existem mais de 30 milhões de animais abandonados – 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães.

No início dos anos de 1980, os animais eram retirados da rua em uma situação muito parecida da que ocorria nos Estados Unidos, o catch and kill (captura e morte). Aqui no Brasil quem tinha esse papel era o centro de controle de zoonose, com a conhecida “carrocinha”. Em 1998, foi criada com a lei Federal nº. 9.605, a política anterior foi alterada para um tratamento mais digno para com os animais.

Com isso, a castração passou a ser utilizada como meio de impedir que os animais se reproduzissem nas ruas. Hoje, o centro de controle de zoonoses deixou de ser um “campo de extermínio” e passou a ser um local de abrigo para animais que esperam um novo lar.

Cães de rua em praça na cidade de São Paulo- Foto: Milton Jung/Visual Hunt

Mas o poder público não tem encarado a situação com as devidas políticas. Para a jornalista e ativista Silvana Andrade, fundadora e presidente da Agência de Notícias de Direitos Animais (Anda), que reúne biólogos, veterinários, advogados, promotores públicos, entre outros profissionais, a sociedade realiza o papel que deveria ser desempenhado pelo governo estadual e municipal essa área “A sociedade civil pega para si a responsabilidade do abandono dos animais, situação que deveria ser realizada através de políticas públicas efetivas”, afirma.

Para ela, a prefeitura deveria ter uma “política de castração em massa dos animais em situação de rua” e promover feiras permanentes de adoções. Segundo ela, é mais ético, barato e fácil castrar animais e buscar adoções, do que permitir e aplicar a eutanásia como política de controle.

O veterinário Leandro Almeida concorda com ela. “Investir em campanhas para castração de todos os animais e promover feiras de adoção para que esses animais possam ter um lar e recebam todos os cuidados adequados são as melhores opções que temos para a diminuição da quantidade de animais de rua”, explica.

“Muitas pessoas ainda têm ideia de cães e gatos como se fossem brinquedos, que você escolhe ter e, depois, desiste facilmente”, conta a bióloga especialista em zoologia Izilda Gutierrez. “Para isso mudar, ONGs e criadores de animais deveriam explicar aos adotantes ou compradores que o animal dá trabalho”, afirma a bióloga. Isso, segundo ela, evitaria boa parte dos abandonos. “Esse desbalanceamento do ecossistema das cidades acontece por uma série de intervenções feitas pelo homem sem dar a mínima de importância a seus semelhantes e a vida de outros animais.”

Outra medida, segundo ela, é o monitoramento do governo sobre o comércio e reprodução dos animais, com intensa fiscalização e restrição aos criadores e lojas. Silvana relata que há diversos casos de procriação indevida onde não é respeitado o tempo mínimo de gestação, nem a saúde do animal. “A reprodução deveria ser restrita a uma cria por ano”, explica.Ela ressalta a importância da fiscalização e da punição dos crimes de maus tratos e abandono, conforme determina a lei 9.605/98.

Na Grande São Paulo o número de animais marginalizados é de, aproximadamente, 2 milhões. E não são apenas esses casos os preocupantes, muitas pessoas ainda tratam seus animais como mercadorias descartáveis, mesmo com a difusão da ideia de considerar os bichos como integrantes da família.

O número de gatos doados não supera a quantidade de pedidos de ajuda feitos para ONGs receberem os animais. Para Tatiana Cunha, cofundadora da Confraria dos Miados e Latidos, alergia, mudança de casa e separação são as principais razões para o abandono. “Isso tudo pode ser resumido em falta de compromisso”, afirma.

Em dez anos de existência da organização, muitos animais em estado  grave por conta da violência sofrida foram retirados das ruas, tratados e colocados para adoção.

“Dois deles foram Van Persie, um filhote de 6 meses vítima de espancamento, fratura na mandíbula e olho fora da órbita. E Amon, um filhote macho de 8 meses, com hiperplasia mamária [o crescimento excessivo e rápido das glândulas] por ter recebido injeção anticoncepcional como se fosse uma fêmea. As mamas eram mais pesadas que o restante do corpo e supuraram”, lembra Tatiana.

Um dos quartos da ONG, com gatos resgatados – Foto: Gabriel Gameiro

Para os animais que não podem ser resgatados e acabam permanecendo nas ruas, uma opção é o CED (castração, esterilização e devolução). “Essa prática ajudaria, pois a castração garante, mesmo na rua, maior qualidade de vida (reduz abandono, brigas)”, explica Tatiana.

As doenças que um animal em situação de rua pode adquirir vão desde verminoses, sarnas e infestação por pulgas e carrapatos até doenças mais graves, como a cinomose, parvovirose e leptospirose, principalmente por serem animais que não estão vacinados e vermifugados.  “Pode haver manifestação de dermatites, anemia, febre, perda de apetite, vômitos, diarreia, convulsões e até mesmo óbito”, explica o veterinário Leandro Almeida.

Saúde Pública

Diversas doenças podem ser transmitidas pelos animais aos seres humanos. Dentre elas, destacam-se a raiva, a leptospirose e a giardíase, as duas primeiras sendo letais. A raiva é uma doença que não tem cura. Um animal não vacinado contra a raiva que contrair essa a doença inevitavelmente morrerá.

Por outro lado, um humano exposto a qualquer risco de infecção pelo vírus da raiva (como mordidas de animais desconhecidos) deve procurar imediatamente dentro de poucas horas serviço especializado para receber soro e vacinas contra o vírus”, explica o veterinário. (No caso da cidade de Sao Paulo, o Instituto Pasteur, sediado no Hospital Emilio Ribas).

Além de todas as doenças que podem afetar um animal domiciliado, o animal de rua também está exposto a todas as doenças infectocontagiosas as quais não está protegido (vacinado). Dentre elas, a raiva, cinomose, o animal apresenta febre que pode chegar até os 41º C com perda de apetite, apatia, vômito e diarréia, corrimento ocular e nasal; parvovirose, uma doença altamente contagiosa, caracterizada por diarreia com sangue; leptospirose, adenovirose, uma das principais causas de problemas respiratórios, essa doença pode provocar outras complicações graves como, por exemplo, a hepatite infecciosa canina e a gripe dos cães; giardiase, dentre outras menos comuns.

Cada uma dessas doenças requer diagnóstico e tratamento profissionais específicos. “Algumas, como a cinomose e a raiva, costumam ser letais. Outras, como a parvovirose e a coronavirose, podem requerer internação do animal e cuidados de terapia intensiva, de difícil acesso para um animal de rua”, explica Leandro. Outras doenças, como a giardiase e a bordetella, não costumam ser letais, e mesmo sem o tratamento correto podem ser auto limitantes (ou seja, podem se curar ou ficar em estado latente de incubação) em um animal com boa imunidade, porém a vacinação pode evitar o contágio desnecessário.

Cada doença tem um meio de transmissão específico. A raiva é transmitida pela mordida ou arranhadura de outros mamíferos contaminados. Já a cinomose, bordetella e parainfluenza se espalham através do ar ou por contato com secreções de animais infectados. A parvovirose, coronavirose e a giardiase são transmitidas principalmente por contato com fezes de animais portadores destas doenças. Por fim, a leptospirose é transmitida pelas secreções de animais contaminados, mas em especial pelo contato com a urina dos ratos. “Outras doenças tem seus meios específicos de transmissão, porém as citadas acima são as de maior prevalência e importância na rotina clínica diária”, afirma o veterinário.

Um dos pontos primordiais para diminuir a quantidade de animais de rua, além da castração. É a conscientização do que é ter um animal em casa. Foi isso que aconteceu com o estudante de cinema Pedro Paulo Mello. Ele queria adotar um gato, até que um dia quando foi buscar uma entrega na porta de seu prédio foi “adotado” por um gato que morava em sua rua e o seguiu até sua casa. “Quando fui buscar minha comida vi o gatinho que morava na minha rua atrás de mim, já havia visto que algumas pessoas tentavam alimentá-lo mas sem muito sucesso”, afirma Pedro. Hoje o gatinho se chama Ziggy, e mora com Pedro e seus pais.

No primeiro dia com o gato Pedro não sabia o que fazer, então mandou uma mensagem para um amigo que é voluntário em uma ONG para saber como proceder. “Eu nunca tinha feito um resgate na minha vida, não sabia o que fazer com o Ziggy”, lembra. Depois de instruído, Pedro levou o gato no veterinário, que fez todos os exames necessários e está esperando ele ter o tamanho recomendado pelo veterinário para castrar o animal.

É a doença mais conhecida das zoonoses. Transmitida pelo contato com a saliva de um cão doente, a doença pode demorar até dez dias para se manifestar no animal infectado e, em quase 100% dos casos, é fatal. Entre os principais sintomas da raiva canina, estão sintomas de agressividade ao animal, salivação excessiva, paralisia e mudanças de comportamento, que podem fazer seu pet deixar de ser alegre e festeiro para se tornar depressivo e retraído. Considerada incurável, a raiva tem na vacinação a sua única forma de prevenção eficiente. Uma vez que essa pessoa começa a exibir sinais e sintomas da raiva, a doença é quase sempre fatal. Por essa razão, qualquer um que pode ter um risco de contrair a raiva devem receber vacinação antirrábica para a proteção. O tempo real entre a infecção e o aparecimento da doença varia muito – ser de dez dias a sete anos. Sintomas: Babar em excesso, convulsões, sensibilidade exagerada no local da mordida, excitabilidade, perda de sensibilidade em uma área do corpo, perda de função muscular, febre baixa, espasmos, entorpecimento e formigamento, dor no local da mordida, agitação e ansiedade e dificuldade de engolir.

Cão com raiva Foto: Mat Hayward/Fotolia

Uma doença provocada pelo protozoário Giardiaspp. Esse protozoário habita naturalmente o trato intestinal dos seres humanos e da maioria dos animais domésticos. Essa doença é considerada uma zoonose, por isso precisa ter uma atenção especial no manuseio das fezes e na limpeza do ambiente e das mãos. A giardíase em gatos e cães tem caráter grave, pois se observa uma forte desidratação, letargia e perda de apetite. Os filhotes podem apresentar casos de diarreia aguda logo após a infecção. Em gatos adultos, os casos de diarreia acontecem, porém em curta duração, intermitentes e crônicos. O contato com água, objetos e alimentos infectados também transmitem a doença em gatos e cachorros: mais jovens ou com alguma deficiência imunitária podem apresentar maiores chances de contrair a giardíase. Formas de prevenção Higiene do ambiente onde vivem as pessoas e seus animais. Os cistos da giárdia são muito sensíveis ao ressecamento e à maioria dos produtos desinfetantes. Higiene pessoal, educação sanitária, incluindo lavar as mãos após uso do banheiro, filtrar a água poável e saneamento básico, no caso dos humanos. Sintomas: Diarreia aquosa, às vezes acompanhada de um mau cheiro que podem se alternar com fezes moles e gordurosas; fadiga ou mal-estar, cólicas abdominais e inchaço, arroto com um gosto ruim, náusea e perda de peso.

Filhote de cachorro em tratamento Foto: uvight/Fotolia

É transmitida por uma bactéria presente na urina de alguns ratos contaminados e, dessa forma, pode estar presente também em águas das enchentes. Mas, essa não é a única forma de transmissão, qualquer contato com um rato ou com a urina dele pode ser perigoso. Por isso, é importante ficar de olho, principalmente, nos cachorros e gatos que vivem para evitar que eles contraiam a leptospirose. Um cachorro contaminado pode ou não apresentar os sintomas da leptospirose. Isso acontece porque a bactéria age de maneiras diferentes em cada organismo, então alguns cães podem não apresentar os sintomas mais comuns, dificultando o diagnóstico. Quando existem sintomas, dentre eles estão: mucosas (olho e gengiva) amareladas e aparecimento de lesões na boca, hematomas e manchas na pele, mudança no comportamento e depressão (o animal se torna mais triste e cansado), falta de apetite, vômitos, urina com sangue e febre. O tratamento da doença pode ser iniciado antes mesmo do diagnóstico exato ao serem utilizados medicamentos que atingem apenas os sintomas específicos. A melhor forma de prevenção da leptospirose canina é a vacinação. Em humanos: pode variar desde casos leves quase sem sintomas, até outros com dor de cabeça, febre, vômitos, mal-estar geral, conjuntivite, manchas escuras na pele, às vezes icterícia (pele amarelada), meningite, encefalite e casos que podem chegar até a morte. A imensa maioria dos casos de leptospirose é autolimitada e a cura é espontânea. Por isso, ela é habitualmente tratada apenas com sintomáticos e hidratação.

Mucosas amareladas são sintomas da leptospirose Foto: Tretino/Fotolia

* Esta reportagem teve a supervisão de Fernando Oliveira

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