A bola é delas: O contexto do futebol feminino no Brasil

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Jogando para serem reconhecidas em um esporte masculino 

Reportagem: Ubirajara Iglecio e Carolina Gonçalves
Edição: Carolina Abrantes

Elas jogam, treinam, conquistam, são campeãs. As mulheres estão aqui o tempo todo, mas não tão vistas. Infelizmente, no Brasil, a invisibilidade das meninas no futebol faz com que suas conquistas sejam menos prestigiadas do que deveriam. A cultura do futebol é masculina, o que dificulta a veiculação de notícias sobre o futebol feminino.

Em julho de 2017, o time Pinheirense, do Estado do Pará, venceu o Campeonato Brasileiro Feminino de Futebol A2 contra a Portuguesa –  que ficou em segundo lugar. Uma disputa acirrada, mas que, independente do placar, classificou ambas para disputarem a série A1 em 2018. A competição é organizada pela Confederação Brasileira de Futebol e reúne 16 clubes.

Portuguesa vice-campeã Brasileiro 2017 (Foto: CBF/ Cezar Magalhães/AllSports)

A conquista das mulheres foi pouco divulgada na mídia, bem diferente de times masculinos que são notícia a todo momento. Prova disso é que o time masculino da Portuguesa não disputará nenhuma divisão nacional no ano que vem.

A falta de visibilidade e o baixo investimento dos clubes são os principais fatores para que torcedores não acompanhem o futebol jogado por mulheres. O estudante de engenharia civil, integrante da torcida organizada Independente, ligada ao São Paulo Futebol Clube, Matheus Thoma acredita que a falta de incentivo faz o “nível” do futebol feminino ser fraco, além da invisibilidade.

Contudo, para o analista de telecomunicações, integrante da torcida organizada Gaviões da Fiel, Gustavo Chagas há mais um motivo para o futebol feminino não ser assistido no país: o preconceito. Para ele, isso tira o interesse dos torcedores em assistir, mas mesmo assim pensa positivo. “Tenho certeza que isso pode mudar com a entrada de patrocínios, investimentos e melhorias na modalidade para as mulheres.”

Esse ano, a parceria entre o Corinthians e o Audax, clube de Osasco, trouxe o título da Copa Libertadores da América novamente ao Parque São Jorge. Mas pouco se ouviu falar das brilhantes defesas de pênalti da goleira Lelê no jogo da final contra o Colo-Colo, clube Chileno. Impossível comparar com a repercussão do título masculino em 2012 ou com os gols do artilheiro Luan, campeão pelo Grêmio da mesma Libertadores neste ano.

A diretora esportiva do futebol feminino do Corinthians, Cristiane Gambare, reforça as diferenças entre os times masculino e feminino: “Não é justo comparar a modalidade masculina, que inicia sua estruturação após a metade de 1800, com a feminina, que, por anos, foi criminalizada. E, por exemplo, só passou a ser disputada em Jogos Olímpicos em 1996. O futebol feminino já é uma realidade, mas ainda em desenvolvimento”.

Corinthians campeão da Libertadores feminina (Foto: Twitter Conmebol)

Apesar de não ser possível calcular média de público, uma vez que os jogos do futebol feminino do Corinthians têm entrada gratuita, Cristiane ressalta quão positivo foi a conquista do time e como a torcida abraçou a proposta após o título.

“Tivemos um grande número de pessoas acompanhando nossos conteúdos diários nas redes sociais e lendo matérias no site do Corinthians. Antes da final, recebemos muitas mensagens de torcedores, em vídeo, todos passados para as atletas. E, após o título, fomos acolhidas de uma forma incrível pela Fiel”. Apenas os times do Santos e do Corinthians são campeões da Libertadores nas modalidades masculina e feminina.

Muitas são as dificuldades de um time feminino. No Brasil, ainda há a crença de que não é rentável investir na categoria. Um exemplo é a premiação para as campeãs brasileiras da modalidade. Se no Campeonato Brasileiro feminino, a equipe campeã (no caso deste ano o Santos), levou por volta de R$ 120 mil, os campeões nacionais masculinos (Corinthians) levaram por volta de R$ 17 milhões. Um prêmio 140 vezes maior que o recebido pelas atletas.

Por conta da falta de recursos, muitos clubes promoveram parcerias para viabilizar a disputa do principal torneio nacional da categoria. O Coritiba emprestou o uniforme para o Foz de Iguaçu. O Flamengo fez parceria com a Marinha carioca. O time do Paysandu emprestou algumas jogadoras e comissão técnica para disputarem o Brasileirão Feminino A2 pelo Pinheirense e o Corinthians contratou, por empréstimo, a maioria das jogadoras do Audax. “A parceria surgiu do desejo do Corinthians de retomar a modalidade no clube e a expertise de um ano do time osasquense nela”, afirma Cristiane.

Ainda assim, o objetivo dos envolvidos é profissionalizar cada vez mais a modalidade, transformando-a em algo sólido. As parcerias são como medidas paliativas à falta de investimento na mulher como protagonista. Ao fim dos campeonatos, a maior parte delas também acaba e a estruturação e planejamento para o ano seguinte vira uma incógnita, tanto para a jogadora, quanto para o clube – salvo algumas exceções que já possuem uma história de investimento na categoria. Como Santos e o Iranduba, clube amazonense que desde sua criação, em 2011, disputa os principais torneios da categoria.

A atacante artilheira da Série A2 e campeã pelo Pinheirense, Irley Granhen, passou por esse processo ao ser emprestada pelo Paysandu. Com 23 anos e mãe de duas filhas, Irley treina todos os dias e conta com a ajuda da sua mãe. Além dela, outras sete jogadoras e a comissão técnica foram emprestadas para disputar o Brasileirão, mas com o fim do campeonato, todas voltaram para o Paysandu.

“A partir do momento que fomos emprestadas era total responsabilidade do Pinheirense [arcar com o salário]. Fechamos um valor por jogo e a premiação. E todo o dinheiro que entrava no clube tinha que ser dividido com as atletas e comissão técnica e, no final, o clube não cumpriu”, contou. Devido esses problemas com o time do Pinheirense, em conjunto, decidiram retornar ao Paysandu e hoje disputam o campeonato Paraense de Futsal.

Pinheirense-PA campeã do Brasileiro 2017 (Foto cedida por Irley Granhen)

Segundo a jogadora, há muitas dificuldades no Norte, mas graças ao título do Pinheirense, neste ano, novas portas estão se abrindo para mudar essa realidade. “Hoje, no Paysandu, não encontramos tanta dificuldade, pois eles nos dão suporte. Mas poder viver só de futebol, aqui no Pará, foge da nossa realidade. Para ser do jeito que sonhamos, ainda falta muito”, disse.

Pensando no crescimento do futebol feminino, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) implantou uma nova medida nessa categoria: a obrigatoriedade de investimento aos clubes classificados para a Copa Libertadores da América, que passará a valer a partir de 2019. Ou seja, os times que forem jogar o campeonato a partir daquele ano só poderão participar se tiverem equipes femininas.  

Para a comerciante Erica Jacobucci, 40, integrante da torcida organizada Gaviões da Fiel, a medida tem boas intenções, mas a obrigatoriedade, para ela, não é justa. “Fazer essa junção de só pode competir se tiver time feminino é ridícula e absurda. Acho também que eles querem é faturar mais dinheiro com isso”.

Já para o mensageiro do Itaú Luccas Silva, 19, integrante da Torcida Jovem, ligada ao Santos, e a estudante de publicidade e propaganda Mayara da Costa, 21, torcedora do Palmeiras, a medida adotada pela Conmebol só tem a acrescentar. “O futebol feminino vai crescer demais com isso. Mas desde que eles não voltem atrás daqui um tempo”, disse Luccas.

O Gerente de Imprensa da Conmebol, Miguel Ortiz Granada contou que a decisão foi tomada pelo Conselho da Confederação para acelerar o processo de divulgação do futebol feminino. “Se os clubes de futebol mais populares de cada país tiverem suas equipes femininas, será mais acelerado o processo de aproximar o futebol feminino com os fanáticos pelo esporte.”.

O futebol feminino ainda está longe de ganhar os holofotes, já que o esporte é uma tradição masculina. Mas, para ajudar na visibilidade da categoria, a Confederação afirma investir financeiramente na modalidade. “Esses esforços incluem fortes investimentos financeiros para organizar torneios no nível do clube e em diferentes categorias de idade”, concluiu Ortiz.

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