Exclusão dentro da inclusão

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Como as escolas devem se preparar melhor para receberem alunos com deficiência auditiva

Texto: Gabriel Coccetrone, Juliana Ruiz e Pedro Ruffo

Edição: Carolina Abrantes

“Eu não consigo me comunicar por nenhum meio que tenha como ferramenta apenas o aparato da audição. Não consigo falar ao telefone, usar o interfone, conversar em grupo, no escuro ou de costas”, conta Alice Rodrigues, 22 anos, que nasceu surda.

O tema da redação do Enem, deste ano, que propôs uma discussão sobre os “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”, levantou um debate sobre como melhorar a inclusão de alunos com deficiência auditiva nas salas de aula.

A lei nº 10.436/2002 reconheceu a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como a segunda oficial do País. Além disso, o artigo 27 da Constituição Brasileira assegura que “a educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem”.

Mas, além dos professores e funcionários de uma escola, é preciso conscientizar os outros alunos sobre a importância da inclusão. Assim, é tomado o devido cuidado para que ela não se torne uma exclusão mascarada, ou seja, uma tentativa de inclusão que, por falta de preparo e conscientização, só exclui mais os alunos dentro do ambiente escolar.

A educadora Maria Teresa Égler Mantoan, autora do livro “Inclusão Escolar: O que é? Por quê? Como fazer?” explica que não existe preparo por parte das escolas regulares em relação aos alunos com deficiência. “É como ter um filho, você não se prepara antes, mas vai se adaptando e dando o melhor de si quando ele chega”.

E isso vale para qualquer aluno, não só aqueles com deficiência. As escolas precisam atender a necessidade de cada um individualmente, da melhor forma possível. O importante, segundo Mantoan, é não diferenciar, já que isso causa descriminação e é crime. Ou seja, no caso da possibilidade de uma alfabetização de língua de sinais, ela deve estar disponível a todos os alunos que quiserem participar.

Para um aluno surdo é necessário um professor de Libras, um intérprete para outras matérias e uma professora de atendimento educacional especializado, que vai oferecer todo o apoio e orientação. A presença de um intérprete é necessária porque não adianta o professor de Libras querer ensinar outras matérias. Como explica o coordenador do curso de Letras do Instituto Singularidades, Marcelo Ganzela defende que o melhor professor para dar aula de português é um professor formado em português, assim como o melhor a dar aula de ciência é o professor de ciências. E os alunos surdos ou com deficiência auditiva devem ter o direito de aprender com estes educadores.

Maria Teresa Mantoan afirma que qualquer criança deve estudar em uma escola comum, impreterivelmente. “Escolas especiais são a pior situação que um aluno com qualquer tipo de deficiência pode estar, porque fora da escola eles vão viver com todos os tipos de pessoas e não segregados em grupos”. O professor Marcelo Ganzela partilha do mesmo ponto de vista. Ele ainda complementa que o convívio do aluno com deficiência em uma escola regular é importante não só para ele, mas também para os outros colegas, que ao longo da vida vão cruzar com essas pessoas. Além de respeitá-las, precisam aprender desde cedo quais são suas necessidades.

A escola deve funcionar como uma micro sociedade, ela também serve como um exercício para ensinar a viver com outras pessoas. Portanto, se os alunos com deficiência são privados de estudarem em escolas comuns, fica carente o desenvolvimento social tanto deles quanto o das outras crianças.

Alice Rodrigues fala que o fato de ser surda importou bem menos da infância do que na adolescência. “Eu tive bons amigos, mas muitas vezes as pessoas vão desistindo de você, de tentar te entender. E, por isso, eu comecei a ficar com receio de expor a minha deficiência. À medida que eu fui ficando mais velha, a minha vida social ficou mais complicada”.

De acordo Maria Teresa Mantoan, crianças que começam a conviver com outras pessoas em escolas regulares quando mais velhas sentem mais dificuldade. E não é que haja bullying explícito contra elas, mas muitas vão desacreditando em seu potencial. E isso que acaba causando o isolamento.

Em relação às escolas públicas e particulares, Marcelo Ganzela, que já lecionou em ambas, aponta que é uma ilusão achar que as privadas estão mais preparadas que as públicas. “Existem escolas mais ou menos avançadas nessa discussão, independentemente da esfera”. E para Maria Teresa Mantoan por pior que seja uma instituição de ensino, é mais importante estar nela, do que estar em uma especial. “O aluno está certo de preferir a escola regular, a partir disso, ela que deve se adaptar para recebe-lo” e, no caso dos surdos, ela conta que, muitas vezes, eles mesmos tomam a iniciativa e ajudam na adaptação.

Contudo, muitas instituições ainda temem em aceitar alunos com algum tipo de deficiência ou não oferecem o aparato necessário a eles. Nesses casos, Maria Teresa Mantoan indica a importância da fiscalização e denúncia dos pais, Eles têm o papel de ficar atentos ao que acontece nas escolas e caso haja algum tipo de descriminação, denunciar ao Ministério Público. E as Secretarias precisam estar de olho aos casos, para garantir o respeito aos direitos das crianças de serem educadas em lugares regulares. Mas ela pede aos pais que não insistam em escolas que recusarem seus filhos, por causa do constrangimento. A luta é válida e deve ser levada em frente em prol de outras crianças, mas quando uma não é aceita ela em si deve procurar outro lugar em que seja bem vinda.

 

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