Corpo nu e a tempestade em copo copo d’água

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Por Felipe Augusto de Souza

O mês de agosto foi marcado por fortes acontecimentos envolvendo a arte no Brasil. A exposição Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira, que estava em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre, foi cancelada e acusada pelo conteúdo de algumas obras. Às criticas em grande parte vieram por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) que acusaram a mostra de conter conteúdo de zoofilia, pedofilia e blasfêmia.

Não é novidade que a extrema direita tem ganhado força no país, reflexo disso foram as inúmeras acusações e compartilhamentos nas redes sociais de pessoas que apoiavam a censura e o cancelamento da mostra. De lá para cá, alguns meses após o episódio que fere a liberdade de expressão, muito se discute sobre a força da bancada evangélica e de movimentos como o MBL.

Para a psicóloga Rafaela Soares, o episódio denota o discurso distorcido por parte de alguns líderes religiosos e até mesmo de pessoas comuns que pactuam com o conservadorismo. “A sociedade brasileira tende a conservar idéias de tradicionalismo ao longo de sua existência, mantendo alguns padrões moralistas, alguns deles impregnados na nossa cultura. Esses grupos tendem a propagar essas discussões de forma isolada e irresponsável, desconsiderando todas as partes envolvidas e é ai que está o perigo, essas afirmações geram mais preconceitos em uma sociedade ainda muito fechada”.

O caso de Porto Alegre não foi o único, recentemente o mesmo grupo criticou a atuação no Museu de Arte Moderna (MAM), onde um ator era colocado no centro da sala, nu, e as pessoas ao redor interagiam com o homem. O assunto ganhou fôlego e acusações de pedofilia quando uma criança de aproximadamente 5 anos tocou o pé do ator em cena, que estava deitado no chão.

Estamos vivendo um novo surto, casos assim já foram usados anos atrás, e são conhecidos como período da arte degenerada —termo utilizado pelo regime nazista para descrever toda a arte moderna; proibindo os artistas de exibirem ou venderem a própria arte e, em alguns casos, proibidos de produzir a arte. A utilização da arte como objeto de persuasão não é novidade e Luciana Pasqualucci, pesquisadora de Doutorado em Educação acredita que esse tipo de censura não é algo recente. “A arte já foi usada em outros tempos como meios de persuasão política, isso não é algo novo. Penso que o  fato não está acontecendo apenas por parte das pessoas que dizem “a arte da pedofilia, arte do capeta”, isto também é responsabilidade das pessoas que recebem e acatam”.

Entender arte no Brasil ainda é uma discussão que precisa ser debatida, e a pesquisadora acrescenta que esse entendimento só será possível com trocas e diálogos. “Os sentidos da arte são construídos através de repertórios, e também, com esse movimento dialógico entre as pessoas e entre os conhecimentos das pessoas. Esses grupos utilizam da persuasão para convencer outros grupos do que eles querem”.

Com o discurso da “preservação da família” os movimentos extremistas estão pautando a sociedade e ganhando seguidores por pregar conceitos religiosos, familiares e políticos. José Mota é estudante de Jornalismo e interessado por arte, procurou aprimorar seu repertório para não ser contagiado por discursos como esse do MBL que fere a liberdade de expressão. “Se eu não tivesse participado de cursos no MAM e MASP, provavelmente não teria enxergado censura. Ainda estamos muito guiados por uma imprensa manipuladora que distorce as informações por interesses próprios. Na escola eu não tive essa educação para absorver  a arte, busquei o conhecimento. Para se ter uma ideia, em um semestre de faculdade tive mais repertório artístico que em todos os anos de colégio”.

Por conta da necessidade em trazer a arte mais para o ambiente acadêmico, universidades como a PUC estão fazendo uma ponte entre estudantes e museus, ampliando esses conhecimentos e trazendo o repertório artístico para a formação do estudante. Luciana é uma das pessoas inseridas no projeto e destaca a importância de falar sobre arte durante o período de aprendizado. “Sou a favor da educação com cultura, porque é por meio da cultura e da intervenção artística que você repensa os seus valores”.

Foi para fomentar o debate e frisar a liberdade de expressão que o Museu de Arte de São Paulo (MASP) trouxe para o Brasil a exposição “Histórias da Sexualidade”,  com o objetivo de estimular o debate tão urgente na sociedade, cruzando histórias, temporalidades, regiões e pessoas. “O MASP, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer de maneira critica e criativa diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais”.

A exposição acontece nos dois pisos do salão, com obras que dialogam com o discurso a cerca da sexualidade e gênero. Nas paredes é possível encontrar obras de Nicolas Poussin, Tracey Moffatt e muitas outras.

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