Vale tudo por experiência?

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Reportagem: Juliana Ruiz e Pedro Ruffo

Edição: Luisa Marchiori

 

Entre plumas, paetês, tesouras e agulhas, os profissionais da moda que escolhem trabalhar neste mercado – provavelmente – têm o grande sonho de estar no comando ou pelo menos integrar uma equipe de criação de uma grande marca. O sonho, a princípio, não é de virar uma costureira, modelista ou assistente de estilo. O mesmo pode-se dizer daqueles que almejam criar as plantas de apartamentos e casas, como no caso dos arquitetos. Ou até os jornalistas, que podem se imaginar trabalhando com prestígio em grandes redações, mas se veem mergulhados entre páginas de textos digitados e vídeos a serem editados em salas de imprensa congelantes. Começar essas carreiras por tarefas simples, menos importantes para entrar nesse mercado parece regra em diversas profissões. Assim, aos poucos, os novatos ganham experiência e têm a chance de mostrarem seus talentos. Mas vale tudo para ganhar experiência e chegar ao sucesso?

Aos 22 anos, Daniel Lima Mineiro é estudante de arquitetura da Universidade Belas Artes e já precisou lidar com escolhas profissionais que envolviam ou não remuneração. Ele foi convidado para fazer uma entrevista em um escritório de arquitetura e logo começou a trabalhar. Mas sem nenhum tipo de remuneração. Sua carteira não foi assinada, assim como suas horas de estágio para validar na faculdade não foram registradas, nenhum contrato, nada. Ele explicou que foi prometido que apenas o primeiro mês seria assim. “Eu aceitei porque trabalho nessa época de crise está bem difícil e a gente não recusa”. Mas, segundo ele, tinha a esperança que passado o mês inicial a proposta se renovaria. Passado o combinado, a época coincidiu com o período em que realizou um grande projeto de uma pizzaria em um shopping. “Eu fiz toda a parte de desenho técnico e de planta porque eu era cartista no escritório”. Depois do trabalho concluído, Daniel conta ter sido dispensado do trabalho sem receber nada, com a desculpa de que o escritório estava sem condições de contratá-lo.

Esta fórmula de começar por baixo e ir ganhando seu espaço aos poucos pode acabar levando os profissionais a desvalorizar seu trabalho e a exercer suas funções com dedicação por pouco (ou nenhum) retorno. Há profissionais que trabalham sem remuneração nenhuma na esperança de que aquele emprego seja uma oportunidade e possa lhe abrir portas. É isso o que chamamos aqui de profissões que pagam com a esperança de rechear e engordar o currículo do profissional: aquelas que ao invés de dinheiro oferecem oportunidades, contatos ou, até mesmo, somente um adendo no portfólio.

Além desta experiência, o estudante trabalhou em outro escritório que exigia três meses de trabalho apenas como um período de adaptação para analisar o perfil do empregado em relação à empresa. “Porém, este período de adaptação é menor… não se estende tanto”, afirma Daniel. “Isso é um costume que muitos escritórios pequenos têm, mas que é bem complicado para as condições de quem é empregado nestas circunstâncias”. Daniel acabou ficando os três meses e, segundo ele, fez várias tentativas de legalizar o estágio, mas o dono do estabelecimento não quis de jeito nenhum estabelecer vínculos, “pois sabia que se estabelecesse, para me demitir depois seria mais conflituoso”.

Isabela Moreno, de 23 anos, formada há seis anos em gastronomia pelo Hotel Escola Senac Águas de São Pedro, conta que ainda recebe propostas para montar cardápios e prestar serviços de consultoria sem receber nada, mas não aceita até para não desvalorizar (ainda mais) o mercado.

O seu primeiro estágio foi em uma cozinha de um restaurante italiano, sem remuneração. Trabalhava 14 horas por dia e ganhava apenas uma refeição no local. Trabalhou, inclusive, na virada da noite de Natal e de ano novo; “lembro de terem sido as vezes mais puxadas, onde entrei às 9 da manhã do dia 31 e saí às 2 da manhã do dia 1, com duas pausas só para comer”. Hoje ela percebe como, na realidade, é complicado submeter alguém à a esse tipo de trabalho só para “enriquecer o currículo”. “Claro, aprendi muito, mas não acho certo não remunerar as pessoas pelo trabalho que elas desempenham, afinal de contas vivemos em uma sociedade em que é necessário pagar por comida, moradia etc.”

O ator e modelo Jefferson Mascarenhas por exemplo, nunca trabalhou por promessas de alavancar a carreira e, segundo ele, nunca se iludiu com isso ou com inúmeras promessas e vantagens. Ele conta que tudo o que fez de trabalho sem remuneração foi por interesse próprio, pelo material que lhe seria oferecido, somente. “No início de carreira eu precisava de portfólio e recebi uma proposta que me renderia um material que eu precisava e, desta forma, não queria teria que pagar para fazer”. Para ele foi interessante o acordo, mesmo sem remuneração, e o acabou aceitando. “O interesse não foi em uma possível divulgação da minha imagem e, sim, ter o material para entregar na agência em que trabalho e isso me render novos trabalhos remunerados”.

Afinal de contas, com um bom adendo no currículo e com muita experiência agregada, será mesmo que vale a pena? Karen Villerva, de 33 anos, acredita que sim. Jornalista formada pela PUC-SP, ela já trabalhou somente pela experiência. Depois de nove anos no hard news queria mudar de área e sabia que, sem experiência na área que queria (no caso, moda e beleza), seria impossível achar uma oportunidade. Mas, a chance não foi oferecida a ela, que, no caso, se ofereceu e disse que sabia quais eram os termos. Conhecia o contato no site para qual realizou o trabalho não remunerado e disse que aceitava fazê-lo apenas por experiência. “Acho interessante esse tipo de trabalho desde que não haja exploração e o acordo de troca seja por um curto período já determinado”. Segundo Karen, o jornalismo tradicional brasileiro, como um todo, é um grande “clube” fechado, onde dificilmente se entra sem o que chamam de “pagar pedágio” ou QI (quem indica).

Quando foi editora no hard news disse ter cansado de perder tempo treinando pessoas que não queriam estar ali e desistiam na primeira dificuldade, no primeiro plantão – isto, sem falar no custo financeiro para uma empresa que enfrenta esse tipo de desistência. Para ela, isso é um dos pontos que levam os veículos a adotarem esse tipo de “troca”, pois, são inúmeros os casos de profissionais que desistem porque, na hora de ver como é o trabalho de verdade, não o querem. “Há uma glamourização da atividade jornalística em si. E não apenas na moda, que pode parecer mais óbvio, mas em todas as editorias”. Ela diria que mais de 70% dos alunos de jornalismo não estão dispostos ao desgaste que a profissão exige. Por isso experiências assim ajudam a entender o que de fato os espera.

A estudante Luana Guerreiro ajuda a confirmar os fatos: “quando escolhi entrar na faculdade de moda logo me imaginei trabalhando em uma grande empresa e participando de eventos como o São Paulo Fashion Week, mas quando eu realmente comecei a trabalhar com isto percebi que não tinha o glamour que eu imaginava”.

Pesar qual o valor agregado em trabalhar sem remuneração, e os devidos cuidados que devem ser tomados para que isso traga mais benefícios e não desvalorize o empregado, pode ser uma boa ideia.

O Auditor-Fiscal do Trabalho, Renato Bignami conta que os casos narrados são conhecidos por hope labour, “um modelo de contratação por meio da qual o trabalhador tem a expectativa de vir a gozar de um contrato de trabalho completo, sem que essa expectativa tenha garantias de se concretizar”.

Para os pesquisadores Kathleen Kauhn e Thomas F. Corrigan, o Hope Labor faz sentido quando recompensas não financeiras e habilidades aprendidas, como, por exemplo, criatividade e autonomia, podem ser aplicadas posteriormente para um ganho de remuneração mais elevado. Ou seja, o trabalho não remunerado pode servir de justificativa para um plano futuro. Mas eles criticam que os patrões e empresários explorem essa expectativa para aumentarem seus próprios lucros.

Renato Bignami afirma que se há empresas oferecendo esse tipo de proposta, provavelmente isso ocorra de forma irregular. “Haveria que ver os casos práticos para que se compreenda em que medida houve lesão ao trabalhador, quer seja por meio de promessas não concretizadas ou mesmo por meio de trabalho realizado sem a contrapartida salarial, o que também é vedado pela lei”, conta.

O que aconteceria se ninguém se disponibilizasse a produzir desta forma? Essas propostas ainda existiriam?

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