Como o mercado próximo à sua casa pode afetar sua alimentação?

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A dificuldade de se alimentar de forma saudável diante do surgimento de minimercados de grandes redes e a crise dos mercadinhos de bairro

POR: Gabriel Gameiro e Pedro Battesini

Sérgio Bruno, 78, viveu toda sua vida em São Paulo. Quando jovem, mercados de bairro podiam ser encontrados em qualquer esquina. Com alimentos nutritivos, saudáveis e pouco industrializados. Porém, de alguns anos para cá, percebeu uma diminuição no número dessas lojas. “Os mercados que eu frequentava começaram a fechar”, afirmou o aposentado.

Em contrapartida, houve um aumento dos minimercados de grandes franquias. Um dos problemas dessas versões miniaturas de grandes mercados é a qualidade dos alimentos, visto que grande parte são processados ou ultraprocessados encontrados em uma quantidade muito maior do que “comida de verdade”.

Mesmo com essa diminuição, Sérgio não abandona os mercados de bairro. Eu não compro nada nos minimercados, além de ser muito mais caro, na maioria não tem açougue, apenas carnes embaladas, e a parte de hortifruti é muito fraca. Ou as frutas e hortaliças já estão velhas, ou não tem uma grande variedade”, afirma. Ele diz que prefere as feiras, ou ir até o Ceagesp, para fazer suas compras.

Foto: Monkey Business/Fotolia

 

Os “desertos alimentares” é um fenômeno quejá acontece nos Estados Unidos. Na periferia de cidades como Baltimore, não há muitos mercados e os poucos que existem pecam pela qualidade nutricional dos produtos que oferecem. A maioria, sequer, tem uma sessão de alimentos frescos, suas mercadorias consistem quase sempre em industrializados. Outra questão é que em bairros afastados, para chegar a um mercado com diversidade alimentar, as pessoas precisam andar muito, o que as leva a desistir e optar pela praticidade.

No Brasil, a construção de versões miniaturas de grandes redes, até mesmo nas periferias, está fazendo com que os mercados de bairro percam espaço e clientes. Mas a dúvida que surge e gera discussão entre estudiosos e profissionais da área de alimentação é se o mesmo fenômeno de Baltimore está acontecendo em São Paulo.

O receio é que os bairros periféricos tenham um abastecimento escasso de alimentos saudáveis. E, como na cidade americana, alimentos processados e ultraprocessados, com excesso de sódio e outras substâncias que podem fazer mal à saúde, sejam os mais vendidos.

Alimentos processados – é todo alimento que não é obtido através da natureza, e sim, produzido pelo homem através de uma matéria-prima.

Ultraprocessados – são feitos nas fábricas a partir de diversas etapas de processamento e combinam muitos ingredientes que ninguém tem na cozinha de casa. Alguns aditivos servem para impedir alterações físicas nos alimentos, como oxidação ou escurecimento.

Comida de verdade – são alimentos produzidos por uma agricultura familiar, com o mínimo de produtos químicos e agrotóxicos possível. Muitas vezes consumidos in natura

 

Isso pode afetar seriamente a saúde da população. “O consumo de alimentos não processados ou minimamente processados e, portanto, mais saudáveis, está associado a menor risco para doenças cardiovasculares e manutenção de peso adequado”, afirma a pesquisadora Ana Clara Duran, doutora pela faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Ela lembra também que os alimentos processados estão vinculados a certos tipos de câncer. E diz que a preferência por orgânicos ocorre por conta da menor exposição a defensivos agrícolas e similares que esses produtos têm.

Quando questionada se, em São Paulo, poderiam surgir os desertos alimentares que na periferia de Baltimore, Ana Clara Duran acredita que não. Segundo ela, diferentemente dos Estados Unidos, a capital paulista conta com muitas feiras livres. “Isto é um equipamento muito importante de distribuição de frutas e hortaliças para toda a população”, afirma. Além de ser algo importantíssimo para quem mora nessas regiões pelo preço atrativo, a qualidade dos alimentos ainda é boa, mesmo sendo da xepa –  os alimentos que sobram no final da feira e são vendidos por preços baixos.

Sua tese de doutorado concluiu que moradores próximos de pontos com variedades de frutas as consomem mais, enquanto lugares com mais fast foods estão associados com maior consumo de refrigerante, açúcar e menor consumo de frutas e hortaliças.

Ela diz ainda que a população precisa proteger as leis e incentivos para a manutenção das feiras livres e tornar o acesso mais equitativo. Por exemplo, promovendo mais feiras em finais de semana e em horários alternativos (feiras noturnas), demandando incentivos para permissionários venderem em bairros de menor renda e criando benefícios para produtores da agricultura familiar e/ou orgânicos vender em bairros de menor renda.

A distribuição de alimentos na periferia não é vista por Ana Clara como um fator que tem a ver com o crescimento nos números de minimercados nessas áreas. Para ela, os alimentos a origem dos alimentos é sempre a mesma (Ceagesp) mesmo que o consumidor compre em grandes redes de supermercados ou em feiras livres. O que interfere no preço é apenas a qualidade e a quantidade dos alimentos com base na distribuição dos pontos de venda.

Foto: nathsegato/Fotolia

A xepa é uma forma de garantir acesso a alimentos baratos à população. “O desperdício de alimentos é crescente e deve ser combatido, devido ao grande impacto ambiental e econômico causado por ele. Assim, adquirir alimentos com qualidade estética inferior (amassados, por exemplo)deveria ser estimulado”, afirma Ana Clara.

Minimercados de rede

Regina Aveiro, dona do mercado RYMA, na zona norte de São Paulo, diz que os produtos dos minimercados pertencentes a grandes redes são sempre mais caros, independente das ofertas que eles propõem, destacando que o preço é o diferencial entre o mercadinho de bairro e as miniaturas de grandes mercados. “Desde que começaram a aparecer, até hoje, nós sempre estamos pesquisando os preços dos produtos e o tipo de atendimento. Com isso, descobrimos que apesar deles fazerem ofertas com produtos chamativos, a maioria dos outros produtos tem um preço maior do que o nosso”, afirma Regina.

Em seu mercado, ela passou a fazer placas destacando os produtos que vendem e são mais baratos que o dos minimercados, já que não conseguem diminuir o preço dos que já estão com desconto nos concorrentes. “Isso porque eles fazem negociações com as empresas que os fornecem, devido à compra em grande quantidade que depois serão distribuídas para todas as lojas”, acrescenta.

Sobre os mercadinhos de bairro que foram à falência, Regina conta que muitos estabelecimentos fecharam nos últimos anos, mas que a culpa não é apenas da concorrência. Ela aponta a crise como um dos fatores principais.

Regina afirma não saber como os minimercados conseguem ficar abertos domingos e feriados. Já que, segundo ela, para ter funcionários trabalhando e recebendo extras, não compensa. “Eles ficam abertos e nós temos que fechar, isso faz com que nesses dias a gente perca nosso público”, afirma. Antigamente era o contrário, as grandes redes fechavam enquanto os pequenos se mantinham abertos trabalhando.

Ela se lembra de um caso que achou curioso. “O mercado ‘Das Meninas’, na Avenida Conceição, em São Paulo. Ele fechou poucos meses depois que um minimercado de grande franquia abriu muito perto, cerca de 150 metros, deles”, acredita Regina.

Foto: google maps

Claudio Silva também tem um mercado de bairro que fica na zona oeste de São Paulo. Sua loja fica perto de um “Minuto Pão de Açúcar”, na Avenida Cardoso de Almeida, em Perdizes.

O mercado está de pé há mais de dez anos. No início era um dos únicos da região. Hoje, está entre algumas padarias, lojas de produtos naturais e orgânicos, minimercados de grandes redes e muitos restaurantes. Seu proprietário lembra-se do primeiro concorrente que abriu perto e disse que sempre teve uma boa convivência com ele. “Não me abalei, mantive minhas vendas muito boas. Mas anos depois desse começaram a aparecer um número muito grande de concorrentes e isso foi acabando com meu movimento”, afirma.

Silva perdeu muitos clientes após a abertura deste minimercado de grande rede. “Depois que esse Pão de Açúcar abriu, muito clientes pararam de vir aqui e passaram a comprar lá. Nem com descontos estou conseguindo trazê-los de volta”, conta.

A dona de casa Lurdes Maria, é cliente de mercado há muito tempo. “Venho aqui desde que me mudei para a região, não gosto desses mercados grandes. Aqui eu sempre sei que vai ter o que preciso e serei bem atendida”, afirma.

“Esses mercados mais novos não tem um bom atendimento, aqui o Seu Claudio conhece todo mundo pelo nome e trata a gente muito bem. Lá nós somos só mais um cliente que estando lá ou não, não vai fazer diferença”, diz Lurdes.

O dono do mercado chegou a pensar em fechá-lo mais de uma vez, mas diz não ter o que fazer caso tome essa decisão. “Eu coloco comida na mesa da minha família, pago aluguel e as contas graças a esse mercado. Se eu fechar, o que vou fazer da minha vida?”

Quando perguntado sobre o que faz para tentar minimizar a perda de clientes ele é sucinto. “Descontos e bom atendimento. Não consigo fazer mais que isso, trato todos meus clientes bem e faço de tudo para agradá-los”, afirma.

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