Raí e futebol: muito além dos campos

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Campeão do mundo em 1994, o ex-jogador investiu em projetos sociais ao longo de sua trajetória

Por Ananda Portela

Raí é considerado um dos maiores jogadores da história do São Paulo. Crédito: Arquivo do São Paulo

Natural de Ribeirão Preto, Raí Souza Vieira de Oliveira, conhecido apenas como Raí,  teve grandes influências na família. Irmão de Sócrates, um dos maiores jogadores de futebol da história do Brasil, Raí viu de perto o crescimento e desenvolvimento da carreira de seu irmão. Surpreendentemente, o futebol não foi a primeira modalidade que chamou a atenção de Raí. Dos 12 aos 14 anos, ele optou pelo basquete ao futebol e foi vice-campeão pela Recreativa de Ribeirão Preto.

Em 1980, o atleta mudaria de esporte. Um amigo o levou para fazer um teste no Botafogo de Ribeirão Preto. Ele não tinha intenção de se profissionalizar no futebol, uma vez que a família já tinha um craque: Sócrates. No entanto, Raí passou na peneira e defendeu o time entre 1980 e 1986.

Sete anos depois, o atleta passaria a defender a Seleção Brasileira. Ele foi um dos primeiros jogadores do futebol do interior paulista a ser convocado para a seleção. Passados quatro meses do período com a camisa amarela, Raí iniciaria no time que impulsionou sua carreira: o São Paulo. O jogador foi vendido por 24 milhões de cruzados, o equivalente a R$ 4.631.846.  

A carreira de Raí no São Paulo Futebol Clube foi muito vitoriosa: pentacampeão paulista (1989, 1991, 1992, 1998, 2000), campeão brasileiro (1991), bicampeão consecutivo da Copa Libertadores da América (1992 e 1993) e campeão do Mundial Interclubes (1992). Depois da trajetória consolidada no São Paulo, Raí foi contratado pelo Paris Saint Germain e defendeu a equipe entre 1993 e 1998. Ele ajudou na conquista da Copa Liga da França (1995 e 1998), Copa da França (1993, 1995 e 1998), Campeonato Francês (1994) e a Recopa Europeia (1996). A torcida o reconhece como um dos maiores jogadores da história do clube.

Ainda como jogador, porém perto do fim de sua carreira, Raí, ao lado do ex-jogador Leonardo, concretizou um dos maiores sonhos de sua vida: a Fundação Gol de Letra. O projeto tem como objetivo oferecer acesso à educação para crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social. Em 2001, a Fundação foi escolhida pela UNESCO como instituição modelo e hoje atende mais de 4600 crianças e jovens de 7 a 30 anos.

Raí e Leonardo criaram a Fundação Gol de Letra em 1998. Crédito: Site Raí10

 

Confira a entrevista exclusiva de Raí para o Contraponto Digital:

CP: Como você iniciou sua carreira no futebol? Ele sempre foi sua primeira opção?

R: Iniciei totalmente por acaso, e por prazer. Não pensava em ser profissional, jogava basquete também. Entrei pela primeira vez em um clube de futebol (Botafogo) aos 15 anos. Treinava só 1 ou 2 vezes por semana. Antes jogava na escola e em clubes amadores. Fui Levado ao clube por um amigo. Não levava a sério, jogava por diversão, até que decidir me casar, com 17 anos. Sabendo que tinha talento, tentei minha sorte!

CP: A intenção sempre foi a profissionalização no esporte?

R: Entrei no clube Botafogo de Ribeirão Preto para me divertir e jogar campeonato. Era competitivo, mas não pensava em profissionalização.

CP: Qual foi o profissional do ramo que mais lhe inspirou durante a carreira no futebol?

R: Minhas três grandes inspirações foram: meu irmão Sócrates, gênio dentro e fora de campo, Zico e Falcão. Craques, artilheiros e elegância, grandes profissionais.

CP: A Fundação Gol de Letra é uma das instituições mais reconhecidas do mundo. A iniciativa acompanhou toda a sua carreira ou ela surgiu apenas no fim?

R: A ideia da Gol de Letra, formatada, surgiu apenas no final da carreira.  Já a ideia de uma atuação ativa, por atitudes em busca de um país mais justo vem muito antes. Foi mais forte a partir dos 26, 27 anos. Minha experiência na França, país dos direitos humanos, de valores fortes norteadores, como liberdade, igualdade e fraternidade, entre 28 e 33 anos, fortaleceu ainda mais minhas convicções para minhas ações.

CP: O projeto atende mais de 4500 crianças em São Paulo e no Rio de Janeiro. Existe a possibilidade da iniciativa alcançar outros estados?

R: Sim! Temos um setor de disseminação da nossa metodologia, já há 6 anos.  Uma equipe, preparada para implementar nossas projetos/programas bem sucedidos, no RJ e SP, em outras regiões do país, ou no exterior. Quando demandados, ajudamos a escolher uma instituição local, preparamos a implantação, fazemos a formação de profissionais, e acompanhamos os trabalhos por dois a três anos. Depois deste período, a instituição local escolhida deve seguir em frente de forma autônoma, sem mais a nossa participação. Já disseminamos nossa metodologia em mais de 10 outros locais do Brasil, incluindo um projeto em Guiné Bissau, na África.

 

Além da Fundação Gol de Letra, Raí, junto com Paulo Velasco, desenvolveu o projeto Raí+Velasco, uma empresa de gestão de marcas e desenvolvimento de negócios nas áreas de esporte, cultura e design. Neste período a empresa geriu marcas de grandes personalidades brasileiras, cuja parceria é responsável, não só pela imagem, mas também pelos negócios em parcerias comerciais, campanhas publicitárias, eventos corporativos, palestras, licenciamentos e consultorias.

Raí e Paulo Velasco fundaram a empresa de gestão de negócio Raí+Velasco em 2002. Crédito: Site Raí10

Confira a entrevista exclusiva de Paulo Velasco para o Contraponto Digital:

CP: Já existia uma demanda de iniciativas como essa ou o projeto nasceu do zero?

Geralmente nascem do zero. Ao longo dos últimos quinze anos, a Raí+Velasco já gerenciou imagem de talentos como Raí, Sócrates, Magic Paula e Ruy Ohtake, desenvolveu espaços como a Sala Raí, espaço de eventos e camarote no estádio do Morumbi, e a Cinesala, cinema de rua localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Sala Raí no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Crédito: Site Raí 10

CP: Como surgiu a ideia de unir os dois nomes para fomentar o desenvolvimento de negócios no esporte?

Logo depois que o Raí encerrou a carreira de atleta profissional, ele me convidou para trabalhar com ele em um projeto ligado a futebol. Eu tinha feito um estágio na Juventus de Turim, clube de futebol na Itália, e fiquei impressionado como eles gerenciavam a imagem dos seus atletas. Propus para o Raí iniciarmos um negócio para cuidar da sua imagem, negócios e marca. Assim foi dado o pontapé para a criação da Raí+Velasco.

 

CP: Como funciona a logística de distribuição dos projetos entre esporte, cultura e design?

Os projetos transitam nestes territórios por serem áreas que os sócios têm afinidade. É difícil delimitar onde começa e onde termina cada uma destas áreas, já que os projetos tendem a transitar entre elas. Como a Sala Raí, que é um espaço de eventos e camarote dentro do estádio do Morumbi, com arquitetura do Ruy Ohtake e que já foi palco de diversos eventos culturais.

CP: Além desses segmentos, existe a intenção de trabalhar com outro ramo?

Além da manutenção dos negócios atuais, sempre estudamos novas oportunidades em áreas que nos inspiram.

 

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