Contra o ódio, cultura

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Fizemos uma seleção de livros e filmes pra você entender o ódio contemporâneo – e parar de reproduzi-lo nas redes sociais

Por Eduardo Gayer

O brasileiro conquistou mundo a fora sua fama de povo acolhedor, tranquilo, hospitaleiro e até mesmo cordial – em uma errônea interpretação do significado da expressão “homem cordial”, cunhada por Sérgio Buarque de Hollanda em seu livro “Raízes do Brasil”.
Se a fama é justa ou não, cabe ao leitor tomar partido. Mas o fato é que o “país do samba, do carnaval e do futebol” está na lista dos 20 mais violentos do mundo, segundo relatório da UNODC (seção para assuntos de Drogas e Crimes da ONU). Também somos o país que mais mata transexuais nos quatro cantos do globo.
Não é raro encontrar discursos de ódio contra LGBTs, negros, islâmicos, umbandistas e outros grupos que não se encaixam em um suposto padrão ideal. Não à toa grupos de extrema-direita têm sido eleitos na Europa e ganhado forças no Brasil, a partir do MBL e da pré-candidatura à presidência de Jair Bolsonaro.
Preparamos um podcast e uma lista de filmes e livros para você entender melhor a questão do ódio contemporâneo.

Abaixo, nossa seleção de livros e filmes.

4 livros fundamentais para discutir o ódio

  1. “Todos contra todos: o ódio nosso de cada dia”, de Leandro Karnal

Com sua marcante ironia, o historiador que conquistou as redes sociais derruba o mito do brasileiro pacífico e discute, abertamente, o ódio que todos podemos cultivar dentro de nós. “Só eu e você, caro leitor, cara leitora, não odiamos nem somos violentos, muito menos preconceituosos”, alfineta, em uma das páginas.
Leandro Karnal deixa de lado o Brasil do carnaval e mergulha na realidade que todos queremos esconder: todos os dias, mulheres, homossexuais, transexuais, negrxs morrem nos quatro cantos do país. Somos violentos nas ruas, no trânsito, nos estádios de futebol, nas redes sociais. Os rótulos “coxinha”, “petralha”, “mortadela”, “feminazi” e tantos outros pioram a situação: sempre o outro é a representação do insano.
Um livro provocante, irônico, erudito, mas com toques de bom humor, que, de certo, não deixarão que você deixe o próximo capítulo pra amanhã. O discurso de Karnal é envolvente!

2.  “O que aprendi sendo xingado na internet”, de Leonardo Sakamoto

De outra estrela da internet e dos perfis de Facebook mais progressistas, “O que aprendi sendo xingado na internet”, sem pretensões acadêmicas ou literárias, é quase um desabafo do jornalista Leonardo Sakamoto, cujas redes sociais estão sempre repletas de usuários destilando ódio.
No capítulo “Falta Lexotan na água desse povo”, com uma pitada satisfatória de bom humor, o também professor da PUC-SP detalha alguns casos de internautas que, por má interpretação de texto ou sua leitura apressada, logo teciam comentários autoritários e violentos.
Quase que respondendo ao título do livro, Sakamoto afirma ter percebido que a falta do “cara a cara” acaba por criar um escudo que dá coragem de cada um afirmar o que realmente pensa – e, muitas vezes, libertar o fascista que reside dentro de si, sem disposição para o diálogo e para a própria democracia.
De leitura rápida e prazerosa, a obra é uma verdadeira radiografia dos nossos tempos.

 

3. “Como conversar com um fascista”, de Márcia Tiburi

Marcia Tiburi rompe com o abstratismo filosófico e discute profundamente a questão do ódio contemporâneo, em linguagem acessível para os leitores mais leigos. Nesses tempos de polarização e embates políticos acirrados, “Como conversar com um fascista” é quase um manual de resistência aos discursos de ódio, lamentáveis raízes da sociedade brasileira que permeiam o cotidiano e, claro, as redes sociais.
A filósofa sustenta, e explica tal tese nas 196 páginas do livro, que o ódio não é um sentimento natural, mas construído pelas elites que veem ganhos políticos e econômicos nesse processo. Para ela, o fascista não é capaz de dialogar, porque apaga a própria dimensão do outro, fundamental no processo comunicativo.
Mas, se o diálogo, ultimamente, tem parecido impossível, Marcia Tiburi vai contra a corrente e propõe uma discussão reflexiva e cuidadosa sobre a sociedade, sempre potencialmente autoritária e fascista.

4. “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a Banalidade do Mal”, de Hannah Arendt

Não poderia ficar de fora dessa lista um dos principais livros da literatura contemporânea que aborda a questão do ódio.
Partindo da história de Eichmann, nazista sequestrado e levado a Jerusalém, onde seria julgado por seus crimes hediondos, Hannah Arendt faz uma espécie de mistura entre jornalismo e filosofia. É seu olhar lúcido que nos faz entender o famoso conceito de “banalidade do mal”, presente na burocratização da vida pública do terceiro Reich e de tantos outros momentos da história mundial. O Estado consegue a proeza de fazer seus cidadãos igualarem o homicídio ao mero cumprimento de suas atribuições.
Arendt, uma judia alemã que havia fugiu do regime nazista, pode ser ressignificada para entendermos os discursos de ódio que banalizam a violência contra grupos minoritários. É leitura obrigatória!

4 filmes fundamentais para discutir o ódio:

  1. “Crash – No limite”

Tensões envolvendo moradores de Lon Angeles, nos Estados Unidos, acabam por exacerbar todo o racismo da sociedade norte-americana. A atriz Sandra Bullock, na personagem Jean Cabot, tem seu carro supostamente roubado por um negro e acaba influenciando o juiz do caso com seu preconceito. Uma discussão de estereótipos.

2. “Hannah Arendt”

Se a filósofa alemã já foi citada na seção de livros, não poderia ser esquecida por aqui. O filme relata desde a fuga de Arendt e seu marido da perseguição nazista até o momento em que foi cobrir o julgamento de Eichmann. Uma reflexão profunda sobre ódio, fascismo e perdão.

3) “O Ódio”

Nem mesmo o berço da “liberdade, igualdade e fraternidade” fica de fora do universo do ódio. Um judeu e um negro são retratados nas discriminações contínuas que sofrem todos os dias no subúrbio – onde moram – e no centro de Paris, onde, claro, apenas trabalham.

4) “A Onda”

O professor Raine decide inovar em sua didática e, ao trabalhar o tema “Estados autocráticos” com seus alunos, propõe que eles construam sua própria autocracia. Os resultados são desvastadores, pois os estudantes acabam por formar algo semelhante com o ocorrido na Alemanha Nazista – e seus educadores já não sabem o que fazer.

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