“Me ficharam enquanto estava escorrendo sangue na minha cabeça”

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No aniversário de 40 anos da invasão da PUC, conheça a história de três jovens que estavam presentes no dia

Por Luciana Moraes e Maria Jahnel

Em 1977, durante o regime militar, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo foi invadida pela polícia para reprimir um movimento estudantil que acontecia no local.

No dia 22 de setembro, 3 mil policiais entraram no campus e interromperam um ato que reunia cerca de 2 mil estudantes, não só da PUC-SP, mas de outras universidades de São Paulo. A operação foi comandada pessoalmente pelo coronel Erasmo Dias.

Erasmo Dias (fonte: YouTube)

O ato estava planejado para acontecer na Faculdade de Medicina, mas segundo os estudantes, ela já havia sido tomada. Então, os participantes se redirecionaram a Perdizes. “Era um ato de reorganização da UNE”, afirmou Teresa Cabral Jahnel, que participou do ato.

Lourival Corrêa, na época, estudante de Geografia na USP, contou que foi tudo muito confuso: “Eu fiquei muito assustado quando vi a polícia. (…) Todos os alunos ficaram muito perdidos, não sabíamos nem para onde ir”.

Na época, policiais que participaram da operação afirmam que não houve violência por parte deles. Em uma reportagem da Folha de S. Paulo, o comandante da PM coronel Francisco Batista Torres tranquilizava as mães e parentes dos alunos afirmando que eles não seriam maltratados. No entanto, Lúcia Cabral, que era estudante de Física na USP, levou uma cacetada na cabeça: “Eu senti um negócio molhado na minha cabeça e quando coloquei a mão, minha mão veio cheia de sangue.”. Ela e sua irmã, Teresa, que também estudava Geografia na USP, contaram que os policiais estavam muito bravos: “Houve muita violência, estava todo mundo com medo”, contou Teresa.

Lúcia contou que os policiais não fizeram nada para cuidar dela: “Eles me levaram para o prédio do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo], onde hoje é o Memorial da Resistência, me deixaram lá sentada, pegaram meus dados e me soltaram de madrugada, não fizeram nada”.

Teresa e Lourival foram alguns dos que conseguiram fugir: “Quando eles fecharam a esquina, eu tinha acabado de passar e usaria a desculpa de que eu morava relativamente perto”, contou Lourival.

Segundo os entrevistados e outros relatos, Erasmo Dias, que ficou conhecido pelo seu desempenho contra a oposição, estava focado em prender líderes dos movimentos e “rostos mais conhecidos”. A opinião sobre o então secretário de segurança pública de São Paulo não difere muito entre os entrevistados: “Está queimando no fogo do inferno.”, afirmou Lúcia. Lourival o definiu como “o cara mais truculento do Exército.”.

O ato que começou às 21h30, foi interrompido apenas 20 minutos depois, às 21h50. Os policiais fizeram os alunos detidos formarem uma fila indiana e esta foi conduzida ao estacionamento. Nesse percurso, os estudantes apanhavam da PM. Seis sofreram queimaduras.

A polícia conseguiu prender 854 pessoas, que foram levadas ao Batalhão Tobias de Aguiar. 92 foram fichadas no DOPS (entre elas, Lúcia Cabral Jahnel) e 42 foram acusadas de subversão e processadas com base na Lei de Segurança Nacional. Os estudantes só começaram a ser liberados na madrugada do dia seguinte.

Além da violência para com os participantes do ato, os agentes do governo também depredaram salas de aula e outras instalações da universidade.

(fonte: YouTube)

Neste ano, no aniversário de 40 anos da invasão, o coronel Batista Torres disse à Folha que a invasão foi um erro.

 

 

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