Qualidade da alimentação escolar em queda sob a gestão Doria

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Além das denúncias em escolas municipais, outros setores sociais também são afetados por cortes da Prefeitura.

 

Reportagem: Bruno Oliveira e Thiago Goulart
Edição: Fred Lopes

 

A denúncia de que alunos de escolas municipais estariam proibidos de repetir a merenda causou grande polêmica. Marcas de caneta, feitas nas mãos das crianças, identificavam quem já tinha passado pela fila do lanche, de acordo com os pais. “Agora, ao invés de comprarmos mais materiais pedagógicos, nós compramos mais comida para evitar que a alimentação das crianças seja prejudicada”. Frase dita por uma funcionária que trabalha em um Centro de Educação Infantil (CEI) na Zona Norte de São Paulo, que tem visto diariamente a quantidade de alimentos disponibilizados pela Prefeitura diminuir.

O prefeito João Doria havia afirmado que a prefeitura não estava cortando o fornecimento de alimentos, mas readaptando a alimentação distribuída nas escolas, com o intuito de diminuir a obesidade infantil.

“Recentemente, buscamos realizar uma readaptação na merenda fornecida aos alunos, de maneira a torná-la mais saudável e combater a obesidade infantil, problema grave que atinge muitas crianças em nossa cidade. O programa prevê racionamento apenas no consumo de alimentos que podem fazer mal a saúde se ingeridos em excesso, como doces ou lanches industrializados”, disse Doria em comentário no Facebook.

Segundo a Secretaria Municipal da Educação, a repetição não é permitida apenas em lanches com itens industrializados, justamente por questões nutricionais e ressaltou que, semanalmente, são oferecidos cardápios variados que atendem no mínimo 70% das necessidades nutricionais dos alunos do ensino infantil.

 

Menos leite

Em fevereiro deste ano, a Prefeitura anunciou mudanças no Programa Leve Leite, com o objetivo de diminuir os gastos. Após o corte, o programa deixou de atender cerca de 469 mil crianças . A readequação gera uma economia de 54% nos valores empregados no programa.

Contraditoriamente, a qualidade da alimentação dos alunos não parece ser tão prioritária assim, considerando o corte no fornecimento de leite para tantas crianças.

 

Menos frutas, legumes e verduras

A inclusão de alimentos orgânicos na alimentação escolar tem sido ignorada pela prefeitura. Nenhuma chamada pública para compra de alimentos da agricultura familiar foi realizada este ano. A Secretaria Municipal de Educação alega falta de verbas. Segundo a execução orçamentária da gestão Doria, o valor gasto até agora representa apenas 26% do total disponibilizado pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) previsto para o período.

Esses são somente dois exemplos diante das várias mudanças propostas pelo poder municipal, que visa sobretudo, enxugar os gastos e equalizar as receitas.

 

A versão de quem lida diariamente com o problema

Quando se trata da qualidade da alimentação escolar coordenada pela prefeitura, o assunto torna-se nebuloso. O discurso da austeridade de que é necessário cortar verbas para manter a receita dos cofres públicos em dia atinge diretamente a merenda escolar. Os alimentos que chegam à mesa das crianças de zero a sete anos têm sofrido cortes orçamentários que restringem os itens nutricionais, afetando a qualidade alimentar em creches e escolas da rede municipal.

Temendo represálias, a funcionária do CEI pediu para não ser identificada. “Desde o início da gestão atual, houve uma grande diminuição na quantidade de alimentos enviados para nossa escola. Por exemplo: antes eles mandavam uma caixa com 20 mamões para cerca de 200 crianças, hoje eles enviam quatro para a mesma quantidade”. Ela confirma também que foram recebidas orientações da Coordenadoria de Alimentação Escolar referentes a mudança de alguns alimentos devido à preocupação com a obesidade infantil. O suco antes adoçado, agora dá lugar a uma fruta, porém, a quantidade reduzida encaminhada ao CEI dificulta a divisão entre as crianças.

Fome pode alterar rendimento escolar, segundo nutricionista

Consultora em qualidade alimentar e nutricionista, Evie Souza, conta que quando a alimentação está inadequada, começam a surgir doenças e isso influenciará diretamente na qualidade de vida do indivíduo. Segundo ela, alimentos industrializados são ricos em açúcar, gordura, sal e conservantes. O risco de seu consumo abusivo inclui principalmente o risco de desenvolver doenças como a obesidade e o diabetes. “Restrição não seria o melhor caminho para evitar doenças como a obesidade, por exemplo. Acredito em equilíbrio e escolhas inteligentes, aliados à prática de atividade física”, afirmou.

Ao ser questionada sobre a relação da alimentação com o rendimento escolar, ela foi direta e alertou sobre a falta de informações por parte da prefeitura aos pais das crianças. “Com certeza, a relação é direta. Algumas de nossas crianças fazem suas principais refeições apenas na escola. Se a quantidade não for o suficiente, o aluno fica com fome, sua atenção fica reduzida e consequentemente seu rendimento tende a ser menor”.

A nutricionista e pesquisadora da área de alimentação escolar em São Paulo, Vanessa Manfre, afirma que não existem estudos específicos que relacionam a alimentação e o rendimento escolar. “Porém, estudos realizados por organismos internacionais como o Programa Mundial de Alimentos mostram que a alimentação escolar pode contribuir para o aprendizado dos estudantes, uma vez que quando estão bem alimentados conseguem raciocinar e desenvolver habilidades cognitivas”. Ela afirma que excesso de peso de crianças em idade escolar é uma preocupação e indica como culpados os alimentos industrializados. O consumo desses alimentos com frequência pode levar à sobrepeso e obesidade.

A nutricionista diz também que uma alimentação com base em alimentos in natura (carnes, ovos, leite, frutas, hortaliças) e minimamente processados como arroz e feijão, frescos, variados, conforme orienta o Guia Alimentar para a População Brasileira, e a prática de atividade física são fatores importantes para diminuir os riscos não só em crianças, mas também nos adultos.

 

E como fica a gestão municipal?

Mesmo após inúmeras tentativas de contato, a Secretaria Municipal de Educação não quis se pronunciar oficialmente sobre o assunto.

A receita do município poderia entrar em contradição com discurso do prefeito que incorporou o argumento da austeridade, declarando que há déficit nas contas públicas. É necessário, então, indagar caso a receita seja positiva, se não há ou há parcialmente investimentos que atendam satisfatoriamente o cidadão paulistano, principalmente aqueles que se encontram em situações sociais mais vulneráveis. Enxugar os gastos e estruturar um caixa com uma reserva considerável é algo que chama a atenção na gestão Doria. Em 2018, teremos eleições presidenciais e não seria nenhuma surpresa caso o gestor do nosso município viesse a se candidatar a gestão da nossa nação. As crianças têm fome, o Brasil tem pressa.

 

Fotos: Heloísa Ballarini/Secom/PMSP

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