Como mulheres em situação de rua lidam com a menstruação

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A falta de dinheiro, água, privacidade e um lar são mais cruéis quando se trata da saúde íntima feminina.

 

Reportagem: Bruna Scavuzzi e Isabela Moreno
Edição: Fred Lopes

 

Valéria, aos 43 anos, passa as noites com o seus dois cachorros na Praça do Patriarca, no centro de São Paulo. Ainda adolescente, saiu de casa para fugir dos abusos sexuais do seu padrasto. Depois disso, tornou-se dependente de algumas drogas, entre elas o crack. Foi detida por roubo e furto. Seus dois filhos moram com a sua mãe, que, segundo Valéria, não é “fichada” na polícia e, por isso, tem mais chances de dar um futuro para os seus filhos.

Quando a reportagem se aproximou, ela estava sentada sobre sua mala e segurava na mão um item comum a qualquer outra mulher, mas que – para ela – representa um grande desafio: um absorvente.

Além de todas as dificuldades de quem não tem onde morar, as mulheres em situação de rua têm de lidar com as exigências do período menstrual sem dinheiro, água, privacidade ou atendimento médico apropriados.

Valéria disse que não compra absorventes com o dinheiro que ganha de doações na rua. Ela procura “grupos da igreja, de centro espírita e algumas ONGs que entregam”. E reclama dos órgãos públicos: “A prefeitura não dá, a prefeitura tira”.

O preço de um pacote de absorvente externo de oito unidades variava de R$ 1,98 a R$ 14,20, de acordo com consulta realizada pela reportagem, em agosto de 2017. A pesquisa não considera a região onde o produto é vendido, o que pode afetar o preço final. Mesmo considerando o valor mais baixo, o custo com cuidados relativos à menstruação pode custar R$ 5,94 por mês, uma vez que uma mulher pode ultrapassar a demanda por 20 absorventes no período. Para a população de rua, esse valor representa uma parcela de sua renda que poderia ser utilizada para outras necessidades, como comida e roupas.

Valéria (43), moradora da Praça do Patriarca

Para enfrentar o período, as mulheres frequentemente recorrem aos banheiros oferecidos pelas tendas emergenciais ou às estações de metrôs da capital para tomarem banho. “A gente gosta de estar sempre limpa, principalmente nessa época, né?”, comenta Valéria. “As pessoas acham que somos bichos por morar na rua, mas a gente só tá aqui vivendo, sem fazer mal pra ninguém. Também merecemos dignidade”.

“Uma vez eu tive que usar a fralda da minha filha”, conta Samara

Samara, 30 anos, e Eide, 23, vivem em situação de rua na Mooca. Os poucos absorventes que conseguem são dos albergues onde passam a noite. “Mas eles entregam um ou dois. Desce bastante pra mim. Uma vez eu tive que usar a fralda da minha filha”, conta Samara.

De acordo com informações no site de Drauzio Varella, a troca de absorventes deve acontecer de acordo com o fluxo menstrual de cada mulher, porém trocados de hora em hora no caso de menstruação intensa. Independente disso, o uso prolongado do mesmo absorvente pode levar ao desenvolvimento de isquemia, que é a interrupção de circulação sanguínea na região.

Outro problema frequente é a falta de fralda para os filhos. Enquanto atendia a reportagem, o filho de coisas anos de Eide fez xixi na calçada da rua. “Lá vai o mijão”, brincou a mãe, um pouco constrangida. Eide tem mais duas meninas, uma de três meses e outra de seis anos, e Samara teve seis ao todo, porém apenas a bebê de oito meses mora com ela.

Eide (23), com a sua filha mais nova no colo

Cristina, de 30 anos, fica no Pateo do Collegio, no centro da cidade, e também diz encontrar dificuldades para ter acesso a absorventes. Afirma nunca ter recebido esse produto da Prefeitura, em contrapartida, elogia a visita de agentes da Secretaria de Saúde para realizar o agendamento de exames, inclusive ginecológicos. “Eles [os agentes]são legais com a gente.”

A atual política em relação à população em situação de rua é acusada de de ser hostil, fazendo com que estas pessoas deixem de procurar assistência nos órgãos locais. “Como é que eles vão ajudar se eles querem a gente fora daqui?”, questiona Cristina.

O censo da população em situação de rua no município de São Paulo, em 2015, apontou que do total, 14,6% (2.326) eram mulheres. O padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo, alerta que o número já estava defasado na época em que foi divulgado. “A própria prefeitura já fala em mais de 22.000 moradores. Deveria ser feito um novo censo, mas a Prefeitura não faz porque não tem dinheiro”, diz.

O padre não acredita nas políticas públicas. Para ele, a palavra chave para ajudar a população em situação de rua em todos os quesitos é “autonomia”. “Política pública é controle social do pobre para interesses privados. A população de rua não precisa ser ouvida, precisa de autonomia”.

A reportagem entrou em contato com a assessoria da Secretaria de Assistência Social e a equipe de Atenção Básica e Estratégica do SUS. Apenas informaram não ter dados sobre a distribuição de absorventes e problemas ginecológicos das moradoras.

 

Fotos: Bruna Scavuzzi/Contraponto Digital

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