Livorno, St. Pauli e o combate ao fascismo no futebol

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Livorno, St. Pauli e o combate ao fascismo no futebol

Torcidas que lutam a favor dos direitos humanos crescem inspiradas em europeus

 

Por Pedro Rubens Santos

 

O futebol é, além de um jogo, uma manifestação cultural. Por ser o esporte mais popular do planeta, é natural que haja discordâncias e reivindicações distintas dentro do espaço do estádio. Impossível seria dizer que os fãs se comportam da mesma maneira na Alemanha e no México, dois países nos quais o futebol ocupa um espaço de destaque na preferência da população. O problema é que a liberdade de expressão, aliada à emoção e à falta de controle sobre grandes grupos no ambiente do esporte, gera manifestações que ferem direitos humanos. Discursos fascistas de ódio ganham espaço nas arquibancadas, enquanto o combate a esse comportamento criminoso tem, também, sua força e centros de atuação.

Peguemos a Lazio como exemplo. Um dos dois times mais populares da capital italiana, a equipe que teve Dino Baggio, Alessandro Nesta e Juan Sebastián Verón, além dos brasileiros Hernanes e Felipe Anderson – que ainda veste a camisa do clube -, tem em sua torcida uma camada ultra – denominação para uma espécie de torcida organizada na Itália – adepta do nazi-fascismo.

Ultras do Malmo, clube sueco, fazendo festa na arquibancada com fumaça, faixas e bandeiras (Foto: Pixabay)

No país de Mussolini, as raízes fascistas permanecem vivas. O esporte mais popular da Itália ainda sofre com essa relação. O antissemitismo está presente na torcida da Lazio há muito tempo. Na temporada 1998/1999, fãs do time mostraram seu ódio em um clássico contra a outra grande equipe da capital, a Roma. Os Irriducibili, como é chamado o grupo em questão, ergueu uma faixa com os dizeres “Auschwitz vossa pátria, os fornos vossas casas”, em referência direta ao campo de concentração no qual judeus foram exterminados durante a Segunda Guerra Mundial.

Em um duelo contra o Tottenham, clube inglês de origem judaica, em 2012, um confronto era esperado pela polícia italiana. O ódio aos judeus é conhecido no país da bota e acabou em massacre quando, na véspera da partida, nove torcedores vindos da Inglaterra foram atacados com facadas em um bar por cerca de 50 fãs de Lazio e Roma, juntos.

Apesar das manifestações de saudação ao ex-líder fascista Mussolini, não é só de ódio que vivem as torcidas italianas. Basta viajar cerca de 300km ao norte do país para se deparar com um cenário completamente diferente. Enquanto na capital a política de direita e conservadora tem força no meio do futebol, Livorno é a cidade na qual foi fundado o Partido Comunista Italiano, em 1921. O seguinte trecho, retirado de uma reportagem da BBC de 2005, demonstra claramente a relação do time que leva o nome do município com as questões ideológicas:

“Não há torcedor do Livorno que não seja de esquerda”, afirma o estudante Christian Biasci, um entusiasmado torcedor, que usava uma camiseta com a inscrição CCCP, da antiga União Soviética. “Aqui somos todos comunistas”

Se Lazio e Livorno se enfrentam, é garantia de um duelo fora das quatro linhas. O confronto físico e violento acontece algumas vezes, mas o que marca as partidas são os cantos e bandeiras completamente opostos de cada lado do estádio. Ao passo que os Irriducibili seguram imagens de Benito Mussolini, a torcida do Livorno ergue o rosto do líder revolucionário Che Guevara.

Se na Itália, berço da ideologia fascista, os fãs do Livorno se apoiam no comunismo para combater a xenofobia e o preconceito exalados no futebol, um outro país cuja história foi manchada por uma política racista e opressora que massacrou milhões de pessoas vê, em um pequeno clube da segunda divisão, um oásis de combate ao que se chama de “normal” no esporte. O St. Pauli, da cidade de Hamburgo, é o maior exemplo de torcida consciente e com forte posicionamento diante das questões que sujam o esporte mais popular do mundo pela indiferença com a qual muito as encaram.

Fundado em 1910, o clube se estabeleceu no bairro de Sankt Pauli, dentro da segunda maior cidade da Alemanha. Entre as curiosidades relevantes do St. Pauli estão o fato de ter sido comandado por um presidente assumidamente homossexual e de contar com diversas manifestações contra o fascismo, o racismo e o machismo em suas arquibancadas. Corny Littmann, o presidente em questão, liderou o St. Pauli entre 2002 e 2010 e levou o pequeno clube da terceira divisão até a Bundesliga, elite do futebol alemão.

Durante jogo do St. Pauli, letreiro traz os dizeres “stay different” (continue diferente), com as cores do movimento LGBT (Foto: Pixabay)

No portão principal do estádio, o escudo do time está em destaque ao lado de duas bandeiras. Uma delas tem o símbolo não oficial do St. Pauli, uma caveira com ossos. A outra é colorida e representa o movimento LGBT.

Segundo uma publicação do Puntero Izquierdo, de janeiro de 2017, há uma ala mais fervorosa da torcida que defende as raízes do clube “bairrista”. O trecho a seguir assegura isso:

A “extrema esquerda” da torcida não cobra resultados, e sim uma manutenção da identidade. (…) alguns defendem até que não há problema algum em sair da Bundesliga, ser rebaixado para as ligas regionais, assim o clube voltaria a suas origens (ainda) mais alternativas, sem departamento de marketing, loja oficial, patrocinadores, assentos VIP e poderia até a voltar a produzir os próprios uniformes artesanalmente

O St. Pauli mantém o estigma de clube de esquerda e anticapitalista. É um dos poucos exemplos de equipes que combatem o status atual do futebol, negócio que movimenta bilhões. Sem a pretensão de contratar grandes jogadores ou ser o melhor e mais rico time da Alemanha, o time de Hamburgo tornou-se um símbolo da luta contra o padrão estigmatizado no esporte da bola redonda.

As mensagens espalhadas pela torcida são diversas. O antifascismo, porém, é uma luta constante. Em meio à “crise dos refugiados”, ignorados e desprezados pela Europa, o estádio Millerntor era um local seguro de respeito e acolhimento. “Bem-vindos, refugiados. Tragam suas famílias”, dizia a inscrição em copos de cerveja vendidos nas partidas do St. Pauli. A mensagem de apoio é um dos símbolos dos direitos humanos, visto em adesivos espalhados pela Europa.

No Brasil, movimentos de oposição às práticas discriminatórias ainda são raros. Da mesma forma, o futebol nacional ainda se baseia fortemente na busca do lucro. Os ingressos exageradamente caros não condizem com a realidade econômica da imensa maioria da população e as “modernizações” de estádios (ou arenas) afastam, cada vez mais, o público de menor poder aquisitivo dos espaços esportivos. Essa situação envolve muitos dos aspectos combatidos pelos fãs do St. Pauli. Ao menos, é possível dizer que a atuação dos alemães inspirou alguns coletivos conscientes em terras brasileiras.

”Refugiados, sejam bem-vindos”, diz o adesivo (Foto: Pixabay)

Ao menos 27 clubes do país têm uma página no Facebook denominada “antifascista”. São movimentos criados por torcedores, sem vínculo nenhum com a instituição – além, é claro, da paixão que carregam pelas cores daquele time – que visam propagar ideais de respeito à diversidade e enfrentar a cultura capitalista do futebol. Esses coletivos defendem os setores populares nos estádios, a liberdade às torcidas e o fim de manifestações homofóbicas – como os gritos de ódio ouvidos por todo o Brasil direcionados ao goleiro adversário quando este cobra um tiro de meta -, racistas e machistas. Recentemente, os “rivais” antifascistas se uniram para lutar contra a privatização do estádio do Pacaembu, monumento histórico da cidade de São Paulo.

Um capítulo interessante se desenhou com o jogador Felipe Melo, do Palmeiras. Em um vídeo gravado em maio, o atleta manifesta seu apoio ao político Jair Bolsonaro, conhecido por propagar deliberadamente discursos machistas, criminosos e preconceituosos. A página “Palmeiras Antifascista” não demorou a se posicionar sobre o assunto, criticando a postura do meio-campista e lamentando o fato de Melo vestir a camisa palmeirense.

Página Palmeiras Antifascista critica atitude de Felipe Melo (Foto: Reprodução/Facebook)

 

Página Palmeiras Antifascista lamenta retorno de Felpe Melo ao Palmeiras (Foto: Reprodução/Facebook)

As lutas a serem travadas são muitas e os movimentos antifascistas apostam na divulgação das pautas e posicionamento claro para conscientizar as torcidas a respeito da importância de defender seus interesses no esporte que amam e financiam. Polícia Militar, Federações e o Ministério Público são inimigos em comum entre as torcidas que adotam o combate ao fascismo como ideologia principal.

O futebol nasceu e cresceu, no Brasil e no mundo, como um esporte popular. O Corinthians, segundo time de maior torcida no país, foi criado por operários. Seu maior rival, o Palmeiras nasceu das mãos de imigrantes italianos, assim como o Vasco, de raízes portuguesas. O Internacional surgiu para o mundo como o clube do povo, que aceitava qualquer pessoa, independentemente de sua etnia e status social.

Hoje, o “povão” está afastado das modernas arenas. O esporte movimento bilhões de reais todo ano. Jogadores são comprados e vendidos por preços exorbitantes e recebem salários além da realidade de qualquer cidadão “comum”. A alienação dos atletas em relação às questões mais sensíveis da sociedade brasileira é visível. Nos estádios, manifestações homofóbicas e machistas são apenas cotidiano. O racismo é mais velado, mas não reluta em dar as caras em momentos de tensão. Nesse cenário desastroso e alarmante, o posicionamento de torcidas antifascistas defende, ainda com pouquíssimo suporte, as origens do esporte mais popular da Terra. Norteadas por exemplos como o Livorno e o St. Pauli, elas podem, talvez, almejar um futuro mais próspero e respeitoso dentro dos estádios. Ao menos é o que qualquer fã de futebol pode desejar se abrir os olhos para a realidade.


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