A imprensa sob ataque na disputa por poder regional

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Países do Oriente Médio estabelecem bloqueio político e econômico ao Qatar e determinam o fechamento da Al-Jazeera como contrapartida para fim de boicote

 

Canal de notícias estatal do Qatar, criado em 1996. Foto: Al-Jazeera

 

Por Matias Diego e Pedro Prata

Desde o dia cinco de junho, o Qatar enfrenta problemas com alguns de seus vizinhos árabes que decidiram cortar relações diplomáticas e consulares, além de fechar fronteiras terrestres, marítimas e aéreas com o emirado. Entre esses países se encontram Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, que alegam que o governo qatari patrocina atividades radicais e grupos terroristas com o objetivo de desestabilizar a região.

Esse grupo de países apresentou uma lista com 13 demandas para que as relações fossem normalizadas. Algumas dessas medidas são o desligamento total das relações entre Qatar e Irã, o fechamento da base militar turca em solo qatari, o fim da interferência em suas políticas e do contato com a oposição nesses países. Um dos pontos mais polêmicos foi o fim das operações do canal de televisão estatal Al-Jazeera.

No caso do veículo de comunicação, a Arábia Saudita e seus aliados solicitaram seu fechamento com o argumento de que o mesmo oferece cobertura mediática ao terrorismo e ao extremismo. Até mesmo Israel se posicionou e ameaçou proibir o funcionamento do canal no país sionista. O primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu, chegou a alegar, via Facebook, que promoveria “a aprovação da legislação necessária” para expulsar o canal do país.

 

Catar é um país banhado pelo Golfo Pérsico. Foto: Google Maps

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O governo do Qatar se negou a aceitá-las dizendo que tais medidas não respeitam a soberania do país e que as mudanças só acontecerão com base no diálogo e respeito mútuo.

O diretor da Al-Jazeera em língua árabe, Yaser Abuhilala, defendeu ao The Guardian que a atuação do canal de notícias desagrada os países vizinhos. “Eu acredito que o Qatar pagou alto preço político pela Al-Jazeera. O Qatar sempre esteve na mira por conta dela”.

Um dos ingredientes para essa crise diplomática pode ter sido o presidente americano Donald Trump, que no final de maio esteve na Arábia Saudita e declarou que os governos locais do Oriente Médio deveriam combater os grupos armados, para depois escrever um tweet dizendo: “durante minha recente viagem ao Oriente Médio eu disse que não pode mais haver financiamento de Ideologia Radical. Líderes apontaram para o Qatar – vejam! ”.

Até agora as consequências do bloqueio para o Qatar foram suavizadas com a abertura de novas rotas marítimas comerciais com o Omã, o recebimento de apoio militar e comercial por parte da Turquia e a declaração do Banco Central qatari de que conta com “enormes reservas” para enfrentar uma crise prolongada.

Outro dos resultados foi justamente o contrário do almejado pelos países que anunciaram o bloqueio ao Qatar: recentemente foi oficializado pelo governo qatari o restabelecimento das relações com o Irã depois de um ano e meio de congelamento na diplomacia entre ambos devido o ataque da embaixada do Qatar no Irã em resposta à execução de um clérigo xiita na Arábia Saudita em janeiro de 2016.

 

Um ‘satã audiovisual’

O canal de notícias foi criado em novembro de 1996 em Doha, Qatar. Fundado como órgão de comunicação estatal, recebeu U$ 137 milhões do então Emir do Qatar para sustentar seus cinco primeiros anos de funcionamento.

Sua fundação foi antecipada por uma demissão em massa de jornalistas da BBC que atuavam na Arábia Saudita. Um ano antes, o país árabe fechara o escritório do conglomerado de mídia britânico em seu território por conta de uma cobertura contrária aos interesses do governo saudita.

Muitos dos jornalistas desempregados encontraram no recém criado canal qatari uma possibilidade de emprego e levaram consigo um alto padrão de jornalismo. Esse é o principal argumento utilizado por quem alega que a Al-Jazeera é uma das únicas fontes de democracia no Oriente Médio.

A partir de então, o canal de notícias se fortaleceu e ganhou destaque. Além de ser produzido totalmente em língua árabe, trouxe a inovação da transmissão por satélite que o possibilitou chegar a um número muito grande de países e impossibilitou eventuais boicotes físicos. Ela é assistida em 130 países e possui 80 escritórios, ficando atrás apenas da BBC em número de escritórios. Governos regionais que antes contavam com poucas vozes discordantes, agora passaram a ter outra.

Por muitas vezes, a emissora deu espaço para que Israel e Irã, por exemplo, se manifestassem, dois países inimigos da geopolítica dominante e que desagradam a Arábia Saudita e seus aliados.

Em entrevista para o jornal espanhol El Español, o jornalista e editor informativo da Al-Jazeera, Anas Ben Salah, afirmou que o canal é considerado pela grande maioria dos países da Península Arábica como um “satã audiovisual, uma ferramenta de agitação que desestabiliza as arcaicas estruturas de pensamento do tradicionalismo islâmico”.

O canal não confrontava versões apenas no Oriente Médio. A Al-Jazeera foi responsável, por exemplo, pela transmissão do bombardeio ao Iraque promovido pelos Estados Unidos e Reino Unido. Além disso, um dos momentos de destaque do canal foi a cobertura da Invasão do Afeganistão, no qual a Al-Jazeera foi a única emissora a cobrir o conflito ao vivo.

No entanto, também já foi acusada de apoiar pontos de vista extremistas quando transmitiu mensagens do líder terrorista da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, logo após os atentados de 11 de setembro de 2001. Após a transmissão, escritórios da emissora no Afeganistão e no Iraque foram atingidos por bombardeios americanos.

 

Polêmica transmissão de mensagem do Osama. Foto: AP/ Al Jazeera

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 2011 houve um fato histórico que abalou o Oriente Médio desde então. Uma série de revoltas populares tentaram derrubar ditadores. Alguns países conseguiram, como é o caso da Líbia e do Egito- mesmo que o segundo já tenha sofrido golpe militar e seja governado por outro ditador. Já a Síria não conseguiu retirar a família Assad do poder e enfrenta uma guerra civil que já dura seis anos.

Novamente, a rede Al-Jazeera recebeu duras críticas contra a cobertura dos protestos. Não interessava aos ditadores que a repressão de seus opositores fosse televisionada. No entanto, países da região apontavam a tendência da rede de notícias de cobrir mais os conflitos que interessavam ao governo do Qatar.

Por exemplo, o canal é acusado de não dar visibilidade aos conflitos no Bahrein no contexto da Primavera Árabe. À época, o Qatar possuía tropas no país e, segundo acusam seus opositores, a Al-Jazeera não teria dado importância o bastante a acusações de tortura por parte do governo local.

Já no Egito, as revoltas populares fizeram o ditador Hosni Mubarak perder o poder após 30 anos e uma entidade islâmica, a Irmandade Muçulmana, subiu ao poder após eleições diretas livres. No entanto, um golpe militar tirou-os novamente do poder e os colocou sobre a alcunha de “grupo terrorista”. Em 2015, jornalistas da rede qatari no país foram presos após o governo egípcio acusá-los de apoio à organização.

O que acontece é que a Al-Jazeera é acusada de ter se tornado a principal ferramenta de desestabilização política do governo do Qatar na região. Especialistas ocidentais apontam para o papel fundamental da Al-Jazeera em inflamar protestos na Tunísia.

Yaser Abuhilala assumiu que erros foram cometidos e que é preciso rever algumas posturas. “Precisamos, em uma escala global, de um código de conduta que sirva de referência para muitos casos. Entre eles, o terrorismo”.

Independentemente da situação de crise, o fechamento de um meio de comunicação é um ataque gravíssimo à liberdade de expressão, principalmente numa zona onde a maioria dos veículos de comunicação são limitados no que se refere a liberdade de imprensa. Segundo a lista de liberdade de imprensa elaborada pelos Repórteres sem Fronteiras deste ano, de 180 países, o Emirados Árabes é o 119º, Egito 161°, Bahrein 164° e Arábia Saudita 168°. Portanto, a possível clausura da Al-Jazeera significa um retrocesso para o jornalismo a nível mundial, levando em conta a relevância da emissora qatari.

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