Por Ana Lourenço, João Abel, Paola Micheletti, Marianna Rodrigues e Yoanna Stavracas

 

Parada do Orgulho LGBT São Paulo 2017

Neste ano, o tema da 21° Parada do Orgulho LGBT de São Paulo foi “Independente de nossas crenças, nenhuma religião é Lei! Todas e todos por um Estado Laico” e contou com figuras como Anitta, Fernanda Lima, Leandra Leal, Daniela Mercury e Fafá de Belém. Entre músicas e festa, protestos contra interferências religiosas no Estado laico e a favor das Diretas Já também tomaram conta das ruas na região da Avenida Paulista.

A atração mais esperada na Parada, Anitta, fez uma breve apresentação no penúltimo trio elétrico e cantou seus sucessos “Bang”, “Sim ou não”, “Essa mina é louca” e o mais novo single “Paradinha”. Já a modelo e apresentadora Fernanda Lima, que foi madrinha da Parada deste ano, fez um discurso bastante emocionada por poder participar do evento.

De acordo com a ONG APOGLBT SP (Associação da Parada do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de São Paulo), organizadora da Parada, o tema foi discutido em várias reuniões ao longo do ano. Desenvolvido pela ONG, teve a parceria de coletivos, outras ONGs LGBTs e militantes independentes que questionam como o fundamentalismo religioso tem ganhado dentro da política grande importância aos “avanços e retrocessos morais sobre os assuntos ligados à diversidade”, afirma a APOGLBT SP.

O jornalista e pesquisador (mestrando em Ciências da Comunicação na ECA/USP), responsável por investigações sobre alteridade, direitos humanos, gênero e sexualidade, Gean Gonçalves, acredita que a Parada é um modo de “fazer política sem o uso de estratégias consolidadas como discursos, palavras de ordem e cartazes. Ela incorpora isso, mas possibilita com que muitas pessoas vivam plenamente o que são na vida pública, sem os receio, as interpelações os prejuízos que teriam que lidar em outros espaços e momentos.” Para ele, a força da Parada está justamente na celebração da pluralidade de pessoas que tornam políticas as dimensões da vida que são interpretadas como de foro íntimo. “É uma performance coletiva em prol do reconhecimento de outras subjetividades que estão fora dos mecanismos e marcadores hegemônicos”, afirmou.

Dois fortes patrocinadores participaram do movimento em 2017 promovendo o respeito às diferenças: Skol e Uber. Maria Fernanda Albuquerque, diretora de marketing da Skol, afirmou apoiar a Parada do Orgulho LGBT pois ela fomenta a cultura, colocando em foco a diversidade e promovendo antes de tudo o respeito pelo outro. “Estamos muito orgulhosos em fazer parte mais uma vez”, afirmou. Já a empresa de transporte Uber ressaltou que todos devem ter direito de serem autênticos em sua individualidade, orientação sexual e identidade de gênero, com segurança e respeito. “Mas é importante a gente ressaltar que buscamos ser aliados da comunidade LGBT, não só no dia da Parada do Orgulho, mas o ano todo”, disse Ana Pellegrini, Diretora Jurídica e Líder de Diversidade da Uber no Brasil.

A atriz e modelo transexual Viviany Beleboni criticou a forma com que o movimento foi conduzido neste ano: “poderia ter sido mais politizado”. E ainda destacou a influência dos patrocinadores no viés do movimento, “a questão é que alguns patrocinadores resolveram colocar artistas que trazem publico, e o foco da militância que prepara o ano todo algo especial para ser discutido se perdeu, a maioria foi sem saber falar parada LGBT (não parada gay), nem saber o tema do ano, sobre Estado laico”.

O público estimado pela organização foi de 3 milhões de pessoas. Com a ausência do prefeito João Doria (PSDB), a prefeitura, que investiu R$ 1,4 milhão na estrutura do evento, foi representada pelo vice, Bruno Covas. Doria viajou para Porto Rico para comemorar o aniversário de 15 anos da filha.

 

As primeiras paradas no Brasil

O ano era 1995 e a comunidade LGBT brasileira começou a dar os primeiros passos para o que conhecemos hoje como a Parada LGBT. Naquele ano, aconteceu no Rio de Janeiro a 17° conferência do ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersex), que culminou em uma pequena marcha na praia de Copacabana.

No ano seguinte, em 1996, aconteceu um ato na Praça Roosevelt, em São Paulo, com cerca de 500 pessoas para reivindicar direitos às pessoas LGBT. A partir daquele ato, diversos grupos simpatizantes da causa começaram a se reunir para organizar uma marcha anual na Avenida Paulista.

O movimento ainda era conhecido como GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes). A primeira Parada do Orgulho LGBT de São Paulo aconteceu no dia 28 de Junho de 1997, sob o tema “Somos muitos, estamos em todas as profissões”, contando com 2 mil participantes. Hoje, ela representa a maior manifestação do gênero no mundo, com um público com mais de 3,5 milhões de pessoas, recorde que bate a cidade de São Francisco, até então considerada capital gay do mundo, com aproximadamente um milhão de participantes em suas paradas.

Pedro Stephan, jornalista e mestrado em comunicação e cultura na UFRJ em violência contra gays, participa ativamente do movimento, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro desde a década de 1990. Segundo ele, a parada foi uma grande conquista, que pressionou a política na construção da cidadania. “A primeira vez que ofereci ensaio fotográfico com a Parada LGBT do Rio, que estava começando a ficar um evento de grandes proporções, a editora de uma grande revista respondeu: ‘O quêee? Tudo isso de viado, sapatão e travesti nas ruas? Que nojo!’ ”, conta Stephan. E ainda ressalta que no começo nadavam contra a maré sem nenhum apoio. Para o jornalista, as coisas mudaram, “hoje em dia seria impensável passar por uma saia justa dessas. As paradas são um marco de visibilidade, uma grande celebração.”

Apesar de ser palco de uma das maiores paradas do mundo, o Brasil é um dos países que mais mata LGBTs. De acordo com dados da ONG Transgender Europe, das 295 mortes de transexuais registradas em 2015, em 33 países diferentes, 123 ocorreram no Brasil. Segundo os dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), que há 37 anos apura os casos de morte deste grupo em todo o país, há cada 25 horas, uma pessoa LGBT sofreu violências fatais no ano passado. O estudo mostra que os casos acontecem, em sua maioria, na via pública com armas letais, como faca e armas de fogo. O levantamento ainda destaca que os gays são os que mais sofrem violência, seguidos de travestis e transexuais femininas.

Reconhecida pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, a pesquisa é feita através de informações das mortes por entidades, familiares, amigos de vítimas e, principalmente, pelos casos divulgados na imprensa.

 

 

A primeira Parada Gay

A primeira parada gay aconteceu no dia 28 de junho de 1989 em Greenwich Village, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Na cidade, havia um bar chamado Stonewall Inn, que servia de ponto de encontro entre gays e lésbicas, que cansados dos abusos e repressões das autoridades decidiram se rebelar. Na ocasião, uma batida policial invadiu o lugar, praticando atos homofóbicos, como obrigar drag queens e travestis a tirarem suas roupas e mostrarem suas genitais. A repressão policial não era inédita, porém, dessa vez o grupo decidiu revidar os ataques, dando início ao que ficou conhecido como a Revolta de Stonewall.

Na noite daquele mesmo dia, cerca de 600 manifestantes decidiram ficar e protestar contra violência das autoridades. Além do grupo, garotas e garotos de programa juntaram-se à manifestação. O confronto só foi contido às quatro da madrugada. Ao todo, treze pessoas foram presas e tanto manifestantes quanto policiais ficaram feridos. No dia seguinte, os protestos continuaram com pichações de frases como “Orgulho Gay”, “O poder das drags” e “legalize bares gays” nas paredes do bar. Durante a noite, o público voltou para o Stonewall Inn e enfrentou mais uma vez a polícia. O terceiro dia de confronto já totalizava mais de 2000 pessoas.

Um ano depois, no aniversário de um ano da revolta, 10 mil pessoas realizaram uma marcha em protesto na frente do bar, o que virou tradição. Desde então, a data é celebrada no mundo todo como o Dia do Orgulho Gay.

 

As maiores Paradas LGBTs pelo mundo

Reunindo cerca de 3 milhões de pessoas todos os anos, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo ocupou o posto de maior do mundo por três anos consecutivos. Entre 2004 e 2007, ela ganhou uma página especial no Guinnes Book, o livro dos recordes. Porém, em 2008, após diferenças consideráveis entre os números divulgados pela organização e os pela polícia militar, a marcha foi retirada da publicação.

Foto por: José Cordeiro/SPTuris

Apesar de perder o título oficial, o evento paulistano ainda é considerada o maior e um dos mais importantes do planeta, atraindo participantes do mundo inteiro e fomentando o comércio e o setor hoteleiro na cidade.   

Reprodução: Wikipédia

Logo atrás da parada brasileira, estão duas estadunidenses. A San Francisco Pride foi criada em 1970. Na época, apenas 30 participantes marcharam pelas ruas da cidade californiana. Em 2015, ano em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado em território norte-americano, a parada reuniu cerca de 2 milhões de pessoas e mais de 200 alegorias.

Reprodução: Huffpost

Do outro lado do país, a Boston Pride é conhecida por reunir comemorações durante uma semana inteira, que vão desde o hasteamento da bandeira LGBT no Boston City Hall até a parada efetivamente. A 47 ª edição aconteceu no início deste mês com o tema “Stronger Together”.

Reprodução: Andrew Medichini

 Diferente das marchas com lugar fixo, a EuroPride percorre diversos países europeus. Criada pela Associação Europeia do Orgulho Gay, em 1992, ela já passou por mais de 15 cidades, incluindo Londres, Berlim, Roma e Paris. A última edição, em 2016, aconteceu em Amsterdã, na Holanda, e durou 16 dias. O evento teve uma programação extensa, incluindo festas e debates sobre arte, cultura e religião.

Reprodução: Size Doesn’t Matter

À beira mar, a Tel Aviv Pride Week acontece em Israel. Criada em 1997, a parada atrai cada vez mais turistas todos os anos. Comemorando 20 anos de existência, sua última edição celebrou a visibilidade bixssesual e reuniu 200 mil pessoas, sendo 30 mil estrangeiros.

Reprodução: ANP

Por fim, a Canal Parade Amsterdam ganha destaque pelo modo inusitado como acontece. Ao invés de usar as ruas para marchar, os participantes sobem em barcos coloridos e decorados, que funcionam como carros alegóricos, e percorrem os canais da cidade. Neste ano, o evento irá acontecer em julho, como tema “This is my pride”, a expectativa é que ele supere a edição anterior, que reuniu 80 barcos.

 

A luta LGBT

LGBT é uma sigla que designa lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Em alguns locais no Brasil, o T, que representa a presença de travestis e transexuais no movimento, também diz respeito a transgêneros, ou seja, pessoas cuja identidade de gênero não se alinha de modo contínuo ao sexo que foi designado no nascimento (crossdressers, drag queens, transformistas, entre outros). Além disso, alguns coletivos utilizam o símbolo “+” como forma de mostrar as diversas possibilidades de orientação sexual.

“As lutas estão longe de qualquer consenso, mas se dão por diferentes estratégias. Porém, a configuração da luta das pessoas LGBT por direitos humanos se constituiu, historicamente, ao lado dos feminismos e dos movimentos negros, em prol do reconhecimento político de existências apagadas, ou seja, pelo desejo de transformações estruturais nas vidas de pessoas LGBT que são atingidas por violências e vulnerabilidades específicas há décadas”, explica Gean Gonçalves, jornalista e pesquisador de direitos humanos, gênero e sexualidade.

O movimento brasileiro nasce no final dos anos 1970, predominantemente formado por homens homossexuais. Mas logo nos primeiros anos de atividade, as lésbicas começam a se afirmar como sujeito político relativamente autônomo. Nos anos 1990, travestis e depois transexuais passam a participar mais ativamente do movimento.

As lésbicas foram as primeiras a apontar as especificidades que vivem e os apagamentos que sofriam nos encontros com os homens gays. Em seguida, vieram as travestis e as mulheres transexuais. Essas são discussões que estão acontecendo e que se refletem nas Paradas do Orgulho LGBT”, ressalta Gonçalves.

O pesquisador destaca que o movimento LGBT é marcado pela diversidade de minorias, por pessoas à margem dos padrões sociais. “Não é algo uniforme, mas é um arranjo político pela igualdade de pessoas constituídas como ‘peculiares’ em virtude de um sistema de sexo-gênero que concebe ser heterossexual e cisgênero como natural e universal”, afirma.

Em meados dos anos 1970, ganha visibilidade o movimento feminista e, na segunda metade da década, surgem as primeiras organizações do movimento negro contemporâneo, como o Movimento Negro Unificado, e do movimento homossexual, como o Somos – Grupo de Afirmação Homossexual, de São Paulo.

 

A influência da Mídia

‘Lampião da Esquina’ circulou entre os anos de 1978 e 1981, com uma tiragem de 15 mil exemplares mensais. Apesar dos números modestos, o jornal foi um marco na causa LGBT (em especial, a bandeira homossexual).

A publicação representou uma classe que não possuía voz na sociedade, mostrando-se importante para a construção de uma identidade nacional pluralista. Contou com colaboração de grandes nomes do cenário cultural brasileiro, como o pintor Darcy Penteado, o autor Aguinaldo Silva e o cineasta belga Jean-Claude Bernardet. Depois da década de 1980, poucas vezes a luta LGBT ganhou tanto espaço na mídia.

Inicialmente popularizada como uma festa do “Orgulho Gay” pelos veículos de imprensa, hoje a Parada LGBT, tem lugar cativo todos os anos nas publicações. De acordo com o jornalista Gean Gonçalves, isso ajuda a legitimar o movimento, que “só é efetivado se estiver acompanhado do reconhecimento público, da mídia e do Estado dos diálogos que a comunidade LGBT traz para a sociedade.” Mas, ainda sentimos os efeitos do reducionismo da palavra gay, “como um sinônimo ou termo guarda-chuva para todas as identidades e experiências de sexualidade”, completa.

Para Viviany Beleboni, 28 anos, a mídia pode atrapalhar quando tira o foca do tema da parada para falar os shows, celebridades e artistas que compareceram ao evento. A transexual fortemente criticada por carregar uma cruz à Parada LGBT de São Paulo ainda afirma que grande parte do trabalho pode se perder por causa disso, quando não retratam “o que foi preparado o ano todo para ser discutido naquele único dia em que o mundo para para nos ouvir.”

Gonçalves explica a abordagem da imprensa, que, segundo ele quase não oferece espaço para outras representações LGBT. Isso devido à única ideia aceita, e implantada ao longo dos anos: “de que o gay é o normal, é igual ao heterossexual, quer casar, ter filhos, viver uma vida monogâmica. Tornou-se essa a única representação a ser aspirada pelas LGBT e respeitada pela sociedade brasileira”, diz.

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