Introdução:

Por: Evelyn Nogueira

O sistema carcerário brasileiro é a prova viva de uma das maiores violações de direitos humanos na história atual. Presídios superlotados, comidas vencidas e a situação precária onde as celas se encontram fazem parte dos principais motivos destas violações.

Esses três fatores citados acima causam uma série de problemas dentro das prisões, e em casos extremos chegam a se transformar em rebeliões. Somente neste ano, duas grandes rebeliões ocorreram no norte do país devido à conflitos entre facções inimigas. As rebeliões de 2017 só não foram piores do que a do Carandiru, que além de ser a maior da história brasileira, é uma das maiores do mundo.

A matéria traça um paralelo entre todas as rebeliões já registradas no Brasil, analisa a crise que o sistema carcerário está inserida, e conta sobre a situação de mulheres encarceradas, que fere ainda mais os direitos humanos do que presídios masculinos

Rebeliões e massacres em presídios na história brasileira

Por: Evelyn Nogueira

Capa do jornal Estado de São Paulo 2001. Fonte: Estado de São Paulo

Rebelião da Ilha de Anchieta 1952

 

O presídio em Ubatuba, na Ilha de Anchieta, era considerado o Alcatraz brasileiro, e é um dos maiores da história do país. O confronto ocorreu no dia 20 de junho de 1952, entre policiais e prisioneiros que tentaram escapar.

Fundado em 1908, o presídio recebeu o nome de “Colônia Correcional da Ilha dos Porcos”, e além de presos comuns, abrigava menores infratores. A partir de 1930, começou a receber presos políticos. Em 1933, houve uma primeira revolta dentro do presídio, onde cerca de cem presos depredaram as instalações e assumiram o controle de segurança, mas guardas interviram e a situação foi controlada sem nenhuma morte.

No ano da rebelião, a prisão contava com 453 detentos, vigiados por 50 policiais. Naquela época, os criminosos mais perigosos do país eram transferidos para Ilha de Anchieta. A manhã do dia 20 de junho foi a escolhida para a ação, quando 117 presos foram buscar lenha com dois soldados, responsáveis pela segurança. A sexta-feira foi escolhida pois seria o dia que uma embarcação com os mantimentos chegaria ao presídio, como acontecia uma vez por mês. A ideia dos detentos era assaltá-la para conseguir fugir da ilha.

Um dos soldados foi morto, e o outro dominado pelos detentos que retornaram ao presídio, e começaram a trocar tiros com outros guardas. O confronto contabilizou doze detentos, dois funcionários e seis guardas mortos. Todas as celas foram abertas, liberando os outros presos, que tentaram fugir em barcos menores – uma vez que a tripulação da embarcação com os mantimentos percebeu que havia algo errado, e não completou o trajeto até a ilha -, sendo o maior com capacidade para 50 pessoas. Alguns dos barcos foram ao mar com mais de 90 pessoas, e quando começaram a afundar devido ao peso, houve um segundo confronto entre detentos que começaram a jogar uns aos outros no mar: muitos morreram atacados pelos tubarões, por tiros de seus ex-colegas de cela e até mesmo pela polícia.

Antes da fuga, alguns dos presos atearam fogo no presídio. Dos que ficaram, todos se renderam e os guardas controlaram a situação. Outros chegaram na praia de Ubatumirim nadando, e foram para o meio da mata. Uma operação foi iniciada para recuperar os fugitivos, que durou vários dias e reuniu a Marinha, Exército, Aeronáutica e forças policiais de São Paulo e Rio de Janeiro. Dos 129 que fugiram, somente seis não foram achados. A rebelião contabilizou 118 mortos, sendo 108 detentos, oito policiais e dois funcionários.

Três anos depois, a prisão foi desativada, e os detentos transferidos para a Casa de Custódia de Taubaté, um presídio de segurança máxima. Em 1977, a ilha passou a ser área de proteção ambiental, com a criação do Parque Estadual da Ilha Anchieta.

 

Massacre do Carandiru 1992

 

Conhecido como um dos maiores massacres em presídios da história mundial, o Carandiru foi palco deste cenário no dia 2 de outubro de 1992. 25 anos depois deste caso, ainda existe uma série de controvérsias na história.

Tudo começou no Pavilhão 9, uma das alas do presídio com maior superlotação. Dados do Processo Criminal apontam que o Carandiru tinha capacidade para 3.300 pessoas. Todo o presídio, contava com 7.257 detentos, sendo 2.070 destes apenas no pavilhão onde a rebelião se iniciou. Por volta do horário do almoço, uma briga começou entre dois detentos, do lado de fora das galerias. Dois presos foram feridos, e os policial tentaram conter a situação, sem sucesso. Nesse momento, os presos se dividiram em dois grupos rivais e a briga se espalhou por todos os andares. A PM foi acionada para ajudar os guardas locais.

Após uma tentativa falha de negociação, os diretores foram retirados do presídio pela Polícia Militar, que teve autorização quase que imediata do então secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, a invadir o local. A ordem foi dada às 16h25, quando os primeiros disparos foram ouvidos. Segundo o coronel Ubiratan, 86 homens participaram da ação, enquanto a promotoria diz que foram mais de 300, sendo a maioria sem crachás de identificação.

A situação no térreo foi controlada sem nenhuma morte. Já no primeiro andar, foram registradas 15 mortes, onde a ROTA agiu sob o comando de Ronaldo RIbeiro Santos. No segundo andar a situação foi pior: 78 mortes foram registradas, também com ação da ROTA, mas dessa vez sob o comando de Valter Alves Mendonça. No terceiro andar o confronto foi um pouco mais brando: ao total foram 8 mortes em ação do COE, Comandos e Operações Especiais da PM, sob o comando de Arivaldo Sérgio Salgado. No quarto e último andar, 10 mortes foram registradas na ação da Gate, Grupo de Ações Táticas Especiais, sob o comando de Wanderley MAscarenhas de Souza. A operação da Polícia Militar durou 20 minutos, e ao todo, contabilizou 111 mortes.

Ao fim da operação, a PM ordenou aos sobreviventes que tirassem suas roupas e corressem nus para o pátio, e logo em seguida foram obrigados a carregar os mortos para  a galeria do Pavilhão 9. Apenas por volta da 0h, os detendos foram autorizados a voltar para suas celas, e os corpos começaram a ser retirados do local. Os carros da PM deixaram a Casa de detenção somente às 4h30. Doze horas depois o governo anunciou oficialmente o total de mortes na operação, meia hora antes do fechamento das urnas do 1º turno das eleições municipais.

Massacre da Papuda 2000

 

O presídio de segurança máxima de Brasília sofreu um massacre no dia 17 de agosto de 2000, e durou apenas 50 minutos. Um dos menos falados na mídia brasileira, foi praticado por cerca de 200 detentos, que estavam munidos de armas artesanais.

Os presos invadiram o Pavilhão B e atearam fogo aos colchões da cela 1, que estava com 15 presos. Um grupo se juntou no banheiro, tentando fugir das chamas, sem muito sucesso. Em pouco menos de uma hora, 11 pessoas morreram queimadas vivas ou sufocadas pela fumaça. O presídio tinha capacidade para abrigar 600 presos, mas 1.200 estavam detidos lá.

 

Megarrebelião simultânea em São Paulo 2001

 

29 unidades prisionais do Estado de São Paulo iniciaram uma megarrebelião no 18 de fevereiro de 2001, sob a coordenação do PCC (Primeiro Comando da Capital). Ao todo, 25 presídios, 2 delegacias e 2 cadeiões foram alvo da rebelião.

Os líderes organizaram o movimento por meio de celulares, transportados ilegalmente para dentro dos presídios. A ação aconteceu em um domingo, dia de visitação, deixando assim os presídios ainda mais cheios, com parentes e amigos de detentos.

Os detentos protestaram contra a transferência de algum dos líderes do PCC, que estavam no Carandiru e seriam deslocados para penitenciárias no interior. Justamente no Carandiru, a situação ficou ainda pior: com 7.000 homens presos, quase 5.000 parentes e amigos foram usados como reféns.

Contabilizando 27 mil detentos envolvidos na ação, somente no dia seguinte os dados foram revelados: houveram 16 mortos e 77 feridos, entre policiais e presidiários. A reivindicação pela estadia dos líderes do PCC na capital não foi atendida.

Chacina do Urso Branco 2002

No dia 1º de janeiro de 2002, em Porto Velho, ocorreu a Chacina do Urso Branco. 27 presidiários foram mortos por um grupo de outros detentos, enquanto ocorria uma invasão da Polícia Militar para terminar com a rebelião.

O episódio teve repercussão internacional devido à brutalidade: decapitações, enforcamentos e choques elétricos foram utilizados para matar os detentos.Após isso, o Brasil foi denunciado à COmissão Interamericana de Direitos Humano, da Organização dos Estados Americanos. 16 pessoas foram processadas pelos crimes, e a primeira etapa do julgamento começou apenas em 2010. até agora, sete dos dez acusados foram condenados a penas superiores à 400 anos de prisão.

Casa de Custódia de Benfica – 2004

Entre os dias 29 e 30 de maio, mais uma chacina teve início em um presídio brasileiro. Localizada no Rio de Janeiro, a Casa de Custódia de Benfica foi palco de uma rebelião que resultou em 30 mortos.

Tudo começou quando 14 detentos fugiram pelo portão principal da unidade, após o presídio ser invadido por homens fortemente armados. A polícia foi ativada, e começou uma troca de tiros. O motim foi encerrado apenas 75 horas depois de seu início, quando policiais entraram no presídio após o restabelecimento do fornecimento de energia elétrica.

A exigência dos detentos que começaram a rebelião eram duas: a presença do pastor Marcos Pereira dentro do presídio, e a transferência de 179 detentos, que eram de uma facção rival. O pastor entrou no presídio na tarde da segunda-feira, com a intenção de negociar a rendição de detentos.

Ao todo, 26 pessoas foram feitas de reféns, e liberadas aos poucos. Apesar de o número oficial de mortos ser 30, há informações de que esse número poderia chegar a 50, uma vez que muitos corpos foram mutilados, dificultando a contagem e identificação de mortos.

Chacina no Presídio de Pedrinhas 2013

 

Em 8 de novembro de 2013, teve início uma nova rebelião na principal rede de presídios do Maranhão. Notícias sobre conflitos entre facções rivais eram escritas quase que semanalmente. Em 12 meses, os conflitos resultaram em 65 mortos.

A ação foi iniciada com o objetivo de exterminar membros de uma facção rival. O episódio foi marcante no país por conta da barbárie: vídeos de presos sendo decapitados foram filmados e postados na internet.

O caso levou a uma investigação sobre abusos e até mesmo casos de canibalismo. A unidade tinha capacidade para abrigar 1,7 mil pessoas, e abrigava 2,5 mil.

 

Rebeliões de presídios no Ceará 2016

 

Em maio de 2016, iniciou-se uma onda de rebeliões em presídios que só acabou no ano seguinte. A rebelião teve início na manhã do dia 21, na Casa de Privação Provisória de Liberdade Elias Alves da SIlva (CPPLIV), em Itatinga. Detentos quebraram cadeiras, grades, armários e queimaram colchões. A polícia divulgou que a rebelião teve início após agentes penitenciários proibirem a entrada de familiares no presídio.

Próximo a esse presídio, na Casa de Privação Provisória de Liberdade Professor Clodoaldo Pinto (CPPLII), familiares do detentos fecharam a BR-116, em protesto por não conseguirem visitar os parentes.

Ao todo, foram registrada 14 mortes, apesar do juiz corregedor de presídios informar que o número poderia chegar a 26.

 

Rebelião da Penitenciária agrícola de Monte Cristo – 2016

 

Também pouco falada na mídia, a segunda rebelião de 2016 deixou 25 mortos em Roraima. O conflito teve início no dia 16 de outubro, e foi iniciado por uma briga entre liderança de facções rivais. A briga entre o PCC e o Comando Vermelho (CV) começou quando presos da ala 14 invadiram a ala 12, e começaram a se enfrentar com pedaços de pau e vergalhões. 100 familiares foram feitos de refém durante o horário de visitação, mas todos foram liberados.

O Sindicato dos Agentes Penitenciários de Roraima informou que ao menos seis presos foram decapitados e queimados. A rebelião teve fim quando o Batalhão de Operações Especiais entrou na prisão. O governo afirmou que todos os detentos mortos pertenciam ao Comando Vermelho, inclusive o líder da facção no Estado, Valdnei de Alencar.

 

Rebelião da Penitenciária Ênio dos Santos Pinheiro 2016

 

Somente depois da terceira rebelião consecutiva em um ano, a mídia começou a dar atenção ao caso. Ao menos 18 pessoas foram mortas em dois confrontos envolvendo novamente facções rivais dentro dos presídios.

A Secretaria de Estado de Justiça informou que oito detentos morreram durante a rebelião, e 22 ficaram feridos. A rebelião teve início por volta de 1h, no Pavilhão B, quando um grupo de detentos ligado ao Comando Vermelho entrou em confronto com a facção rival O secretário a Sejus afirmou que 30 detentos foram transferidos para outras unidades.

 

Rebelião em Manaus 2017

 

A onda de rebeliões em presídios teve fim somente no início deste ano. A rebelião em Manaus durou 17 horas, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim. Como nas outras rebeliões, tudo começou a partir de uma briga entre facções rivais.

Segundo informações da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas, por volta do início da tarde, seis corpor foram jogados para fora do presídio, sem as cabeças. Durante a noite do dia 1º de janeiro, 12 agentes carcerários ainda eram mantidos como reféns. Outros agentes conseguiram fugir antes do caos se instalar no presídio.

A secretaria de segurança ainda registrou fugas, mesmo sem saber a quantidade exata de detentos foragidos. No início do dia seguinte, 15 deles, que se escondiam na mata ao redor do presídio foram pegos.O motim durou ao todo 17 horas, e foram contabilizadas 56 mortes. O massacre foi o segundo maior do país, ficando para trás apenas do Carandiru.

 

 

Crise do sistema carcerário brasileiro

Por: Fernanda Gütschow

Foto tirada de uma célula em Guarulhos (prisão não identificada). Fonte: Jornal Nexo

As rebeliões que aconteceram em Manaus, Roraima e Bauru, apenas no início deste ano, evidenciaram a crise pelo qual o sistema prisional brasileiro passa. Porém, as revoltas e chacinas não são fatos isolados. Em média, uma pessoa é assassinada por dia nos presídios do país.

Logo após os episódios, a diretora do escritório da ONG Human Rights Watch de São Paulo, Maria Laura Canineu, comentou: “Nas últimas décadas, autoridades brasileiras gradativamente abdicaram de sua responsabilidade de manter a ordem e a segurança nos presídios”. Alguns fatores fizeram com que o sistema carcerário chegasse ao nível catastrófico que está hoje.

O Brasil é um dos países que mais prendem pessoas, perdendo apenas para Estados Unidos, China e Rússia. Com políticas equivocadas e investimentos governamentais insuficientes, as prisões estão superlotadas. O número de vagas é menor do que o número de presos. Estima-se que haja 1,5 preso para cada vaga, tendo estados em que o índice é ainda mais alto.

Segundo Canineu, a superlotação dos presídios é uma grave violação dos direitos humanos. “O fracasso absoluto do Estado nesse sentido viola os direitos dos presos e é um presente nas mãos das facções criminosas, que usam as prisões para recrutar seus integrantes”.

A ineficiência da Justiça agrava ainda mais a superlotação. Entre os mais de 500 mil detentos, cerca de 222 mil estão sem julgamento ou ainda não foram condenados à prisão, por conta da lentidão do processo penal brasileiro.

Outro fator agravante, é a nova política de drogas, adotada em 2006, que distingue usuário e traficante. O usuário passou a ser condenado a penas leves (ou seja, advertência, serviço comunitário ou medidas educativas), enquanto o traficante é condenado de 5 a 15 anos de prisão, mais uma multa que varia de 500 a 1500 reais.

Em relação às penas, não há problemas. A única questão é a subjetividade da lei. O juiz é quem decide se a pessoa é usuário ou traficante, após analisar oito critérios, incluindo “natureza” e “quantidade de substância”. Dessa forma, muitas pessoas com pequenas quantidades de droga estão sendo presas, baseadas apenas nos relatos policiais.

A manutenção de presos provisórios junto com condenados também afeta o sistema carcerário. O número de pessoas presas provisoriamente é equivalente à falta de vagas. Cerca de 40% do total de presidiários brasileiros estão nessa condição.

A diretora-executiva do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), Isadora Fingermann, afirma que as condenações a regime fechado sem necessidade possuem parcela de responsabilidade na superlotação.

Quando o condenado recebe menos de oito anos de reclusão, a pena pode ser cumpria no regime semiaberto ou aberto, segundo o Código Penal. Entre o total de presos, 53% foram condenados desta forma e somente 18% cumprem de forma mais branda.

Além de resolver os problemas aqui levantados, a melhoria da educação básica e o combate ao crime organizado são questões que auxiliam na solução da situação atual do sistema carcerário brasileiro.

 

Entenda as unidades prisionais brasileiras

Fonte: Opinólogo

Por: Ananda Portela

O sistema prisional brasileiro, conjunto de prisões, cadeias e presídios, é um dos mais críticos e precários do mundo. Num período de 14 anos, de 2000 a 2014, o crescimento da população carcerária no território brasileiro foi de 168%, segundo o Ministério da Justiça. O sistema carcerário do País abriga quase o dobro de pessoas que teria capacidade. Para abrigar os mais de 620 mil presos, o Brasil conta com 1,4 mil unidades prisionais. No entanto, a Lei de Execução Penal brasileira prevê diferentes tipos de unidade prisional. Entenda:

1. Penitenciárias:

As penitenciárias abrigam os presos condenados ao regime fechado. Por lei, os detentos devem ter cela individual, com dormitório e banheiro. As celas devem ter condições salubres de sobrevivência e ter área mínima de seis metros quadrados. Porém, não é isso que acontece. Diversos documentários retrataram o cotidiano dos presos e verificaram que, em várias penitenciárias, os detentos são expostos a péssimas condições de vida.

Segundo uma pesquisa realizada em 2014, o País possui 260 penitenciárias, que representam 18% das unidades prisionais brasileiras.

2. Colônias Agrícolas e Industriais:

As colônias agrícolas abrigam detentos em regime semiaberto. Os presos podem ficar em quartos coletivos e podem trabalhar nas colônias. Esse trabalho ajuda a diminuir a pena. Além disso, o condenado pode trabalhar ou estudar fora da prisão durante o dia e voltar para a cela antes das 19h.

3. Casa do albergado

Este tipo de unidade prisional também se destina aos detentos que cumprem regime semiaberto, além dos condenados que podem passar o fim de semana em casa. Vale ressaltar que os presos não ficam trancafiados atrás das grades e o espaço não pode haver obstáculos contra fuga. A casa do albergado também deve ter espaços para aulas e palestras. O estado brasileiro com maior número deste tipo de estabelecimento é Rondônia.

4. Cadeia pública

As cadeias públicas são utilizadas para manter detentos que estejam em regime provisório, isto é, aqueles que aguardam sentença. Elas são responsáveis por 51% do das unidades prisionais brasileiras.

Prisioneiras

Se a própria questão carcerária brasileira é pouco discutida, quem dirá a vida de milhares de mulheres que vivem atrás das grades. Para maior entendimento, separamos 5 fatos importantes sobre as prisões femininas no Brasil, abrindo espaço para um novo espaço de reflexão.

Por: Marilia Maaz

01: Como é a vida em uma prisão feminina

Fonte: UNODC

Desde que a jornalista Nana Queiroz deu voz a milhares de mulheres que vivem dentro do sistema penitenciário feminino brasileiro, o assunto vem ganhando cada vez mais reconhecimento.

Como a mesma informou, o números de prisões femininas no país é muito menor do que o necessário. Mesmo com 53 penitenciárias no país, muitas mulheres ainda são mantidas em delegacias de polícia e carceragens superlotadas, com infraestrutura inadequada.

Além disso, em seu livro ‘’Presos que menstruam’’, a jornalista aponta que o sistema carcerário brasileiro tratam as mulheres assim como os homens, o que implica em uma noção de higiene e cuidados da saúde muito menores do que realmente necessário. Em sua coluna para a revista Galileu, em 2015, Nana relata que não é lembrado ‘’que elas precisam de papel higiênico para duas idas ao banheiro em vez de uma, de papanicolau, de exames pré-natais e de absorventes internos’’, diz. A ativista da Pastoral Carcerária Heidi Cerneka, completa dizendo que muitas precisam improvisar com miolo de pão’’.

Por mais que o assunto tenha ganhado uma maior luz, isso não quer dizer que tenha sido totalmente exposto. Devido ao sucesso da série produzida pela Netflix ‘’Orange is the new Black’’, que conta sobre a vida de prisioneiras em uma prisão de segurança mínima nos EUA, a idéia de ‘’prisão para mulheres’’ foi totalmente distorcida.

‘’Piper Chapman, protagonista da série Orange is the New Black, provavelmente não sobreviveria numa prisão brasileira. Se a loira ficou abalada ao encarar as prisões limpinhas dos Estados Unidos, como reagiria às masmorras medievais malcheirosas e emboloradas brasileiras, nas quais bebês nascem em banheiros e a comida vem com cabelo e fezes de rato?‘’ -Nana Queiroz, Revista Galileu (2015)

 

Mostrando uma realidade totalmente contrária a Brasileira, onde as celas são escuras e sujas, além de super lotadas, os episódios fazem mostrar que a vida como carcereira não é muito difícil. Mal sabem elas que ‘’os vasos sanitários, além de não terem portas, têm descargas falhas e canos estourados que deixam vazar os cheiros da digestão humana. Itens como xampu, condicionador, sabonete e papel são moeda de troca das mais valiosas e servem de salário para as detentas mais pobres, que trabalham para outras presas como faxineiras ou cabeleireiras’’, como relata Queiroz em seu livro.

 

02. Como é o estabelecimento prisional

 

Segundo um documento lançado pelo Infopen Mulheres, levantamento nacional de informações penitenciárias do Ministério da Justiça em 2015, os estabelecimentos prisionais em que as mulheres se encontram estão em condições de lotação, além de falta de estruturas para berçários, creches e celas específicas para gestantes.

Além disso, foi revelado também que de 1.420 unidades prisionais do país, apenas 103 são exclusivamente femininas (dando um total de 7%), enquanto 1.070 são masculinas, 239 mistas (que atingem os dois sexos) e 8 unidades que não informam sua divisão de gênero.

De acordo com o coordenador do DMF/CNJ Luís Geraldo Landredi, ‘’Os estabelecimentos penais, as estruturas internas desses espaços e as normas de convivência no cárcere quase nunca estão adaptadas às necessidades da mulher, já que são sempre desenhadas sob a perspectiva masculina. O atendimento médico, por exemplo, não é específico. Se já faltam médicos, o que dirá de ginecologistas, como a saúde da mulher requer’’, declarou no portal da CNJ (http://www.cnj.jus.br/).

Ainda segundo a pesquisa, 34% dos estabelecimentos femininos dispõem de cela ou dormitório adequado para gestantes, enquanto nos mistos, somente 6% das unidades possuem espaço específico para a custódia de gestantes. Em relação à berçários, 32% das unidades exclusivamente femininas contam com o espaço e o misto apenas 3%. O mais preocupante são as creches: 5% das unidades femininas tem uma, enquanto não há registros em instalações mistas.

03. A população carcerária feminina teve um acréscimo de 567% em 15 anos

Não se assuste ainda com o número: a pesquisa,  também realizada pelo Infopen Mulheres foi feita em 2015 e não se sabe o número atual. Na época em que a pesquisa foi realizada, as mulheres representavam 6,4% da população carcerária do Brasil, girando em torno de 607 mil detentos.

Numero de crescimento carcerário feminino e masculino. Fonte: jornal Nexo

Além disso, cerca de 30% das presas aguardam julgamento. com Sergipe disparando na lista: 99%das detentas encontram-se nessas condições. Vale lembrar, também, que nem todas estão restritas a uma penitenciária feminina, já que 69% dos presídios são mistos.

04: Perfil de uma detenta

Fonte: Pesquisa Infopen

Tipos de crimes cometidos pelas detentas. Fonte: Jornal Nexo

 

 

05. Para saber mais

  • Documentários

 

Bagatela

https://www.youtube.com/watch?v=VrgY_ol9lC4

 

O documentário, que foi exibido periodicamente na TV Cultura em 2010, tem como objetivo relatar o drama de mulheres presas por pequenos furtos, além de discutir a seletividade do Direito Penal.

 

O Cárcere e a Rua

 

https://www.youtube.com/watch?v=fr3blY9FlOo

 

Produzido pela a gaúcha Liliana Sulzbach, o documentário vencedor da sua categoria em Gramado 2004, acompanha a vida de diversas presas que foram soltas e tentam recuperar suas vidas.

 

  • Livros

 

Prisioneiras

Escrito por Drauzio Varella, que trabalhou como médico voluntário em penitenciárias desde 1989, relata o dia a dia e o cotidiano de uma prisão feminina, além de contar histórias de algumas detentas e mostrar como funcionam as leis que elas criam dentro da prisão.

 

 

Presos que menstruam

Já citado na matéria, o livro de Nana Queiroz narra como as mulheres do sistema carcerário feminino ainda são tratadas como homens e como as mesmas batalham por uma melhoria de vida.

 

 

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