Netflix vs Cannes: qual o futuro do cinema?

0

Por Andressa Lima, Carolina Abrantes, Carolina Lameirão, Fred Lopes e Paulo Yamamoto

 

O festival de cinema de Cannes recebeu, pela primeira vez em maio deste ano, uma produção do serviço de streaming Netflix em sua principal categoria de disputa. A provedora concorreu com o drama ecológico-juvenil “Okja”, do cineasta coreano Bong Joon-ho. A sessão com o filme provocou uma onda de protestos dos jornalistas presentes, que acreditavam que a obra não deveria disputar a Palma de Ouro.

O longa foi recebido entre vaias e aplausos, principalmente entre aqueles que criticam o fato de que o filme não foi para as salas de cinema, indo direto para a exibição em televisões, tablets e celulares. O fato levantou um mal-estar entre acusadores e defensores deste modelo de distribuição, abrindo espaço para uma polêmica de qual é o limite entre cinema e televisão. Só que essa não é a primeira vez que a sétima arte vê seu rumo ser colocado em xeque.

A história do cinema

O cinema nem sempre foi como é hoje. Voltando ao passado, a manifestação estética, que muitos chamam de 7º arte, se iniciou na França, no final do século XIX, em 1895. No subsolo de um café em Paris, os irmãos Louis e Auguste Lumière inventaram o cinema. Com uma sessão pública, rápida e barata, 33 assentos foram ocupados por cerca de vinte minutos.

Atualmente, o cinema se baseia em projeções públicas de imagens animadas. Mas, para se chegar a projeção cinematográfica atual, muitos processos de investigação foram feitos. O cinema nasceu de várias inovações que vão desde o domínio fotográfico até a síntese do movimento utilizando a persistência da visão com a invenção dos jogos ópticos.

No século XIX, muitos aparelhos que buscavam estudar o fenômeno da persistência retiniana, que mantém a imagem em fração de segundos na retina, foram construídos. Entre um dos inventos, está o Cinestoscópio, inventado por Thomas A. Edison, que consistia em um filme perfurado, projetado em uma tela no interior de uma máquina, na qual só cabia uma pessoa em cada apresentação. É a partir do aperfeiçoamento do Cinestoscópio, que o “Cinematógrafo” é criado pelos irmãos Louis e Auguste Lumière. O cinematógrafo era ao mesmo tempo filmador, copiador e projetor, e foi considerado o primeiro aparelho realmente qualificado de cinema.

Em alternativo a Hollywood existiu vários outros lugares que investiam no cinema de arte e contribuíram para seu desenvolvimento. Por exemplo na França, os cineastas entre 1919 e 1929 começaram um estilo chamado de “Cinema Impressionista Francês” ou cinema de vangyarda. Na época, se destacaram o cineasta Abel Gance com seu filme épico “Napoleon” e “J’Accuse” e Jean Epstein, com seu filme “A queda da casa de Usher”, de 1929.

Na Alemanha surgiu o expressionismo alemão onde se destacam os filmes “Das Cabinet des Dr. Caligari” de 1920, do diretor Robert Wiene. E os filmes do diretor Friedrich Wilhelm Murnau de 1922, “Nosferatu” e “Phantom”.

Na Espanha surgiu o cinema surrealista que destacou o diretor Luis Buñuel, com o filme “Um Perro andaluz”. Na Rússia se destacou o cineasta Serguei Eisenstein, que criou uma nova técnica de montagem, chamada montagem intelectual ou dialéctica.

Desde o início, inventores e produtores tentaram casar a imagem com um som sincronizado. Mas nenhuma técnica deu certo até a década de 20. Assim, durante 30 anos, os filmes eram praticamente silenciosos sendo acompanhados muitas vezes de música ao vivo, outras vezes de efeitos especiais e narração e diálogos escritos presentes entre cenas. Com destaque para Charles Chaplin, considerado uma das figuras mais importantes do cinema mudo.

Infelizmente, cerca de 90% dos filmes mudos se perderam, ou por falta de cuidado ou de boa conservação. De fato, a maioria dos filmes mudos foi derretido, a fim de recuperarem o nitrato de prata, um componente caro.

A indústria cinematográfica atual é um mercado exigente e promissor para diferentes áreas. Não são apenas os atores e atrizes que brilham nas cenas que são apresentadas a um público, mas o filme precisa englobar uma série de fatores, como a equipe profissional. O roteirista, o diretor, o diretor de fotografia, profissional de artes visuais, compositor musical, produtor, entre outros. Com o surgimento do som, em seguida da cor até os formatos maiores de tela e projeção, o cinema ganhou grande evolução e tem grande importância. Sem contar com o 3D digital. Com as novas tecnologias, houve uma eliminação de cenas desnecessárias e pouco explicativas para o enredo do filme e uma grande aproximação com a realidade por meio de efeitos especiais, e outros recursos como figurinos, cenários e elementos de cena. Assim como todas as mídias existentes, o cinema evoluiu.

O som ao redor

Nos primórdios do cinema, os filmes eram acompanhados de música ao vivo, executada por uma banda que ficava responsável por trilhar o filme conforme ele era exibido aos espectadores. Muito disso se devia à associação que o cinema tinha como um espetáculo circense – o ilusionista francês Georges Méliès, ícone dessa fase, é a prova disso. Contudo, com o cinema ganhando seu próprio espaço, diversas preocupações foram surgindo, inclusive a necessidade de um cinema sonoro, trilhado.

O primeiro filme com som que se tem registro é o musical “O cantor de jazz” (1927). Contudo, a técnica ainda era custosa, pois o longa foi gravado sem som e depois as músicas foram incluídas, com a dublagem dos próprios atores. Mas não demorou muito para as coisas se desenvolverem: dois anos depois o cinema hollywoodiano já era quase todo falado. Em palestra realizada na Cinemateca Brasileira, o consultor da Dolby Carlos Klachquin destacou também o filme “Don Juan” (1926), por ser um dos percursores do sistema de som óptico, tornando a técnica viável comercialmente. “Não basta ter uma invenção genial, ela tem que funcionar de forma prática na realidade da rua, ter um valor que permita a compra e que as pessoas e a indústria se interessem”, argumenta.

Daí para a frente, o som foi ganhando espaço e sendo visto, para além de um mero acessório, como um recurso de narrativa. A animação “Fantasia” (1940), também representa um marco, por ser a primeira experiência de filme cujo o som não vinha unicamente das caixas por trás da tela – o famoso som surround, que espalhava alto-falantes pela sala. O som digital, introduzido na década de 1990, também foi outro divisor de águas. E não tem como negar: o impacto foi tão grande nessa indústria que toda a linguagem da sétima arte teve que ser repensada.

Os efeitos que o som provocou no cinema foi analisado por ele mesmo, em diversas obras. Destacamos no vídeo a seguir algumas, como “Crepúsculo dos Deuses” (1950) e “O Artista” (2011).

As tecnologias na sala escura

Frente às mudanças da sociedade, o cinema tem buscado se reinventar para não se tornar obsoleto. Tanto no Brasil, Estados Unidos e outros países do mundo, a era de convergência digital tem alterado a relação que o público geral tem com as telonas. Tv digital, ferramentas de streaming, celulares e a própria internet são algumas das novidades tecnológicas que chegaram para concorrer com o cinema e fizeram com que a indústria cinematográfica se remodelasse para garantir seu espaço no século XXI.

De acordo com Chuck Tryon, autor de Reinventing cinema – Movies in the age of media convergence (“Reinventando o cinema – Filmes na era da convergência das mídias”), uma das alternativas dos grandes estúdios é a aposta em franquias de entretenimentos. Harry Potter, Crepúsculo e universo Marvel são alguns exemplos. “Cineastas independentes frequentemente são forçados a serem mais criativos na distribuição, sobretudo porque os estúdios se concentram cada vez mais na produção e distribuição dos grandes filmes de franquia”, contou em entrevista ao G1.

Apostando em tecnologias que tornam a experiência audiovisual cada vez mais marcante e a diferencia daquela tida em casa, novas formas de filmar têm surgido, como os formatos 3D e o 4D. A aposta em uma melhor definição da imagem para o telespectador é uma das vias de escape do cinema nos dias de hoje.

A imagem 3D, que inclui a profundidade na experiência audiovisual, diversifica o modo com que o telespectador interage com o filme. Ampliando a percepção com o auxílio dos óculos 3D, a sensação de proximidade com as cenas é expandida. Já a tecnologia 4D inclui efeitos físicos sincronizados com a exibição do filme em 3D na tela; dessa forma, as cenas que envolvem chuva, ventos, tremores entre outras, podem ser simuladas e causar uma sensação proximidade com a vida real.

 

O futuro da tela grande

Com o crescimento das produções feitas pelas grandes plataformas de streaming, como Netflix e Amazon, o cinema vive um período de transição no mercado. A forma de consumir filmes está mudando e a indústria cinematográfica está sentindo essa mudança. As salas escuras vêm perdendo espaços para a comodidade dos vídeos on-line, e a grande prova de que essa nova forma de consumir material audiovisual está chegando para ficar é o festival de Cannes deste ano.

Netflix participou pela primeira vez no Festival deste ano, seguindo exemplo da Amazon que concorreu no ano passado, e não apenas concorreu mas levou a Palma de Ouro com sua produção “Okja”. A comunidade cinematográfica estremeceu com a entrada da plataforma on-line no festival, os jurados do evento se posicionaram publicamente sobre o ocorrido. Segundo o presidente jurado do Festival, o diretor Pedro Almodovar, “Seria um paradoxo dar a Palma de Ouro a um filme que jamais vai ser visto em uma tela grande”.

O Festival francês vetou a participação futura de plataformas de streaming, criando uma regra similar a usada no Oscar. Só será permitida a competição entre filmes que entraram em cartaz nos cinemas franceses após o evento de Cannes. Esse iniciativa foi tomada após a pressão das salas exibidoras do mercado francês, a fim de não perder o público que paga pelo prazer da sala escura e tela grande.

Mas com todo esse alvoroço criado na edição de 2017 do Festival, uma discussão veio a tona: qual é o futuro do cinema? Para entender melhor sobre a polêmica toda, conversamos com dois especialistas em cinema, o professor doutor pela USP Renato Levi Pahim e também com o sócio da academia internacional de Cinema Julio Wainer. Conversamos um pouco sobre suas perspectivas para os novos caminhos do audiovisual, qual é a proposta de Cannes e sobre como o mercado e o cinema interagem entre si. Ouça.

Share.

About Author

Leave A Reply