Artistas na rua: encontros inesperados

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Por Alessandra Tavares, Douglas Silva, Julia Bulbov, Julia Fregonese e Mayara Sousa.

No dia 13 de junho, sábado, a equipe foi à Avenida Paulista a procura de artistas na rua que compartilharam suas histórias. Os relatos envolvem trabalhos que vão além da geração de renda, e alcançam temas como necessidade, preconceito e resistência artística. Carlos Resende é cartunista e retratista, mas trabalha também para diversas empresas e editoras, realizando eventos e criando ilustrações. Camilo Pueblo é artista plástico e vende na Avenida seus quadros que têm como inspiração a pintora mexicana Frida Kahlo. E por fim, Alexandre de Oliveira é baterista na banda The Esquina, que não se conforma a espaços confinados.

Carlos Resende, “Resende”, 50 anos

“Há alguns anos, antes da lei municipal do artista de rua, que foi criada pelo Haddad, os artistas de rua eram espancados. Não sei se vocês sabiam disso. Depois do espancamento de um palhaço, um artista profissional que já tinha trabalhado em vários países, em plena Avenida Paulista. Depois desse espancamento público foi institucionalizada essa lei municipal. Ainda falta muito para evoluir.

Eu não trabalho só com retratos e caricaturas. Eu trabalho também com pintura digital, um pouco com animação e escultura digital. Trabalho com arte há mais 35 anos. As pessoas acham que quem trabalha na rua, mora na rua. Isso é um equívoco bárbaro. Eu trabalho na rua, mas também trabalho com vários eventos de empresas de porte, multinacionais, estive no Fun Festival no Jockey Club, trabalhei com a Jack Daniel’s e várias outras marcas. Trabalho também para várias editoras.

No Brasil tudo é sempre muito equivocado. As pessoas sempre analisam tudo de uma forma muito rasa. No último domingo eu fiz um casal de americanos com dois filhos. Eles me perguntaram porque eu não tinha recebido lanche e quanto eu recebia de salário. Eu falei: ‘Como salário, cara?’. Ele respondeu o seguinte: ‘É um absurdo, cara. Nos Estados Unidos e na Europa existe salário pago pelo Governo, pela Prefeitura’. Porque o artista de rua é uma atração turística.

Arte para mim é sintetizar o cotidiano. Você pode se manifestar em cinema, artes plásticas, literatura, poesia. É você conseguir fazer uma nova linguagem da realidade.”

 

Camilo Pueblo, 23 anos

“Faz duas semanas que não venho aqui. Hoje não vendi nada. Semana passada vendi três quadros. É difícil precificar o que não tem preço. As pessoas questionam. Já que são materiais recicláveis, já que não existe um valor de reposição desses materiais, como estipular um valor? Pelas horas de trabalho? Pelo tema? Ainda não sei, ainda não tem uma tabela, e aí acho que vai do entendimento da cabeça das pessoas. A arte não se coloca no valor. Para muitos é muito barato, e para muitos é muito caro. Eu vendo em média por R$ 120. Eu venho desenvolvendo essa técnica há dois anos, comercializando há dois meses somente. São objetos que tem uma utilidade. É um objeto de decoração, ou seja, é um objeto de design. Porém cada obra é diferente da outra. Não existe base e molde nenhum.

Arte é re-existência para mim, o que também é uma forma de resistência. Produzir arte é uma causa de luta, onde estamos agora. Onde há ser humano, há arte. Não tem como desvincular o fazer artístico. Isso o que estou fazendo, expondo aqui na Paulista, com esse apelo comercial, vem na verdade de um desejo que é infinito e que não vai ter fim. Acho que beira a necessidade esse fazer, necessidade de produzir. Os temas, vocês repararam, são Fridas Kahlo. Começou com a ideia da Frida. Eu tento passar um pouco da história da Frida através da indumentária, da roupa.

Isso aqui, assim como qualquer forma de arte, é um trampolim para novas ideias. O desenvolvimento não é da técnica, é do meu desenvolvimento, sacou? Eu estar aqui conversando com vocês, a rua abre essa possibilidade de território de diálogo.”

 

Alexandre de Oliveira, “Alex AC”, 39 anos

“No meio musical, a gente sofre muito com o desrespeito intelectual. Às vezes você está no meio de uma música tocando, o cara tá solando, dando o seu melhor, e chega o dono bar e diz: ‘Abaixa aí!’. Isso foi me cansando. É como se você fosse uma vitrola à disposição para tocar a música que ele quer, no volume que ele quer. E não é assim. A música não é uma linha reta. A música é uma montanha, então você sobe, você desce. O The Esquina nasceu disso, de liberdade musical e encontros inesperados.

O Brum (guitarra) tem quase 30 anos de carreira, eu tenho 20 anos de carreira, o Caio (voz e baixo) tem uns 15 anos de carreira. A gente já é músico carimbado, todo mundo já tem disco gravado, tem projetos autorais. Mas a gente quis um desvio, quis uma curva com o público. Ficar tocando em bares e pubs é legal, mas hoje, por exemplo, a gente não estaria conversando se não estivesse tocando na rua. Olha o tempo que a gente ia demorar para se encontrar tocando num bar!

Só fica quem quer. A gente pesca as pessoas pelas músicas, o que é uma grande dificuldade. Prender a atenção das pessoas em uma avenida como a Paulista, com público como o de São Paulo que está sempre corrido é uma façanha e tanto. Mas a gente quis ir direto no cerne do amor.

A indústria musical é monossílaba. Como nos anos 90, que teve o Axé, o Pagode, agora está no Sertanejo. Mas eu não me preocupo, acho que o mercado é isso mesmo. É uma pena que não tenha opção. Eu não condeno nada, nenhum trabalho. Todo suor é sagrado. O que me indigna é não mostrar algo mais, o que existe de mais. Não existe só isso. Você liga o rádio e só toca Marília Mendonça e outras. Não é possível que num país de 200 milhões que tem uns 100 mil artistas, só tem isso de bom para ser mostrado. Isso que a gente faz também é uma forma de jabá, porque a gente toca aqui, essa intervenção e esse encontro que a gente tem inesperado com as pessoas, é como se estivesse tocando numa rádio.”

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