MANIFESTO À COMUNIDADE PUQUIANA O curso de Jornalismo encerra hoje (29/10/2010) mais uma etapa da guerra permanente que é obrigado a travar para preservar a qualidade de seu ensino. O Consad (Conselho Administrativo da PUC SP) aprovou, finalmente, a instalação imediata de uma agência de jornalismo online, cuja existência é determinada pela “nova” grade curricular, aprovada em 2006, e com o início de seu funcionamento previsto para 2008. Estamos no final de 2010. Foram necessários mais de quatro anos de uma luta insana — que implicou uma quantidade imensa de energia despendida em inúmeras reuniões de departamento e com os responsáveis por todas as instâncias administrativas da universidade, além de abaixo-assinados e até uma greve geral de todo o curso — para obrigar a PUC a fazer aquilo que ela tem obrigação de fazer: colocar em prática uma reforma que ela mesmo julgou necessária. null Foto: Stefano Wrobleski/CA Benevides Paixão A mera comparação entre a quantidade brutal de energia gasta para aprovar o funcionamento da agência e aquilo que ela implica, em termos de custos para a universidade, é suficiente para evidenciar o absurdo. A agência demanda uma pequena sala – não mais do que 20m2 - quatro ou cinco computadores conectados à internet, uma linha telefônica e alguns outros aparelhos de custo irrisório, além de um professor encarregado de coordenar as atividades. Estamos falando num investimento de capital fixo inferior a 30 mil reais, para um curso que proporciona à universidade um lucro líquido superior aos 2 milhões de reais anuais. Em outros termos, o Departamento de Jornalismo, nos últimos quatro anos, foi obrigado a gastar a energia de uma bomba atômica para matar um rato. Claro que esse quadro só pode ser compreendido como resultado de motivações políticas obscuras – a menos que se prefira recorrer ao estudo de fixação de caráter tão bem desenvolvido por Sigmund Freud. A direção da Faficla (Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da PUC SP) fez o possível e o impossível para impedir a instalação da agência. Recorreu, para isso, a todo tipo de argumento burocrático e a expedientes não exatamente condizentes com o decoro universitário. E adotou essa linha de conduta por razões que só a ela cabe explicar. A “batalha da agência” explicita o poder nefasto e sombrio exercido pelo espírito mesquinho, corrosivo e destruidor dos burocratas universitários, assim descrito pelo professor Maurício Tragtenberg: “A delinquência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde ´administrar´ aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em Cemitério de Vivos”. A instalação da agência on line não resolve, é óbvio, uma quantidade imensa de outros problemas enfrentados por nosso curso – muitos, aliás, bastante semelhantes aos encontrados pela maior parte da comunidade puquiana. Mas ela tem o mérito de demonstrar que nós – os professores do Departamento de Jornalismo – vamos lutar até o limite de nossas forças contra aqueles que querem transformar a PUC em “depósito de alunos”. E temos orgulho de afirmar que não estamos sós. Todas as nossas ações – ontem e hoje - foram deliberadas conjuntamente com os nossos estudantes, sempre dispostos a erguer mais alto as bandeiras em defesa de uma universidade capaz de assumir suas responsabilidades diante de uma das nações mais desiguais e socialmente injustas do planeta. A instalação da agência on line não encerra nossa luta. Ao contrário. Entramos agora em um novo patamar de demandas e exigências, que incluem a criação de uma Faculdade de Jornalismo, em consonância com as novas diretrizes curriculares do MEC e com uma concepção agora acolhida pela Unesco: a de que a criação de faculdades de jornalismo que possibilitem um ensino crítico são hoje um instrumento necessário para alimentar e sustentar a luta pela democracia na América Latina. Navegamos, portanto, nas águas da mais combativa da tradição de nossa universidade – aquela que, contra os delinquentes acadêmicos de todo tipo, natureza e extração, acolheu, entre muitos outros, e não raro desafiando a ditadura militar, o próprio Tragtenberg (que nunca ostentou “títulos” em sua formação), Florestan Fernandes, Perseu Abramo, Octávio Ianni e Paulo Freire. Ao legado e à história que eles representam nós dedicamos a nossa luta. null Foto: Perseu Abramo em junho de 1983 (arquivo pessoal) Em reunião realizada ontem, dia 3 de Novembro de 2010, os professores escolheram por aclamação o nome de Maurício Tragtenberg para a Agência, o que significa que ela passará a se chamar Agência de Jornalismo Online Maurício Tragtenberg. LINHA EDITORIAL DA AGÊNCIA DE JORNALISMO ONLINE MAURÍCIO TRAGTENBERG I - INTRODUÇÃO: Desde 1978 o Departamento de Jornalismo da PUC prioriza em seus eixos programáticos o aprofundamento do papel desempenhado pela tecnologia informacional na garantia do direito à comunicação democrática e ao acesso à informação para a consolidação de uma cultura em direitos humanos. Em nossa última reforma curricular (implantada em 2007) percebemos que era inadiável a aposta numa ação certeira em relação à experiência da informação online (termo que designa a presença da interface computacional no processamento da informação). Sugerimos uma operação simples, mas absolutamente necessária para o atual estágio do curso de jornalismo: a implantação de uma agência de jornalismo online. O projeto da Agência Online surge, assim, a partir do seguinte tripé: 1-Urgente necessidade de experimentação e pesquisa em jornalismo online, oferecendo aos alunos uma aproximação para com os vários fluxos e redes informacionais (tarefa fundamental para a formação de um jornalista contemporâneo). 2-Movimento de convergência da produção do departamento de jornalismo (alunos e professores) para um portal comum na internet. Migração das produções do próprio departamento, incluindo produção do Núcleo Perseu Abramo de Jornalismo; da revista científica E-Verbo (em fase de construção), reportagens dos alunos, documentários, trabalhos de conclusão de curso (os TCCs), além do estabelecimento de um diálogo com o Jornal Laboratório Contraponto e demais subprodutos oriundos dos cursos de rádio, vídeo, fotografia e novas mídias. 3-Agenciamento das informações sobre direitos humanos e movimentos sociais. Captação, produção, processamento e distribuição de conteúdos oriundos do aprofundamento dos laços entre a PUC e os movimentos sociais, por meio da produção de reportagens, divulgação de notícias etc. II- DOS OBJETIVOS E DA LINHA EDITORIAL DA AGÊNCIA: A Agência de Jornalismo Online objetiva essencialmente continuar a investir em pesquisa, formação e capacitação do alunos com ênfase nessa zona de intersecção entre tecnologia da informação e direitos humanos (incluindo o direito humano à comunicação). A Agência de Jornalismo Online configura-se assim como um laboratório do curso de jornalismo e tem por objetivo desenvolver projetos e produtos concretos no jornalismo eletrônico, via Internet, nas linguagens verbal escrita e muitimidiática. A Agência deve agregar alunos do 2º, 3º e 4º anos, que tenham cursado as disciplinas "Novas Tecnologias da Comunicação" e "Jornalismo Online", do 1º ano, para produzir um site (com reportagens, artigos, vídeos, programas de rádio etc), boletins eletrônicos e outros produtos, para treinar e aperfeiçoar a prática do jornalismo na Internet, estimular o desenvolvimento de instrumental criativo e experimental e possibilitar aos estudantes o trabalho crítico e reflexivo nos meios eletrônicos. A Agência produzirá, inicialmente, com a participação voluntária dos estudantes (organizados em equipes e divididos em grupos de trabalho por editorias e horários de atividade — vide item III-Da dinâmica de trabalho e produção — um site dinâmico, com atualização diária, semanal e mensal (dependendo do tipo de informação), que tenha reportagens, artigos, agendas, material de serviço, prioritariamente nas áreas de: educação, direitos humanos, movimentos sociais, comunicação e tecnologia. Existem pelos menos três planos que recortam essas áreas prioritárias da Agência: a questão política, a tecnológica e a de linguagem. Da esfera política surgem formas de cidadania e de vida em rede. Rádios livres, telecentros, laboratórios de mídias táticas, grupos de teatro dialogando com assentamentos do MST são exemplos de politização na arte, na comunicação e na tecnologia. Além disso, emergem questões novas, como o futuro do humano e a biotecnologia, que precisam ser deslindados do ponto de vista jornalístico. Tecnológica no sentido de se verificar qual o projeto das chamadas novas tecnologias da informação na educação; como os movimentos sociais estão se apropriando das novas mídias e que cultura digital está sendo forjada a partir da própria internet. Do eixo tecnológico destacam-se também as campanhas pelo software livre, as discussões sobre os limites da propriedade intelectual (como o Creative-Commons), a luta pelo uso adequado das tecnologias que podem causar impacto ambiental, a utilização criativa dos fóruns, o projeto de enciclopédia coletiva (wikipedia), o impacto da organização WikiLeaks, a livre troca de arquivos via internet (P2P) e as demais formas de guerrilha comunicacional (via hackers). O terceiro eixo diz respeito à pesquisa de linguagem. O projeto da Agência Online de jornalismo prioriza a pesquisa de novos desenhos da informação. Experimentar novos agenciamentos para as informações sonoras, visuais, infografia, animações e outras possibilidades digitais. Nesse sentido a agência é menos um espelho do que acontece na realidade e mais um movimento de estudo, pesquisa (estamos numa universidade) e intervenção também em certos domínios pouco explorados, como por exemplo: >>EDUCAÇÃO PARA A MÍDIA >>CARTOGRAFIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS >>Direito humanos através de outras linguagens (mini docs, rádio, redes sociais) >>Acompanhamento das discussões teóricas (eventos, simpósios, exposições) sobre cultura, cibercultura, incluindo o midiativismo e o universo dos jogos eletrônicos (videogames). A Agência deve funcionar como um espaço de articulação da Universidade com a sociedade, especialmente nas áreas de prioridade, de maneira a formar jornalistas com conhecimento teórico, técnico e domínio do fazer para os veículos on-line; ao mesmo tempo, essa articulação com as áreas de cobertura visam a elaboração de material jornalístico nem sempre veiculado pela imprensa tradicional. Novas redes de comunicação afetiva são tecidas, auxiliadas pelo que sobrou do caráter não hierárquico e descentralizador da internet. Esta rede, enriquecida pela tecnologia da auto-publicação (caso dos blogs), está pautando cada vez mais a chamada grande imprensa, que perdeu completamente o vínculo com os movimentos sociais, via de regra desqualificados, criminalizados e demonizados pelos noticiários da mídia corporativa. III- DA DINÂMICA DE TRABALHO E PRODUÇÃO: Enquanto o projeto do Jornal Contraponto opera com uma pauta mensal fixa, a Agência funcionará numa outra dinâmica. É preciso ter equipes rotativas que se revezem nas coberturas. Ainda que a Agência pretenda pesquisar exatamente os desdobramentos e os sentidos da informação “ao vivo” e “em tempo real”, isso não impede de estabelecermos um rodízio de trabalho para produzirmos informações que sejam atualizadas com um mínimo de assiduidade (isso é da própria natureza de uma agência inventiva e criativa). Assim sendo, a ideia é a de trabalharmos com mini-coletivos, que possam revezarem-se nos três períodos (podendo enviar o material à distância a qualquer momento). Coletivos de Trabalho em: >>TEXTO >>ÁUDIO >>VÍDEO >>IMAGEM >>TI/IT (tecnologia da informação e infraestrutura técnica) III.1-COLETIVO TEXTO. É o dos webescritores. Responsáveis pelo material no formato da linguagem verbal escrita. >>Repórter: se possível 4 por período, cada um cobrindo uma das editorias a serem privilegiadas pela agência: Movimento Social, Educação, Direitos Humanos e Cibercultura. >>Boletim Semanal: 1 redator responsável pela elaboração do boletim semanal da agência a ser enviado por mala direta. >>Análise Mensal: 1 redator responsável pela elaboração da análise mensal da agência a ser enviado por mala direta. >>Redes: 1 alimentador da página do twitter e demais redes que julgarmos importantes. Obs: Colaboradores deste coletivo: colunistas, cronistas, contistas etc... não necessariamente cadastrados como alunos envolvidos diretamente no projeto, mas cuja colaboração será sempre bem-vinda e, se possível, como colaboração fixa. Seria oportuno estabelecer uma forma de rodízio ao longo dos meses de colaboração com a agência. Rodízio não só de tarefas no mesmo mini-coletivo, mas entre os demais coletivos. III.2-COLETIVO ÁUDIO: É o coletivo de quem quer pesquisar o universo sonoro, que não se restringe somente às matérias jornalísticas feitas nos moldes do radiojornalismo tradicional. Aqui a proposta é a de veiculação de material sonoro numa espécie de radioweb a ser gerada a partir da agência, e posterior disponibilização do arquivo em site para rádios comunitárias e/ou podcast. Além das matérias jornalísticas (oriundas das produções das disciplinas de rádio e multimeios), este coletivo poderá investir na pesquisa de programas ficcionais (transposição para linguagem radiofônica de obras literárias), mergulho no universo musical, set de músicas para DJ, ou uma mistura dos vários gêneros. A radioweb da agência pode veicular material previamente produzido, mas deve levar em consideração a produção de programação ao vivo, que pode ser a transmissão de eventos da PUC, entrevistas, recados da própria comunidade puquiana (pode-se disponibilizar um canal de áudio aberto para a comunidade), discussões sobre rádios livres, radiotivismo, etc...Outra possibilidade é o rodízio de Djs que podem transmitir ao vivo dos seus próprios computadores. Os alunos inscritos nesse coletivo também podem optar por um dos eixos da agência, para que pensem em modos de transformar as pautas desses temas em subprodutos sonoros. III.3-COLETIVO VÍDEO: Será composto por videorepórteres (a agência contará com duas câmeras digitais), que poderão desenvolver pautas autônomas e/ou acompanharem colegas de outras editorias para realizarem coberturas conjuntas (e disponibilizarem materiais em várias linguagens). Os alunos inscritos nesse coletivo também podem optar por algum dos eixos da agência, para que pensem em modos de transformar as pautas desses temas em subprodutos videográficos. Os inscritos nesse coletivo serão responsáveis pela filtragem de vídeos de sites como youtube e congêneres no sentido de selecionarem material interessante para a agência. Serão responsáveis pelo canal de comunicação para com as disciplinas de telereportagem e videoreportagem, assim como ficarão diretamente em contato coma Rede PUC e TV PUC para estabelecerem interfaces e canalizarem materiais dessas fontes para a agência. Assim como investirem na cobertura de eventos dentro da PUC. A Agência poderá produzir também minidocs, clipes, e outras formas de pesquisa na fronteira entre vídeo e ativismo. III.4-COLETIVO IMAGEM (foto e webdesign): Congrega os interessados na pesquisa visual da agência e dos seus respectivos subprodutos visuais ou imagéticos. É o coletivo dos fotógrafos, responsáveis pela produção dos ensaios fotográficos, mas também os produtores de todas as demais imagens estáticas e não estáticas (excetuados os vídeos) do site, incluindo as ilustrações, infografias etc. A ideia é montar um banco de imagens que aprofunde um olhar diversificado, seja a partir da própria PUC, seja a partir de aspectos do movimento social. Eis um grande desafio. Nesse mesmo coletivo estariam inseridos os alunos interessados em pensar o webdesign da agência, desde webdesigners propriamente ditos, especialistas em infografia, curiosos em flash, bons editores de imagem (Photoshop, Final Cut e Première que prestarão serviços às respectivas editorias). III.5-COLETIVO TI/IT (tecnologia da informação e infraestrutura técnica): É o coletivo de todos aqueles que nos ajudarão a garantir a infraestrutura técnica e a manutenção e funcionamento do site. Deve envolver desde webdesigners (que também ajudarão no coletivo de imagem) até entendidos em gerenciamento de sites com grande fluxo de informações (arquitetos da informação). IV- DOS SUBPRODUTOS DA AGÊNCIA: Inicialmente a agência redundará em 3 principais desdobramentos (que deverão ser implementados ao longo da prática de agenciamento): >>SITE propriamente dito. >>BOLETINS SEMANAIS (com os destaques do próprio site a serem enviados por mala direta). >>MATERIAL DE ANÁLISE CONJUNTURAL: boletim elencando combinação ou concorrência de acontecimentos ou circunstâncias num dado momento; conjunção de elementos de que depende a situação política, econômica, social. Envio mensal. V- DO REGIME DE ESTÁGIO DA AGÊNCIA: É possível caracterizar as horas dos alunos dedicadas à agência como atividades complementares (que são exigidas pela nova grade curricular do curso de jornalismo num total de 20hs). Ou seja, trabalhando como integrante de um dos coletivos da agência, o aluno poderá receber o equivalente a 5hs semestrais de atividades complementares. O que significa que em quatro semestres de trabalho na agência o aluno completaria as 20 hs exigidas de atividades complementares.