-Por: Matheus Lopes Quirino, de São Paulo  

Parecia mais um verão daqueles em que o jovem Elio (Timothée Chalamet) passaria entre a leitura, seu walkman e a arte, dividindo alguns cômodos da casa de veraneio com outro tutorado-hóspede de seu pai, o sr. Perlman (Michael Stuhlbarg), um mecenas da cultura e professor universitário. Contudo, o verão de 1983 tornar-se-ia mais intenso aos sentidos do ragazzo; pois, para além deste “outro”, descobre-se uma acentuada busca pelo auto-entendimento que, conforme a história se desenrola - a partir das experiências do despertar da novidade -, marcará curiosos personagens acerca de Elio em seu caminho.    
Além das casualidades rotineiras de um jovem cosmopolita de criação liberal e de senso crítico ímpar, o rapaz, acometido por um jogo de flerte e por uma inicial má impressão do hóspede – que se conserva ao primeiro mistério desta história -, dá início a um processo de envolvimento – tanto delicado, quanto enérgico – de observação dos costumes do “novo agregado” da família e, paralelamente ao misterioso Oliver (Armie Hammer), começa sua jornada de introspecção e autodescoberta.    
Nos dias dourados da flor da adolescência e da paisagem estonteante da bellla Italia, Elio deparou-se com novos ares advindos além da Península Itálica. O nome da corrente de ar era Oliver. Aos poucos, conforme o envolvimento engrenava, ao passo que as narrativas dos dois se cruzavam num marasmo intelectual - tanto para os protagonistas, quanto para os espectadores –, o fôlego, sinal vital para a trama, prendia-se ou se era solto (fosse em algum canto do centro da cidade, ou no “refúgio de Elio”), havendo, assim, um certo eco entre sussurros, choro, e mais uma porção piena de sentimentos.    
Oliver um sujeito mais velho que atravessara o Atlântico para passar uma temporada auxiliando o professor Perlman, não obstante, acaba sentindo, aos poucos, que seu intercâmbio cultural atravessaria as fronteiras dos “pretextos meramente acadêmicos”.    
Call me by your name” (“Me chame pelo seu nome, em português), de forma sutil e intensa, lança um poderoso antídoto à área geral que conserva a maioria dos romances tipificados como “primeiro amor” ou dramalhões do tipo. A questão central não é o amor por uma faceta oca ou meramente erótica. É claro, o produto que exala tomadas de emoção e suor é recheado de cortes mais lascivos no filme. Porém a questão central dá-se pelo poder e o teor da autodescoberta, aliado, certamente, com as estilísticas do erotismo, do drama, da dúvida performática tanto de Elio, quando de Oliver. Mas felizmente, não somente!    
Sem dúvida, o filme homônimo do livro não se trata de um “Romance gay”, ou um “conto erótico” e tampouco cai para o senso comum das historinhas de amor. Em CMBYN o espectador encontra um conglomerado de emoções transbordando conforme o filme ingressa no imaginário, inclusive, dos próprios protagonistas. Ademais, o romance de formação, inaugurado por Goethe na literatura (o Bildungsroman), dá o traquejo necessário para as abordagens psicológicas e, à contrarregra do clichê, essencialmente tocantes e sinceras do ideal de paixão.    
Certamente o “Bildungsroman cinematográfico” que o cineasta Luca Guadagnino propôs tem respaldo pela beleza fotográfica e pela representação do “singelo” – porém essencial - ato de descobrir-se que os protagonistas percorrem durante as possibilidades que lhe são dadas – tanto com as idas e voltas, com suas garotas, com a história e a arte. O leque da arte é utilizado com maestria sendo que, considerando a atuação, o núcleo central foi segurado com maturidade pelos dois jovens protagonistas.    
Essencialmente fotogênico. Bem ambientado. A trama finalmente desperta um sentimento de “missão cumprida”. Visto que o ciclo se fecha, quando tratamos da temática central: “A primeira paixão intensa” ou “A grande descoberta”. Do ensaio da amizade, conduzido pelo casal, dá-se, ao final da história, um diálogo narrado pelo pai de Elio, parafraseando a máxima de Montaigne, em seus ensaios (da Amizade), sobre a relação dos dois: “Porque era ele, porque era eu” (a causa central). Me chame pelo seu nome, porque era ele, porque era eu.

Avaliação: *****(ótimo)
Ficha Técnica
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: Luca Guadagnino
História: André Aciman
Cinematografia: Sayombhu Mukdeeprom
Distribuição: Sony Pictures Classics
Lançamentos 
Estados Unidos, 24 de novembro de 2017
Brasil, 18 de janeiro de 2018
Portugal, 18 de janeiro de 2018
Idioma
Inglês, Francês, Italiano.  

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